Hipertensão Pulmonar: é essencial uma maior articulação entre os CSP e os centros de referência
DATA
04/05/2016 19:51:29
AUTOR
Jornal Médico
Hipertensão Pulmonar: é essencial uma maior articulação entre os CSP e os centros de referência

[caption id="attachment_19061" align="alignnone" width="300"]Martins Susana “É fundamental estarmos todos em estado de alerta para a HTP. O doente apresenta-se com sintomas e sinais inespecíficos, como dispneia, fadiga, tonturas ou mesmo lipotímias. É fundamental realizar uma avaliação clínica rigorosa, realizar ECG, Rx Tórax, provas de função respiratória e ecocardiograma que pode definir o grau de probabilidade de estarmos perante uma situação de HAP.[/caption]

É necessária uma melhor articulação e diálogo entre os Médicos de Família e os especialistas dos centros de referência para a Hipertensão Pulmonar (HTP) de modo a garantir o diagnóstico precoce e a referenciação para centros especializados e acompanhamento destes doentes. O apelo é de Susana Martins, Cardiologista da Consulta de Hipertensão Pulmonar do Centro Hospitalar do Centro Hospital Lisboa Norte.

A hipertensão pulmonar não é uma doença. Trata-se de uma situação fisiopatológica da circulação pulmonar traduzida por um aumento das pressões sanguíneas na circulação pulmonar o que pode acontecer associada a muitas doenças ou isoladamente.

A classificação atual da HTP agrupa estas doenças em 5 grupos: Grupo I – hipertensão arterial pulmonar (HAP) aonde se incluem as formas idiopáticas, familiares, associadas a toxinas, a doenças do tecido conjuntivo, cardiopatias congénitas, infeção por VIH, entre outras; Grupo II – decorrente da patologia do coração esquerdo; Grupo III – associada a doenças respiratórias; Grupo IV – que inclui a doença tromboembólica crónica; Grupo V – doenças cuja causa de HTP é multifatorial ou desconhecida.

“É fundamental estarmos todos em estado de alerta para a HTP. O doente apresenta-se com sintomas e sinais inespecíficos, como dispneia, fadiga, tonturas ou mesmo lipotímias. É fundamental realizar uma avaliação clínica rigorosa, realizar ECG, Rx Tórax, provas de função respiratória e ecocardiograma que pode definir o grau de probabilidade de estarmos perante uma situação de HAP. O diagnóstico não é fácil porque a sintomatologia é inespecífica e temos de aumentar o índice de suspeição, para evitar que o diagnóstico seja tardio (em média são dois anos) e se possa iniciar terapêutica específica precoce, nos doentes com indicação, o que tem grande impacto no alívio dos sintomas, na redução da necessidade de hospitalização e na sobrevivência”, alerta Susana Martins.

“Não temos dados que nos permitam afirmar com rigor qual a prevalência actual da HAP em Portugal, devido ao facto de a doença estar subdiagnosticada. No entanto, muito devido à sensibilização que tem sido feita nos últimos anos para a sintomatologia inicial que pode indiciar a presença da doença, o número de doentes tem vindo a aumentar significativamente. Só no CHLN são seguidos mais de 250 doentes”, aponta a especialista.

Em Portugal, são quatro os centros de referência para o tratamento da HAP: o Hospital Geral de Santo António, no Porto, o Centro Hospitalar e Universitário de Coimbra, Centro Hospitalar de Lisboa Norte, EPE e o Hospital Garcia de Orta, de Almada. A criação de “Centros de Referência para o tratamento da HAP traduz um modelo organizativo para a prestação de cuidados diferenciados, o que só se pode fazer com experiência, equipas multidisciplinares, com articulação entre as várias especialidades médicas e enfermeiras altamente diferenciadas”.

Nestes centros os doentes com suspeita de HAP são sujeitos a uma série de exames que visam numa primeira fase identificar – ou excluir - outras condições associadas à sintomatologia. Susana Martins aponta alguns: “Desde logo é necessário excluir a presença de tromboembolismo pulmonar, o que é feito com recurso a cintilografia de ventilação/perfusão e a AngioTAC. Se não se encontrar uma razão, avançamos para o despiste de condições associadas, como as doenças do tecido conjuntivo (com recurso a testes de autoimunidade), que como a HAP são muito prevalentes em pessoas mais novas; cardiopatias congénitas, anemia das células falciformes e VIH, entre outras doenças. O cateterismo cardíaco direito é necessário para o diagnóstico definitivo de HAP”. Quando se diagnostica HTP no contexto de doença tromboembólica crónica é necessário ponderar se o doente beneficiará de terapêutica cirúrgica que pode curar ou aliviar de forma dramática a gravidade da doença.

Estabelecido o diagnóstico, se for confirmada HAP, o doente é submetido a terapias específicas, apenas dispensadas nas farmácias dos centros de referência para a HAP e que são totalmente comparticipadas pelo Estado.

“Após a confirmação do diagnóstico e a instituição de terapia específica, o doente é acompanhado em ambulatório, fase em que os Cuidados de Saúde Primários têm também um papel relevante a desempenhar, seja na monitorização clínica, seja na vigilância da anticoagulação oral, e noutras vertentes”, explica.

“A comunicação, a facilitação da referência e da devolução da informação entre CSP e Centros de referência é uma prioridade e uma obrigação para que os nossos doentes sejam melhor tratados. A ideia de assinalar o Dia Mundial da Hipertensão Pulmonar foi promover o diálogo entre todos, profissionais de saúde, doentes, cuidadores e comunidade”, conclui.

A mudança necessária
Editorial | Jornal Médico
A mudança necessária

Os últimos meses foram vividos por todos nós num contexto absolutamente anormal e inusitado.

Atravessamos tempos difíceis, onde a nossa resistência é colocada à prova em cada dia, realidade que é ainda mais vincada no caso dos médicos e restantes profissionais de saúde. Neste âmbito, os médicos de família merecem certamente uma palavra de especial apreço e reconhecimento, dado o papel absolutamente preponderante que têm vindo a desempenhar no combate à pandemia Covid-19: a esmagadora maioria dos doentes e casos suspeitos está connosco e é seguida por nós.

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