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Rui Mateus
                Marques

                Chefe de Serviço. Responsável
                do Pólo  de Radiologia do Hospital
                de S. José , Lisboa .
                  Professor Auxiliar Convidado da
                Faculdade de Ciências Médicas,
                Nova Medical School






                                          O futuro da Saúde em Portugal
                 Uma perspetiva pessoal










              Neste artigo procura-se apresentar uma   conflitos com os grupos profissionais e o   dos mesmos à margem dos principais
              perspetiva da evolução dos cuidados   desinvestimento nos centros de saúde e   intervenientes levará ao colapso do sis-
              de saúde em Portugal, tomando como   nas unidades de cuidados continuados.   tema e impedirá a manutenção de um
              orientação  fontes  de  autores  idóneos  e   Por um lado, algumas das medidas to-  nível basal de qualidade do serviço pres-
              reconhecidos (1,2,3).             madas foram compreensíveis, perante a   tado e a motivação e articulação entre os
              Um dos pontos mais relevantes a de-  falta de opções para a resolução de sérios   diversos grupos profissionais.
              bater  em relação  ao futuro  do nosso   problemas estruturais do nosso modelo   Outra vertente com previsível influência
              sistema de saúde diz respeito à sua sus-  político e económico, mas em contrapar-  no desenvolvimento do modelo funcio-
              tentabilidade  financeira  pois  constitui   tida também acarretaram riscos acres-  nal  das  unidades  de  saúde  será  o  au-
              uma variável importante para assegu-  cidos  para  a  saúde  pública.  Perguntar-  mento de participação e de interligação
              rar  o  desenvolvimento  do  Serviço  Na-  -se-á: os elevados cortes orçamentais   entre todos os intervenientes, com des-
              cional  de Saúde  (SNS). A  recente crise   efetuados no Ministério da Saúde foram   taque para a participação nas decisões
              financeira das dívidas soberanas surgiu   uma compensação pela incapacidade ou   de organizações sociais ou grupos de ci-
              inexorável e logicamente, após anos de   falta de vontade de efetuar cortes nou-  dadãos que representem os utilizadores
              governação pouco rigorosa baseada em   tras áreas menos eficientes dos serviços   e de grupos ou associações profissionais
              modelos económicos e políticos que não   públicos? Ou então, se a tutela argumen-  que representem os profissionais da saú-
              acompanharam a globalização da econo-  ta terem existido mais investimentos na   de. Não existe, em Portugal, a tradição
              mia mundial e as alterações demográfi-  saúde, mas tendo-se verificado redução   de participação dos cidadãos em grupos
              cas da Europa. Ademais, estes modelos   do número e salários dos funcionários   de trabalho ou organizações que super-
              também condicionaram o adiamento de   da saúde e redução de gastos em medi-  visionem, escrutinem ou pressionem as
              reformas estruturais da sociedade e da   camentos (OPSS 2014), então qual foi o   entidades dirigentes das organizações
              economia portuguesa. O programa de   real destino do dinheiro aplicado (5)? A   de saúde no sentido de melhorar o fun-
              restruturação da dívida pública, levado   pressão económica e financeira acabou   cionamento das mesmas. A tomada de
              ao seu apogeu, originou severos cortes   por,  em  última  análise,  dificultar  e  mi-  consciência dos seus direitos e a perce-
              orçamentais  com  reflexo  na  economia   nar a ação das direções institucionais   ção dos problemas existentes e causados
              e na redução do Produto Interno Bruto   dos organismos de saúde e a sua co-  pelas limitações orçamentais, tornam
              (PIB). Este último desceu, respetivamen-  municação e relação com os restantes   os cidadãos um elemento primordial na
              te, 2,1 % em 2011 e 3,6% em 2012, ao   profissionais,  utentes,  fornecedores  e   melhoria do sistema ao exigir e pressio-
              que se associou uma descida da despesa   colaboradores  enfim,  os  chamados  sta-  nar no sentido de correção de distorções
              e orçamento da saúde com a respetiva   keholders.  Será  determinante  infletir  a   ou de melhoria de redundâncias, de fa-
              percentagem do PIB, descendo de 9,8%   política de contenção de custos com o   lhas  ou  insuficiências (6,7). Com  efeito,
              em 2010 para, respetivamente, 9,5, 9,2   respetivo aumento da orçamentação do   a  eficácia  da  governação  em  Portugal
              e 8,9% do PIB no triénio de 2011-13   Ministério da Saúde, desde que orienta-  tem revelado limitações (OPSS, 2003) (8)
              (4).  Consequentemente,  verificou-se  a   da para investimento nas condições de   e uma relação ambivalente com o poder
              degradação das condições de vida das   trabalho, motivação e remuneração dos   político, tornando necessária uma inter-
              populações, das condições assistenciais   profissionais diretamente implicados na   venção mais alargada da parte de alguns
              nos hospitais centrais, a claudicação   prestação de cuidados. Uma política de   políticos e de organizações não estatais
              dos serviços de urgência, o aumento de   contenção de gastos ou de canalização   e de grupos de cidadãos no sentido da



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