A "hiperventilação" dos Cuidados de Saúde Primários
A Organização Mundial de Saúde alude que os Cuidados de Saúde Primários (CSP) são cruciais para a obtenção de promoção da saúde a nível global. Neste sentido, a Organização Mundial dos Médicos de Família (WONCA) tem estabelecido estratégias que têm permitido marcar posição dos mesmos na comunidade médica geral.

No entanto, a maioria das pessoas que consultam um Médico de Família (MF) não tem noção do caminho percorrido pelo médico para lá chegar e, muito menos, da complexidade inerente às funções e responsabilidades por ele desempenhadas.

O MF é tradicionalmente visto como o médico que apresenta uma variedade de abordagens da prática médica, e está intrinsecamente ligado ao conceito de generalista. É, talvez por isso, a especialidade médica que mais dificuldade tem tido em ser reconhecida como tal pela sociedade em geral e pela própria comunidade médica. Mas, será que podemos censurar isso?

Efetivamente ele assume, cada vez mais, uma multiplicidade de funções que englobam conhecimentos e competências em múltiplas áreas não médicas, mas que se revelam, cada vez mais, complementares e essenciais para a boa qualidade da prestação de cuidados aos indivíduos, nomeadamente, competências comunicacionais, organizativas e de gestão, informáticas, investigação, liderança e gestão emocional, de conflitos, etc. Todas estas competências são utilizadas para cuidar da pessoa e promover a sua saúde. Na prática, é o único médico que não pode dar alta ao utente, nem dizer-lhe que um determinado problema não lhe diz profissionalmente respeito.

É precisamente neste contexto de multiplicidade de temas, tarefas e competências que os MF têm trabalhado diariamente, independentemente dos tempos complicados e controversos em que vivemos. Naturalmente que, numa época em que existem poucos recursos para fazer frente a um inimigo invisível, as prioridades de atendimento nos CSP têm de ser flexíveis e definidas consoante as exigências da realidade atual. Porém, definir prioridades não significa que os MF deixem de fazer todas as outras funções referidas, o que tem levado cada vez mais à “hiperventilação dos CSP”, devido ao excesso de trabalho por parte dos seus profissionais de saúde. Por outro lado, o crescente risco da procrastinação da atenção à patologia não COVID-19, acaba por levar ao aumento da descompensação de outras patologias crónicas, bem como das suas respetivas consequências agravadas, e do aumento da insatisfação geral da população relativamente aos CSP.

Como poderemos então alterar isto? Ainda iremos a tempo?

Naturalmente, não podemos fazer o tempo andar para trás. Resta-nos olhar para o presente, projetar rápida e atempadamente o futuro e, principalmente, atuarmos com celeridade nos problemas base dos CSP em Portugal, nomeadamente: o aumento de profissionais de saúde com redução do número de utentes por lista de MF, a libertação dos médicos e enfermeiros de família de tarefas diárias de maior cariz administrativo e, mais no imediato, da realização do Trace COVID-19.

Por outro lado, e relativamente à COVID-19, ainda vamos a tempo de atuar na população geral, no sentido de atenuar a sua crescente e perigosa insensibilidade à vida e à morte do outro. Para isso, é mandatório a transparência política sobre a cruel realidade em que vivemos e o fazer passar a correta mensagem nos meios de comunicação social relativamente aos cuidados a ter para evitar a infeção SARS-CoV-2. Efetivamente, no atual momento, não chega ficar em casa e sair apenas quando imprescindível; é necessário evitar ao máximo qualquer contacto e convívio presencial com pessoas com as quais não se coabite diariamente, mesmo que sejam familiares e amigos chegados. Devemos TODOS dar o exemplo disso, independentemente da idade, profissão, classe económica ou social a que pertençamos. Naturalmente, nenhum vírus sabe ler diplomas, datas de nascimento, nem extratos bancários.

Crónicas de uma pandemia anunciada
Editorial | Jornal Médico
Crónicas de uma pandemia anunciada

Era 11 de março de 2020, quando a Organização Mundial de Saúde declarou o estado de Pandemia por COVID-19 e a organização dos serviços saúde, como conhecíamos até então, mudou. Reorganizaram-se serviços, redefiniram-se prioridades, com um fim comum: combater o SARS-CoV-2 e evitar o colapso do Serviço Nacional de Saúde, que, sem pandemia, já vivia em constante sobrecarga.

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