Page 9 - Anticoagulantes Orais Diretos
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em síntese
O futuro
dos anticoagulantes orais
A fibrilhação auricular (FA) é a Portugal. Estes novos fármacos Fernando Araújo
arritmia cardíaca mais frequente, apresentam várias vantagens, tais
afetando 1-2% da população e, em como: reduzidas interações com ou- Diretor do Serviço de Imuno-
indivíduos idosos, pode atingir valo- tros medicamentos ou alimentação, -hemoterapia do Centro Hospitalar
res superiores a 10%. Nos estudos farmacocinética previsível possibi-
portugueses FATA e FAMA a preva- litando a utilização de doses fixas e São João, EPE
lência foi de 1,29% acima dos 30 anos dispensando a monitorização labora- Professor da Faculdade de
de idade, 7,48% acima dos 80 anos, torial regular e, em geral, a ausência Medicina da Universidade do Porto
2,5% acima dos 40 anos e 10,4% aci- de necessidade de terapêuticas de
ma dos 80 anos, respetivamente. Em substituição em caso de procedi- experiência na sua utilização, a que
2010, havia cerca de 8,8 milhões de mentos invasivos. também não será estranha a possibi-
adultos com FA na União Europeia, Em termos clínicos os AOD pos- lidade de existirem em breve agentes
prevendo-se que este número du- suem, pelo menos, a mesma eficá- reversores específicos (no caso do
plique até ao ano 2060. Mais de 20% cia da varfarina na prevenção dos idarucizumab já é uma realidade),
dos acidentes vasculares cerebrais fenómenos tromboembólicos, mas que torna a sua utilização generali-
(AVC) isquémicos são causados por apresentam um menor risco hemor- zada e muda definitivamente o para-
FA, sendo que o tratamento hipocoa- rágico, especialmente hemorragias digma da hipocoagulação.
gulante efetivo pode reduzir em mais major (nomeadamente as intracra- Será porventura prematuro anunciar
de 60% o risco de ocorrência de AVC. nianas), bem como uma redução da o desaparecimento dos fármacos an-
Por outro lado, o tromboembolis- mortalidade, e portanto um melhor tagonistas da vitamina K (ex. próte-
mo venoso (TEV), nomeadamente a perfil de segurança. ses cardíacas mecânicas, oncologia
trombose venosa profunda (TVP) e Desta forma, assiste-se a uma ou trombofilias - ainda quem nestas
tromboembolismo pulmonar (TEP), rápida utilização deste novo grupo de duas últimas situações existam a de-
constituem também um problema medicamentos: dabigatrano (Prada- correr ensaios clínicos promissores
de saúde pública. Na população dos xa®, Boehringer Ingelheim), rivaro- -, bem como na insuficiência renal
EUA, cerca de 1 em cada 1000 indi- xabano (Xarelto®, Bayer), apixabano grave), mas a maioria dos doentes
víduos têm um evento TEV por ano (Eliquis®, Bristol-Myers Squibb/Pfi- hipocoagulados irá previsivelmente
e este número aumenta exponen- zer) e do edoxabano (Lixiana®, Daiichi mudar o padrão da anticoagula-
cialmente para cerca de 10 casos Sankyo). ção nos próximos anos, esperando
em 1000 pessoas que vivam mais de De notar que passou-se inicialmen- que isso se traduza nomeadamente
80 anos de idade, associados a uma te de uma fase em que se utilizavam numa redução do AVC no contexto da
taxa de mortalidade relevante. estes medicamentos apenas em si- FA e numa melhoria na prestação de
A prevenção do AVC associado à FA tuações muito específicas, como por cuidados de saúde em Portugal.
e o tratamento e prevenção secun- exemplo nos doentes com deficiente
dária do TEV necessitam de uma controlo de hipocoagulação (menos
anticoagulação eficaz. Até há poucos do que 60-66% do tempo em mar-
anos, as únicas opções terapêuticas gem terapêutica), proposto aos novos
anticoagulantes orais disponíveis doentes, doentes com dificuldades
em Portugal eram os antagonistas logísticas para os controlos labora-
da vitamina K (varfarina ou aceno- toriais, ou em caso de preferência
cumarol), com todas as desvanta- pessoal, para uma situação em que
gens associadas: resposta variável já são usados e aconselhados como
interindividual e múltiplas interações 1.ª linha em caso de FA (não valvular)
medicamentosas e alimentares, com e no tratamento e profilaxia secun-
necessidade de frequentes controlos dária de TVP não complicada.
laboratoriais e ajustes de dose regu- Nestes dois contextos clínicos, num
lares. período inferior a três anos, a varfari-
A partir de 2011 a prescrição dos na passou de regra a excepção.
anticoagulantes orais diretos (AOD) A confiança dos médicos nestes pro-
passou a ser uma realidade em dutos, associada a um aumento da
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