[caption id="attachment_16588" align="alignnone" width="300"]Mnuel Luís Capelas Manuel Luís Capelas - Presidente da Associação Portuguesa de Cuidados Paliativos[/caption]

A Medicina e os Cuidados de Saúde à medida que foram tendo a capacidade de controlar a doença, de curar o que até aí era incurável, de prolongar a vida das pessoas, foram perdendo a sua essência nuclear: cuidar o doente e não a doença, o micróbio ou o uso da tecnologia.

Dame Cicely Saunders (médica, enfermeira e assistente social) no inicio da 2ª metade do século passado, refletindo sobre os cuidados prestados aos doentes que se encontravam em fase final da sua vida e focalizando o seu trabalho nos seus doentes, constatou que seria necessário muito mais do que estava a ser feito, para que estes doentes vissem as suas necessidades físicas, psicológicas, sociais e espirituais verdadeiramente satisfeitas. Surgiram assim os cuidados paliativos modernos.

Modernos porque deixaram de assentar apenas no conforto físico, ambiental e na caridade, mas numa prática simultaneamente científica e criativa, onde o foco dos cuidados passou a ser o doente e sua família, com a procura de uma melhor qualidade de vida e de dignidade da mesma.

Atrevo-me a dizer que por tudo o que fez e pelo movimento que gerou à volta o Mundo, Dame Cicely Saunders merecia ter ganho o Prémio Nobel da Medicina. Não por ter descoberto uma molécula X, ou um tratamento Y, ou um mecanismo fisiológico Z, mas por ter feito com que se repensassem os cuidados de saúde, reivindicando a sua humanização, individualização, a focalização no doente e sua família, promovendo a qualidade de vida, a busca de sentido e a promoção da dignidade da mesma. Bem visto, voltar a colocar os cuidados de saúde nos “carris” de onde nunca deveriam ter saído.

É a partir deste movimento, que os cuidados ao doente em fim de vida começam o seu desenvolvimento exponencial, ao longo de todo o globo, procurando abranger todos os povos. Assim, nos anos 60 foi fundada a primeira unidade de cuidados paliativos (UCP) na Coreia, no “Calvary Hospice of Kangnung” em 1965, pelas irmãs católicas da “Little Company of Mary”. Dois anos mais tarde, foi fundado em Londres, o St Christopher’s Hospice, que seria a referência dos cuidados paliativos modernos. Hoje em dia, mais de 115 países dos 234 existentes têm um ou mais serviços de cuidados paliativos, com uma grande diversidade de programas, de tipologias, assim como de objetivos dos programas, especialmente no que respeita ao público-alvo

No que respeita ao nosso país, a história dos cuidados paliativos tem cerca de 20 anos, embora já desde o século XVI estes cuidados estejam já referidos em alguns textos médicos.

Pode dizer-se que, no nosso país, os cuidados paliativos iniciaram-se em 1992, com a inauguração da Unidade de Dor do Hospital do Fundão, com grande empenho do Dr. Lourenço Marques que quase de imediato se transformou no Serviço de Medicina Paliativa do mesmo hospital.

Dois anos mais tarde, surge a primeira Unidade de Cuidados Paliativos, também com valência de consultoria intra-hospitalar e apoio domiciliário, num hospital oncológico, no Instituto Português de Oncologia (IPO) do Porto em 1994, a que se seguiu mais tarde, em 2001, a do IPO de Coimbra. Neste período intercalar foi fundada, pelo Prof. Doutor Ferraz Gonçalves a Associação Nacional de Cuidados Paliativos, em 1995, e que hoje se designa de Associação Portuguesa de Cuidados Paliativos (APCP). Surgiu, também, primeira equipa de cuidados paliativos domiciliários, do país, no Centro de Saúde de Odivelas, em 1996, dirigida pela Dr.ª Isabel Galriça Neto.

