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J. M. Gonçalves
              de Oliveira

              Diretor do Serviço de Pediatria
              do CHMA (Centro Hospitalar
              Médio Ave)





                                             Na encruzilhada do SNS
               Tributo a António Arnaut










            O Serviço Nacional de Saúde (SNS) vive dias conturbados, não   saúde quando em diversas especialidades há listas de espera
            faltando quem se atreva a prever-lhe a morte se nada for feito   para uma consulta, de um ou mais anos, ou quando não há
            para o restituir, ainda que com os condicionalismos do tempo   resposta atempada para situações que não podem esperar?
            presente, à condição sonhada pelo seu fundador, António Ar-  Nesta verdadeira encruzilhada em que se encontra o SNS, há
            naut, e consagrada na Constituição da República.   uma franja da classe média que tem aderido a seguros que lhe
            António Arnaut, num ímpeto arrojado de coragem, justiça e   garantam algum tipo de assistência no setor privado. Contudo,
            solidariedade social teve, na vigência do II Governo Constitu-  salvo situações residuais, desengane-se quem com isso julga
            cional de coligação PS/CDS chefiado pelo Dr. Mário Soares, a   poder garantir tratamento condigno para doenças mais com-
            ousadia de fazer publicar o famoso despacho ministerial divul-  plexas, ou que exijam internamentos mais prolongados.
            gado em Diário da República, 2.ª série, de 29 de julho de 1978,   Salvar o SNS, à luz dos condicionalismos do tempo presente,
            que instituiu a universalidade, generalidade e gratuitidade dos   é  um imperativo  patriótico,  sob pena  de estarmos a  pôr em
            cuidados de saúde, bem como a comparticipação medicamen-  cheque a maior conquista da democracia nascida no dia 25 de
            tosa a toda a população residente no território nacional.  abril de 1974. Aumentar o seu financiamento através de me-
            É do conhecimento da generalidade dos profissionais da saúde   canismos como, por exemplo, o copagamento para as situações
            que a maior dificuldade do SNS, sentida e agravada nos últimos   mais comuns e só a quem tenha condições económicas para
            anos,  é  a  falta  de  financiamento  para  novos  investimentos,   o fazer, poderá ser um recurso que não me repugna. Fazendo
            para  repor  equipamentos  em  fim  de  vida  e,  principalmente,   jus ao provérbio “Mais vale um pássaro na mão do que dois
            para suportar os encargos com a medicação e os meios com-  a voar”, há que ter a coragem de fazer alguma coisa. Há que
            plementares de diagnóstico, cada vez mais onerosos.   meter mãos à obra.
            Perante esta crua realidade, tem-se assistido a um acumular de   Partir para soluções abrangentes que, mesmo exigindo alguns
            dívida que torna o SNS insusten-                                         sacrifícios, preservem o SNS no
            tável. Em lugar de haver soluções                                        modelo mais aproximado ao idea-
            de fundo tendentes a resolver este                                       lizado pelo seu fundador é uma
            grave problema, procura-se disfar-                                       urgência que não pode esperar
            çá-lo com medidas avulsas e com                                          nos labirintos de discussões sem
            a  implementação  de  uma  cres-                                         resultados e, bem pior, dando voz
            cente centralização que limita e                                         a quantos anseiam vê-lo nas ante-
            desmotiva as administrações dos                                          câmaras da morte.
            hospitais e dos centros de saúde e,                                      O povo português bem o merece.
            por  arrasto,  todos  os  trabalhado-                                    Impõe-se moldá-lo às contingên-
            res da saúde.                                                            cias contemporâneas, sem nunca
            Crescente  centralização  materia-                                       capitular perante aqueles que o
            lizada na implementação de pro-                                          pretendem reduzir a uma mera as-
            tocolos,  contenção  de  despesa  e                                      sistência para pobres e indigentes.
            outras ações que têm alterado verdadeiramente o paradigma   Cerca de quatro meses após o seu desaparecimento terreno,
            do SNS, pondo em causa a sua universalidade. De facto, não   esta será sem dúvida a maior homenagem a António Arnaut,
            se está a pôr em causa o acesso da população a cuidados de   que ficou conhecido para a posteridade como o “pai” do SNS.



             44   REVISTA PORTUGUESA DE GESTÃO & SAÚDE • N.º 24
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