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Desde a informatização dos serviços de
saúde e, ao contrário das expectativas,
temos vindo a assistir a uma crescen-
te dificuldade na integração da infor-
mação, uma lentidão exasperante dos
servidores e computadores e uma per-
da progressiva de eficiência nas rotinas
diárias. Surgiu uma exponencial neces-
sidade de registos e cliques, na maior
parte das vezes inúteis, repetitivos ou
inconsequentes, que vieram ocupar o
tempo que deveria ser disponibilizado
à prestação efetiva de cuidados. Se os
computadores se constituem actual-
mente como um obstáculo desumani-
zador na relação médico-doente, os pro-
gramas informáticos foram a macha-
dada final para a desagregação daquilo
que deveria ser o trabalho assistencial.
Na verdade, estes programas de apoio
aos registos clínicos, por mais elabora-
dos que possam parecer, têm-se resu-
mido a funcionar quase exclusivamente
como gigantes bases de dados, sem con-
seguir passar disso. O problema é que
ao fim de tantos anos, mesmo na era da
tecnologia de ponta, os servidores ainda
não são suficientemente potentes ou
ágeis para condensar tanta informação multiplicou exponencialmente o seu
e disponibilizá-la de forma integrada e trabalho, criando a multitarefa de ter
sobretudo em tempo útil. Os programas de pesquisar, consultar, abrir e fechar
ainda não são suficientemente inteli- Isto veio criar uma ficheiros ao mesmo tempo que vai co-
gentes para integrarem ou analisarem nova e colossal piando a informação que procura para
os conteúdos nem apresentam interfa- o seu registo. É voltar a escrever o que
tarefa, mascarada
ces adequadas aos registos que são efe- já está escrito, apenas mudando a in-
tuados em diferentes contextos. Esta de registo clínico: formação de local e replicando-a tantas
gigante base de dados é dividida em a CÓPIA. Como vezes quantas os registos efectuados.
diferentes subprogramas, desconexos e Os médicos transformaram-se em co-
os programas
independentes, onde a informação é re- pistas e o maior treino diário de aquisi-
gistada de forma isolada e escondida em não permitem ção de competências que agora fazem é
intermináveis ficheiros e ramificações a visualização o uso do teclado! “Está tudo no compu-
exigindo quase um GPS para conseguir tador”, como afirmam os doentes, mas
simultânea ou
ser descoberta e consultada. passamos agora mais tempo a escrever
Isto veio criar uma nova e colossal tare- contínua dos nesse mesmo computador e demora-
fa, mascarada de registo clínico: a CÓ- diferentes dados mos mais tempo a reunir informação
PIA. Como os programas não permitem do que na era do papel! Pode parecer
a visualização simultânea ou contínua do mesmo contexto, um pormenor, não fosse esta tarefa,
dos diferentes dados do mesmo con- é necessário uma que não acrescenta nenhum valor clí-
texto, é necessário uma cópia cons- cópia constante nico, ocupar agora a maior parte do
tante da informação útil de janela para tempo de atividade de um médico, par-
janela, de diário para diário, de exame da informação útil ticularmente em especialidades inte-
em exame. Para o clínico que necessi- de janela para janela, gradoras como a Medicina Interna. Para
ta reunir toda a informação referente elaborar uma simples nota de admissão
a um utente de forma integrada e se- de diário para diário, podemos demorar mais de uma hora
quencial, esta forma de organização de exame em exame para além da entrevista clínica, sendo
REVISTA PORTUGUESA DE GESTÃO & SAÚDE • N.º 26 15