Estes profissionais, e todos os que com eles abraçaram estes projetos, foram e são uns verdadeiros heróis nacionais, pois saíram da sua zona de conforto e promoveram contra ventos e marés mudança num sistema de saúde muito desligado do doente, verdadeiras mudanças, assim como, e mais importante ainda, conseguiram e conseguem promover a dignidade e vida destes doentes até à sua morte, e depois dela, prestando cuidados de elevada qualidade e competência técnico-científica.

A APCP surgiu também deste pioneirismo, em que todos os seus elementos gerentes, disponibilizaram e disponibilizam de uma forma altruísta parte das suas vidas ao desenvolvimento destes cuidados e para que a direita a eles seja de facto uma realidade, independente da sua crença religiosa, situação socioeconómica, local de residência, género, doença, idade.

Em 20 anos da sua história muito haveria para dizer, mas o mais importante a ressalvar será o grande agradecimento que todos nós, cidadão portugueses, devemos a todos que conduziram a APCP, procurando respeitar os seus princípios e valores estatutários, mas também pelo movimento nacional que souberam gerar, colocando este tema na ordem do dia, mas também um GRANDE OBRIGADO a todos os que no terreno, ajudam os doentes e suas famílias (estes, os principais heróis), a fazer a transição de serem vitimas passivas a pessoas com decisão e poder quando a morte se aproximar irreversivelmente, de deixar de lutar contra a morte mas procurar a paz.

Não prestando cuidados diretos aos doentes e sua família, o grande desiderato da APCP é procurar que existam condições para que todos estes profissionais possam prestar cuidados paliativos de qualidade, e que por outro lado os doentes possam deles usufruir.

Ainda jovem, mas com grande história, sendo que o futuro dela e de todos os que se preocupam com estes cuidados, desejarem que seja.

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O presidente da Associação Portuguesa de Cuidados Paliativos (APCP), Manuel Luís Capelas, lançou um repto à Direção-Geral da Saúde para interceder junto do Ministério da Educação para que todos os profissionais de saúde tenham formação em cuidados paliativos.

“Lancei o repto à Direção-Geral da Saúde” no sentido de interceder “junto das entidades competentes (Ministério da Educação e Ciência) para que faça pressão” no sentido de criar “alguma regulamentação que ‘obrigue’ todas as faculdades de Medicina e as escolas superiores de enfermagem” a ter formação básica em cuidados paliativos, disse Manuel Luís Capelas.

Este apelo vai no seguimento de recomendações feitas em todos os relatórios nacionais e internacionais desta área, segundo as quais “é fundamental, imperioso e necessário” que “se faça uma “formação em massa de todos os profissionais que intervêm nos cuidados de saúde”, adiantou o especialista, que falava à agência Lusa a propósito do Dia Mundial dos Cuidados Paliativos, assinalado no último sábado.

Para Luís Capelas, a formação dos profissionais de saúde é uma necessidade premente devido ao envelhecimento da população.

“O paradigma do doente agudo já deixou de existir. Neste momento temos cada vez mais pessoas com doença crónica, pessoas cada vez mais idosas, pessoas cada vez com mais dependência dos serviços de saúde”, sustentou.

Para o especialista, a resposta “integrada e adequada” para estes doentes “é incorporar os cuidados paliativos nos cuidados a estes doentes”.

Para isso, os profissionais “precisam, pelo menos, de estar formados sobre o que são os cuidados paliativos, “se não continuamos a achar que são carinho, conforto”, e servem apenas para dar morfina.

“Se conhecermos as unidades de cuidados paliativos, se formos aos locais, se conhecermos aquilo de muito bom se faz neste país, seja a nível público ou privado”, e a nível internacional vamos ver doentes com prognósticos de vida superiores a anos, elucidou.

Daí a importância da referenciação precoce dos doentes: “Quanto mais cedo forem sinalizados e referenciados melhores são os resultados que se obtêm, seja em termos de impacto da saúde, na qualidade de vida dos doentes, na família”, mas também no próprio sistema de saúde.

