[caption id="attachment_7965" align="alignnone" width="300"]Pinto, João João Pinto
Unidade de Parasitologia Médica,
Instituto de Higiene e Medicina Tropical,
Universidade Nova de Lisboa
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No próximo dia 7 de Abril celebra-se o Dia Mundial da Saúde, este ano dedicado às doenças transmitidas por vectores1. A escolha deste tema é o reconhecimento de uma crescente preocupação ao nível da saúde mundial. Outrora tidas como patologias exóticas, a maioria de origem tropical, assiste-se hoje a uma crescente globalização das doenças transmitidas por vectores. Os desafios impostos pelas alterações climáticas e ambientais, o aumento da mobilidade das populações humanas e a deterioração das condições socioeconómicas nos países desenvolvidos trouxeram estas patologias de volta à agenda científica e política. Das 17 doenças tropicais reconhecidas pela Organização Mundial de Saúde como doenças negligenciadas, seis são infecções transmitidas por insectos2. Algumas destas infecções são ainda consideradas doenças emergentes ou reemergentes3.

Exemplos recentes atestam o potencial para o ressurgimento de doenças transmitidas por vectores. Em 2007, ocorreu no norte da Itália uma epidemia causada pelo vírus Chikungunya. Esta epidemia surgiu após a introdução e dispersão do mosquito vector Aedes albopictus nesta região e em vários países da Europa Ocidental4. Os EUA foram afectados por uma epidemia de febre do Nilo Ocidental (WNV) no início de 2000. Após a introdução do vírus em Nova Iorque terá demorado menos de cinco anos para que a epidemia se disseminasse pela maior parte do território norte-americano, resultando em mais de 1.500 mortes5. Na Europa, entre os maiores surtos de WNV destacam-se os que ocorreram na Roménia (1996) e na Grécia (2010). Em 2013, casos autóctones de WNV continuam a ser relatados em países como a Áustria, Grécia, Hungria, Roménia, Rússia e Sérvia. À semelhança destas arboviroses, também o ressurgimento de doenças parasitárias transmitidas por vectores tem vindo a ser reportado no continente Europeu. Na última década, casos autóctones de malária foram notificados em Espanha, França, Itália e, mais recentemente, na Grécia (2009-2012).

Apesar do investimento internacional desde o início dos Objectivos de Desenvolvimento do Milénio das Nações Unidas, a malária permanece como um dos maiores problemas de saúde pública em regiões tropicais e subtropicais. Plasmodium falciparum é o parasita responsável pela maioria das mortes, principalmente em crianças menores de cinco anos de idade. A África é o continente mais afectado, onde ocorrem mais de 90% das perto de um milhão de mortes anuais por malária.

A prevalência global da leishmaniose estima-se em cerca de 12 milhões de casos humanos, com perto de dois milhões de novos casos por ano. Na região Mediterrânica, a leishmaniose visceral é causada por Leishmania infantum, que tem o cão como reservatório doméstico e afecta particularmente as crianças e os adultos imunocomprometidos. A resistência aos fármacos é uma preocupação crescente devido ao número limitado de medicamentos disponíveis para o tratamento da leishmaniose animal e humana.

Outro exemplo paradigmático são os recentes surtos de dengue na América do Sul, em particular no Brasil. A febre de dengue tem um impacto global, causando ca. 20 mil mortes por ano e encargos económicos na ordem dos 1.800 milhões de dólares por país endémico. Como para muitas outras arboviroses, não existem vacinas ou tratamentos específicos para a dengue e o controlo de vectores é a estratégia mais eficiente para a sua prevenção.

Portugal não tem sido invulnerável às doenças transmitidas por vectores. O nosso país é endémico para a leishmaniose, que apresenta três focos activos históricos (regiões do Algarve, Lisboa e Trás-os-Montes). Mas a transmissão desta parasitose por insectos do género Phlebotomus ocorre em todo o território continental. Contudo, o mais recente problema de saúde pública foi a epidemia de dengue que afectou a ilha da Madeira em 2012. Entre Outubro e Novembro, um total de 2.168 casos de dengue foram notificados numa população de ca. 270 mil habitantes6. Uma recentemente estabelecida população do mosquito Aedes aegypti, introduzida na primeira metade da década de 2000, terá sido responsável pela transmissão desta arbovirose naquela região autónoma.

Perante este cenário, estarão os sistemas de saúde Europeus preparados para os desafios impostos por estas “novas” doenças? No que a Portugal diz respeito, estamos em crer que existem bons indicadores. Desde 2008, temos um sistema nacional de vigilância de vectores (REVIVE) implementado no país, a cargo do Instituto Nacional de Saúde Doutor Ricardo Jorge (INSRJ)7. Ao nível da investigação científica, Portugal tem hoje grupos de investigação líderes na temática das doenças transmitidas por vectores. A resposta rápida e eficiente dos serviços de saúde da Região Autónoma da Madeira ao recente surto de dengue, com a colaboração de parceiros como o Instituto de Higiene e Medicina Tropical (IHMT), o INSRJ e o European Centre for Disease Prevention and Control, e a supervisão da Direcção-Geral da Saúde, pode considerar-se um caso de sucesso.

