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que mais de 50% desse tempo será para
navegar pelo processo informático co-
piando daqui e dali as informações ne-
cessárias, 30% do tempo para copiar a
descrição do episódio e exames atuais
e os restantes 20% para efetivamente O que deveria ser
fazer uma avaliação clínica e efetivar um registo clínico,
decisões. Ou seja, ao fim de 50 minu-
objetivo e conciso
tos, é possível que um médico possa
ainda estar a terminar de fazer cópias com base
e organizar retalhos de texto e ainda na restante
não tenha sequer iniciado nenhuma
informação que
tarefa clínica ou de valor acrescentado.
O tempo que sobra para essa tarefa fi- estava antes
cou mais escasso, o que obriga a ace- facilmente acessível,
lerar, prejudicando exatamente aquilo
foi transformado
que deveria ser o foco da sua atividade.
Nos dias seguintes continua a ter de numa cópia de
copiar informação de diário em diário, dados clínicos
de exame em exame. Por fim o relatório
de alta, que tem de elaborar numa dife- porque essa restante
rente seção do programa informático, o informação de
que implica voltar a ter de copiar a in- suporte passou a
formação para esse local. E uma manhã
de trabalho na enfermaria resume-se a estar indisponível
80% do tempo sentado a teclar. Valha- em tempo útil
-nos a função do teclado “copy-paste”
para facilitar a tarefa! O que deveria ser
um registo clínico, objetivo e conciso
com base na restante informação que
estava antes facilmente acessível, foi
transformado numa cópia de dados clí-
nicos porque essa restante informação
de suporte passou a estar indisponível
em tempo útil. Não é de admirar que os
serviços precisem agora de contratar
mais médicos, para poderem cumprir as
tarefas clínicas e todas as restantes que ideais para continuar a alimentar um e registos clínicos e substituindo-os por
o sistema informático recriou. sistema de saúde cada vez mais pesado uma sequência de códigos, janelas ou
Como facilmente se compreende, esta e consumidor de recursos humanos e pastas que resultam em informação de-
forma de trabalhar não é compatível financeiros. Curioso que, no final, até sintegrada e com escassa utilidade real
com a complexidade crescente das si- concluímos que o sistema de saúde está quando é necessário consultá-la. Mas
tuações clínicas onde se multiplicam a ser mais produtivo porque aumentou agora conseguimos medir, contabilizar,
exames e episódios para cada doente, o número de consultas, episódios de ur- monitorizar consumos… conseguimos
em diferentes contextos e locais, aden- gência ou exames. Não percebendo que medir o que os profissionais deixaram
sando a informação e registos. Ou o mé- esse indicador é exatamente a prova da de fazer e isso faz toda a diferença para
dico se perde a navegar pelos meandros sua ineficácia crescente! Para resolver quem governa e quem gere. Esses são os
dessa informação ou essa informação a mesma situação clínica, precisamos únicos dados que pretendem, os estatís-
fica perdida na avaliação clínica que se agora de mais tempo, mais médicos, ticos, e talvez tenha sido esse o único
torna incompleta e desintegrada. Am- mais exames (muitos deles repetidos), campo onde a informática conseguiu
bas as situações limitam uma tomada mais consultas ou idas à urgência, ser útil – para produzir uma imensidão
de decisão segura e adequada, resultan- mais despesa… E não é porque a situa- de relatórios que se revelam inconse-
do na repetição constante de exames e ção clínica é mais complexa, é porque quentes por não conseguirem sequer
consultas em torno de problemas repe- o sistema informático se tornou mais traduzir a realidade. Porque a realidade,
tidos. Temos os programas informáticos complexo, desmembrando o raciocínio essa é de quem a vive no terreno.
16 REVISTA PORTUGUESA DE GESTÃO & SAÚDE • N.º 26

