Leandro Santos Silva: O impacto de um eczema "incomum"
DATA
15/09/2022 09:23:48
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Leandro Santos Silva
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Leandro Santos Silva: O impacto de um eczema "incomum"

Leia o artigo de opinião da autoria de Leandro Santos Silva, dermatologista no Hospital Egas Moniz, a propósito do Dia Mundial da Dermatite Atópica, assinalado a 14 de setembro, uma doença cutânea crónica, inflamatória, caracterizada por prurido intenso e lesões eczematosas. Estima-se que 4,4% da população europeia e milhões de pessoas em todo o mundo vivam com dermatite atópica. 

O eczema atópico ou dermatite atópica é uma doença genética agravada por fatores ambientais e representa uma das manifestações da doença atópica, tal como a asma ou a rinossinusite.

A descrição de eczema atópico provém do grego eczema, que significa “ferver” e atopos, que significa “fora do lugar ou incomum”. O termo “ferver” remete para a sintomatologia, com queixas de prurido ou ardor cutâneo. No entanto, a designação de “incomum” não reflete a elevada prevalência da doença, que chega a afetar 10 a 20% das crianças e até 10% dos adultos.

Trata-se de uma patologia que pode surgir em qualquer fase de vida, apesar de ser mais frequente nas crianças, com 60% dos casos a surgir no primeiro ano de vida. Na maioria dos doentes, o eczema atópico torna-se mais ligeiro ou desaparece com a idade, mas é importante reforçar que pode persistir ou mesmo surgir em idade adulta.

O eczema atópico tem várias faces e as suas manifestações clínicas variam entre doentes e podem diferir no mesmo doente, de acordo com a idade. Tipicamente, manifesta-se a partir dos 3 meses, afetando a face e superfícies extensoras dos membros. A partir dos 2 anos, começa a afetar predominantemente as regiões flexoras do corpo e nos adultos pode manifestar-se também como eczema das mãos ou das pálpebras. O seu diagnóstico é clínico, mas dada a heterogeneidade de apresentações, pode confundir-se com outras patologias dermatológicas, entre as quais, outros eczemas, psoríase ou infeções cutâneas.

O impacto da doença está expresso em dois dos seus critérios de diagnóstico: cronicidade e prurido. O prurido é indubitavelmente o sintoma cardinal desta patologia, sendo este que provoca as lesões. O facto do doente se coçar leva à libertação de mediadores químicos que agravam o prurido, estabelecendo-se assim um ciclo vicioso de prurido-coceira.

O eczema atópico é uma das patologias cutâneas com maior interferência negativa na qualidade de vida dos doentes - cerca de 85% refere prurido diário e mais de 30% tem alterações do sono. Para além do impacto físico, o reflexo da repercussão psicossocial, com sentimentos de vergonha, ansiedade e isolamento social acaba por estar espelhado na maior proporção de pessoas, que têm sintomas depressivos e ideação suicida (quase o dobro da população geral).

As consequências não se restringem apenas aos doentes, mas a todo o agregado familiar: se as crianças não dormem, os pais também não, o que resulta num aumento da fadiga, maior défice de concentração e menor rentabilidade escolar e profissional.

Sendo esta doença crónica e recidivante, ou seja, com períodos de agravamento que alternam com períodos de remissão, o tratamento deve basear-se na evicção de fatores desencadeantes, na aplicação diária de emolientes, na utilização de medicamentos tópicos e, em situações mais graves, na utilização de tratamentos sistémicos.

Nos últimos 5 anos assistimos aos maiores avanços terapêuticos do eczema atópico, com a aprovação de fármacos orais e injetáveis, com boas taxas de eficácia e segurança. Apesar de se tratar de uma patologia sem cura, as perspetivas atuais são animadoras e oferecem esperança aos doentes, com o desenvolvimento de fármacos inovadores que demonstram uma diminuição do número e gravidade das crises de eczema, bem como melhorias na sintomatologia e aumento dos índices de qualidade de vida.

You've got mail! - quando um aumento da acessibilidade não significa melhoria da acessibilidade
Editorial | António Luz Pereira, Direção da APMGF
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No ano de 2021, foram realizadas 36 milhões de consultas médicas nos cuidados de saúde primários, mais 10,7% do que em 2020 e mais 14,2% do que em 2019. Ou seja, aproximadamente, a cada segundo foi realizada uma consulta médica.