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sua melhoria. Para isso será importante na tutela do Ministério da Saúde ou que em Medicina em Portugal deva ser limi-
o efeito conjugado da intervenção dos ci- se desenvolvam modelos alternativos de tado. Com efeito, é previsível que muitos
dadãos e de outras organizações sociais prestação dos cuidados de saúde. dos licenciados terão lugar disponível em
não públicas que pressionem no sentido Um terceiro vetor que deverá merecer países mais desenvolvidos e outros po-
da melhoria da dita governação e isto uma importância crescente diz respeito derão desenvolver a nossa economia in-
porque o funcionamento das unidades aos recursos humanos e equipas de pro- terna através de atividades relacionadas
operacionais no terreno já se encon- fissionais implicados nos sistemas de com a saúde que não sejam o exercício de
tra no limite. Um exemplo sintomático saúde. Durante anos verificou-se uma po- atividades médicas propriamente ditas,
desta situação diz respeito ao colapso lítica de “numerus clausus” na admissão tendo em atenção os cortes salariais e a
de vários serviços de urgência em várias às Faculdades de Medicina com conse- elevação da carga fiscal. Ademais, a even-
locais do país no inverno de 2014/15, re- quente decréscimo de recursos médicos tual persistência de modelos rígidos de
velando uma incapacidade de previsão e e necessidade de importação de médicos organização de unidades de saúde sem a
de gestão de problemas habituais e pre- estrangeiros oriundos de países do tercei- inclusão ou mesmo orientação por parte
visíveis como foi esse inverno, com tem- ro mundo, por força do nosso baixo nível dos grupos profissionais dedicados à Saú-
peraturas dentro do habitual e um surto económico. Em simultâneo, assistiu-se de, poderá levar à real redução do número
gripal em janeiro de 2015 também sem ao paradoxo de jovens portugueses terem de efetivos (9).
gravidade a salientar. Exemplo seme- de se separar das suas famílias para ad- Uma nova geração de profissionais de
lhante foi verificado na abordagem ins- quirir formação médica além-fronteiras, saúde, médicos e não médicos, com
titucional ao problema do tratamento de com o consequente prejuízo económico e uma formação mais abrangente de co-
pacientes com Hepatite C, em que o im- social a nível interno. Em boa hora este nhecimentos de saúde, de Medicina, de
pacto social e mediático foi determinan- rumo foi alterado, permitindo um maior Gestão e de Ciências Sociais, será deter-
te na evolução dessa mesma abordagem. número de licenciados em Medicina a minante para um incremento qualita-
Estes fenómenos, associados a mudan- nível interno que poderá ser decisivo no tivo e organizacional das organizações
ças políticas em curso como respostas à desenvolvimento a curto e médio prazo de saúde portuguesas. Será previsível
deficiente capacidade das sociedades eu- dos nossos sistemas de saúde, se por- também que muitos dos procedimentos
ropeias para se adaptarem às exigências ventura a degradação do nosso ambien- médicos e de saúde se desenrolem em
e dinâmicas sociais do mundo moderno, te económico não os obrigue também a maior proximidade com os cidadãos, em
fazem prever o desenvolvimento de or- procurar alternativas profissionais fora de ambiente extra-hospitalar, em institui-
ganizações não públicas e grupos sociais Portugal. E não se pense que o eventual ções urbanas mas não necessariamente
ou políticos que exerçam mais pressão aumento dos índices de licenciamento centrais ou em instituições com uma
REVISTA PORTUGUESA DE GESTÃO & SAÚDE • N.º 20 33