O lema deste ano do Dia Mundial dos Cuidados Paliativos é "Vidas Ocultas, Doentes Esquecidos” e tem como alvo “populações que pelas suas características de vida e doença se vêm muitas vezes ignoradas e esquecidas, quando preenchem todos os requisitos para serem encaminhadas e usufruírem de cuidados paliativos”.

Este data é importante para “alertar para a necessidade da acessibilidade universal e equitativa de todas as pessoas aos cuidados paliativos”, salientou Luís Capelas.

Em Portugal, estima-se que, anualmente, 60 mil doentes necessitem destes cuidados, mas apenas cerca de 2.500 recebem este tipo de apoio por ano.

Segundo dados divulgados pela APCP, 64% das pessoas com doença prolongada e incurável morrem nas camas hospitalares sem acesso a cuidados domiciliários.sem acesso a cuidados domiciliários.

Lusa/Jornal Médico

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nacional_cuidados_paliativos_01Um estudo da Associação Portuguesa de Cuidados Paliativos (APCP) concluiu que os distritos de Aveiro, Leiria e Santarém e os Açores não têm cuidados paliativos e que metade dos doentes referenciados morre sem acesso a este tipo de assistência.

A propósito do Dia Mundial dos Cuidados Paliativos, que se assinala sábado, a associação divulgou um estudo que se baseou na análise do desenvolvimento destes cuidados desde 1988.

“Até à data, os passos que foram dados em Portugal são residuais para que a integração deste serviço seja uma realidade. Continuam a morrer pessoas todos os dias sem acesso aos cuidados paliativos”, refere o presidente da APCP e o principal relator do estudo, Manuel Luís Capelas.

De acordo com as conclusões do estudo, “a oferta de cuidados paliativos é a que mais se distancia das metas inicialmente delineadas, devido à quase total inexistência de equipas comunitárias de cuidados paliativos hospitalares e domiciliários”.

Para os autores do estudo, “a escassez de número e de formação dos profissionais que integram estas equipas, uma referenciação tardia e inadequada e a dificuldade geográfica de acesso” são algumas das causas que contribuem para estes “resultados preocupantes”.

A investigação indica que “o tempo de espera dos doentes é de cerca de 40 dias”, que “o número de doentes referenciados não corresponde à realidade” e que os indicadores de qualidade são “inadequados”.

Dados da European Association for Palliative Care, citados pela APCP, indicam que, em 2013, “Portugal estava na cauda nos países da união europeia, com 5,05 serviços por milhão de habitantes”. Atrás de Portugal “apenas o Chipre, Grécia, os países de Leste, do Báltico e os da antiga União Soviética”.

O estudo conta ainda com uma análise aos programas de cuidados paliativos nos Estados Unidos, Canadá, Espanha e no Algarve, a qual apurou “uma redução significativa, não só nos custos para o Estado, como também uma diminuição significativa do número de internamentos hospitalares, idas às urgências, medicamentos e exames”.

No Algarve, lê-se nas conclusões do estudo, registou-se uma diminuição de custos para o Estado na ordem dos 3.000 euros por doente nos últimos 30 dias de vida.

Concluem os autores que “estes cuidados, só por si, têm impacto positivo na qualidade de vida dos doentes e família, na equipa, nos outros profissionais de saúde das instituições, na forma como se abordam as doenças crónicas, na formação de outros profissionais, na promoção da prestação de cuidados compreensivos e na redução da mortalidade hospitalar".

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O novo normal e a nova realidade – que alterações provocadas pela pandemia vieram para ficar?
Editorial | Jornal Médico
O novo normal e a nova realidade – que alterações provocadas pela pandemia vieram para ficar?
Acertar procedimentos e aperfeiçoar métodos de trabalho. Encontrar uma nova visão e adotar uma nova estratégia útil na nossa prática clínica quotidiana. Valorizar as unidades de saúde por estarem a dar as respostas adequadas e seguras é o mínimo que se exige, mas é urgente e inevitável um plano de investimento nos centros de saúde do Serviço Nacional de Saúde.

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