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Já reparou como se faz hoje a avaliação
de desempenho da maioria das
unidades de saúde? É sempre um passo
melhor do que antes mas muito longe
de poder ser considerada uma avaliação
cientificamente inatacável.
Mas a verdade é que o próprio
ministro garantiu publicamente
que a possibilidade de livre
escolha estaria completamente
implementada até ao final do
ano, pelo menos dentro do SNS,
quando todos sabemos que tal não
é possível…
Sim, o Ministro tem todo o interesse
em que a pessoas possam, de forma
responsável e esclarecida, escolher
onde querem ser tratadas. Mas veja
o que aconteceu nos concelhos da
Póvoa de Varzim e Vila do Conde
onde se promoveu um conceito ainda
limitado de livre escolha. Um número
significativo de pacientes optou por Se um dia chegar a ser Quando as urgências “rebentam
não ir para o hospital de Pedro Hispano implementado um tal sistema – pelas costuras”, vem logo alguém
que é o hospital da área de influência. envolvendo, ou não, entidades do apontar o dedo aos cuidados de
Se a tendência aumentar, o hospital de setor privado e social –, quais as saúde primários. Que deveriam
Pedro Hispano pode não ter capacidade principais mudanças que antevê oferecer uma resposta mais
financeira para se manter em funções. ao nível do modelo de avaliação e alargada. Ora, a verdade é que
Fecha-se o hospital? Antes de uma financiamento? 78% dos recursos humanos de
livre escolha – que eu considero Teremos que intensificar a ligação ao saúde estão concentrados nos
essencial num conceito ideal de Saúde setor social que gere de forma cada hospitais contra cerca de 20% nos
e para onde iremos caminhando vez mais eficiente pequenos hospitais CSP. De acordo com os modelos
talvez a um ritmo não tão acelerado e unidades de proximidade não só na internacionais que sustentam as
como gostaria o ministro da Saúde – área de cuidados continuados como muitas teorias de reforma, deveria
teremos que fazer um levantamento também em consultas e cirurgias que registar-se uma situação inversa.
exaustivo das capacidades instaladas, possam ser “deslocadas” para perto Que é de todo impossível conseguir.
das necessidades e “das vontades” das dos utentes. Aqui, existe mesmo uma Ou não?
populações que pagam para que o SNS escolha livre porque são os próprios Não é impossível conseguir. Acho
funcione. E depois caminhar para uma pacientes a “pedir” aos seus médicos que até é por aqui que teremos que
rede de parcerias inter-hospitalares de família o envio para o hospital x ou continuar a investir. Lembro que o core
que possam manter-se viáveis e y das misericórdias. No que respeita ao business na Saúde é a trajetória de cada
eficazes pela criação de sinergias e setor privado, terão que ser definidas um ao longo da vida e que, sendo os
diferenciações complementares. regras precisas de avaliação de custo- maiores custos de saúde relacionados
benefício e custo-qualidade a preços com as estadias hospitalares, há que
Pensa que no atual enquadramento equivalentes aos praticados no setor continuar a “desviar” – no bom sentido,
político a abertura aos privados público e mediante as necessidades claro – os pacientes para os CSP. Se me
deste modelo concorrencial é das populações. A disseminação fizer esta pergunta daqui a três anos
possível? indiscriminada de prestadores que são verá que a percentagem mencionada
Sinceramente acho que, salvo em pagos pelo Estado só levará ao caos terá mudado de forma significativa. É a
situações excecionais em que os e à ineficiência. Imagine como fazer minha convicção.
serviços público e social não respondam com os profissionais que têm um pé
às necessidades da comunidade, a no Estado e outro no privado? Como Ainda assim, informa o também
abertura aos privados não deverá ser regular a sua atividade para obtermos último Relatório de Produção do
considerada uma prioridade. ganhos na eficiência? SNS, entre abril de 2014 e abril de
10 REVISTA PORTUGUESA DE GESTÃO & SAÚDE • N.º 20