É também neste contexto que o IHMT desempenha um papel relevante. O IHMT oferece hoje o único curso de Mestrado em Parasitologia Médica existente no país8. A temática das doenças transmitidas por vectores está presente em disciplinas nucleares como a Entomologia Médica e a Protozoologia Médica. A oferta formativa sobre doenças transmitidas por vectores está também representada nos programas curriculares de outros cursos do IHMT. Ao nível da investigação, o IHMT está a redireccionar a sua estratégica científica para fazer face aos novos desafios, em linha com a agenda de investigação da União Europeia9. O rosto mais evidente deste redireccionamento consistiu na submissão à Fundação para a Ciência e a Tecnologia de um novo centro de investigação: Saúde Global e Medicina Tropical. O centro tem estruturado um grupo de investigação em doenças transmitidas por vectores e centra a sua actividade em duas linhas temáticas: i) os desafios da saúde de viajantes e migrantes; ii) doenças emergentes e mudanças ambientais e climáticas.

Não obstante os indicadores promissores haverá ainda um longo caminho a percorrer. Este caminho passará pela definição de políticas de saúde, o desenvolvimento de novos métodos de diagnóstico, de estratégias terapêuticas e de prevenção mais eficazes e de programas de sensibilização comunitária. Não será um caminho exclusivo de Portugal, mas partilhado ao nível internacional. Assim se justifica a temática escolhida para o Dia Mundial da Saúde 2014. Compete a todos nós zelar para que a efeméride não seja demasiado efémera. E não esquecer que a emergência de doenças transmitidas por vectores é um fiel indicador da degradação das condições socioeconómicas das populações.

ReferÊncias:

1. WHO. 2014. World Health Day, 2014. Small bite: Big Threat. (http://www.who.int/campaigns/world-health-day/2014/en/)

2. WHO. 2014. The 17 neglected diseases. (http://www.who.int/neglected_diseases/diseases/en/)

3. NIAD. 2014. List of NIAID Emerging and Re-emerging Diseases. (http://www.niaid.nih.gov/topics/emerging/Pages/list.aspx)

4. Magurano F, Fiorentini C, Marchi A, Benedetti E, Bucci P, Boros S, Romi R, Majori G, Ciufolini MG, Nicoletti L, Rezza G, Cassone A. 2007. Chikungunya in north-eastern Italy: a summing up of the outbreak. Euro Surveill. 12(47): pii=3313.(http://www.eurosurveillance.org/ViewArticle.aspx?ArticleId=3313)

5. Petersen LR, Brault AC, Nasci RS. 2013. West Nile virus: review of the literature. JAMA 310(3):308-315. (http://jama.jamanetwork.com/article.aspx?articleid=1713596)

6. Sousa CA, Clairouin M, Seixas G, Viveiros B, Novo MT, Silva AC, Escoval MT, Economopoulou A. 2012. Ongoing outbreak of dengue type 1 in the Autonomous Region of Madeira, Portugal: preliminary report. Euro Surveill. 17(49): pii=20333.(http://www.eurosurveillance.org/ViewArticle.aspx?ArticleId=20333)

7. REVIVE – Rede de Vigilância de Vectores. (http://www.insa.pt/sites/INSA/Portugues/AreasCientificas/DoencasInfecciosas/AreasTrabalho/EstVectDoencasInfecciosas/Paginas/Revive.aspx)

8. IHMT. 2014. Mestrado em Parasitologia Médica: apresentação. (http://www.ihmt.unl.pt/?lang=pt&page=ensino-e-formacao&subpage=mestrados&subsubpage=parasitologia-medica)

9. European Commission. 2014. Horizon 2020 in brief. The EU Framework Programme for Research & Innovation. (http://ec.europa.eu/programmes/horizon2020/en/news/horizon-2020-brief-eu-framework-programme-research-innovation)

Published in Opinião
O novo normal e a nova realidade – que alterações provocadas pela pandemia vieram para ficar?
Editorial | Jornal Médico
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Acertar procedimentos e aperfeiçoar métodos de trabalho. Encontrar uma nova visão e adotar uma nova estratégia útil na nossa prática clínica quotidiana. Valorizar as unidades de saúde por estarem a dar as respostas adequadas e seguras é o mínimo que se exige, mas é urgente e inevitável um plano de investimento nos centros de saúde do Serviço Nacional de Saúde.

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