Ana Barbosa: “Qualidade de vida na osteoartrose: O papel dos AINE e a importância da gastroproteção no tratamento dos doentes com osteoartrose”
DATA
14/09/2022 09:05:34
AUTOR
Ana Barbosa
Ana Barbosa: “Qualidade de vida na osteoartrose: O papel dos AINE e a importância da gastroproteção no tratamento dos doentes com osteoartrose”

Leia o artigo de opinião da autoria de Ana Barbosa, especialista em Medicina Geral e Familiar (MGF) do Centro de Saúde de Darque da Unidade Local de Saúde do Alto Minho, referente às estratégias a adotar e o impacto dos médicos de MGF em minimizar a dor dos doentes associada a doenças crónicas, nomeadamente a osteoartrose, tendência que se prevê crescente tendo em perspetiva o aumento da esperança média de vida.

A dor é um dos motivos de consulta mais frequentes nos Cuidados de Saúde Primários, com forte impacto físico, psicológico e socioeconómico, e responsável por um consumo importante de recursos em saúde. Se tivermos em consideração o aumento da esperança media de vida e o consequente envelhecimento da população prevê-se que este flagelo aumente nos próximos anos, muito à custa de patologias frequentes nas faixas etárias mais velhas, como é o caso da osteoartrose (OA).  

A osteoartrose é uma das doenças crónicas mais frequentes nos dias de hoje e, com o aumento da esperança de vida, quer a sua prevalência quer a sua incidência tendem a aumentar. Apresenta uma evolução progressiva que condiciona perda funcional e de qualidade de vida, com forte impacto psicológico e socioeconómico. Os Cuidados de Saúde Primários assumem papel fundamental no diagnóstico e seguimento destes doentes. O seu manejo é complexo e a abordagem terapêutica deverá ser multidisciplinar e integrar intervenções farmacológicas e não farmacológicas. 

Os anti-inflamatórios não esteroides (AINE) estão entre os fármacos mais usados em todo o mundo e fazem parte do grupo de fármacos de primeira linha na gestão da dor e inflamação, na agudização da osteoartrose.

Estima-se que o risco de complicações gastrintestinais (GI) associado ao consumo de AINE seja 4 a 5 vezes superior ao da população que não toma estes fármacos e ainda mais elevado em idosos e/ou indivíduos com antecedentes de úlcera péptica. Existem muitos fatores de risco para o desenvolvimento de complicações GI durante o tratamento com AINE, como: idade >65 anos, patologias associadas ou terapêutica concomitante com outros fármacos que aumentem este risco (um exemplo clássico é a toma de acido acetilsalicílico para a prevenção cardiovascular). Em Portugal, cerca de 800 000 pessoas tomam, diariamente, AINE. Estes fármacos representam 7,6% do total da despesa com medicamentos no nosso país, só superados pelos psicofármacos e anti-hipertensores.

Um estudo realizado em Portugal em 9 centros hospitalares encontrou 291 admissões por hemorragia digestiva alta associada ao consumo de AAS/AINE durante o ano de 2006, relativas a 280 doentes. Estas admissões representaram 20% do total de internamentos por hemorragia digestiva alta. De acordo com a mesmo estudo a incidência anual de hemorragia digestiva alta associada ao consumo de AAS/AINE foi de 11,6 por 100 000 habitantes.

As lesões gastrointestinais podem ser precoces (horas a dias), são dependentes da dose e potência farmacológica e a gravidade da clínica é variável, desde dispepsia a hemorragia digestiva potencialmente fatal. Os sintomas GI, tais como o refluxo gastroesofágico, podem preceder lesões gastrointestinais, no entanto, mais de metade dos utilizadores de AINE com complicações graves da úlcera péptica não teve quaisquer sintomas GI prévios, e muitos doentes que têm sintomas GI podem não sofrer lesões na mucosa. Assim, os sintomas GI não são preditores fiáveis do surgimento de lesão GI. 

A Medicina Geral e Familiar assume-se como uma especialidade abrangente, com uma visão holística e orientada para a gestão simultânea de problemas agudos e crónicos. A gestão terapêutica é uma problemática cada vez mais presente na prática clínica de um médico de família. A população idosa, frequentemente polimedicada e com outras comorbilidades associadas, representa um desafio no dia-a-dia do médico de família. A agudização de patologia osteoarticular representa um motivo de consulta muito frequente nos CSP, sobretudo nas faixas etárias mais velhas. Pelas suas caraterísticas, a abordagem terapêutica destes doentes merece especial atenção. Por outro lado, o alívio da dor é um direito universal que deve ser assegurado e estar presente na prática clinica de qualquer médico.

O desenvolvimento de estratégias para minimizar os efeitos adversos dos AINE assume-se como ferramenta fundamental na gestão destes doentes. Estas estratégias incluem uma avaliação criteriosa em função do risco individual, a erradicação da Helicobacter pylori, o uso de agentes com melhor perfil de segurança e a proteção gástrica, preferencialmente com recurso aos inibidores da bomba de protões (IBP), que demonstrou ser uma estratégia eficaz para reduzir o risco de úlcera gástrica associada aos AINE.

A maioria das guidelines e recomendações clínicas aconselham a administração concomitante de inibidores da bomba de protões para a gastroproteção durante a administração de AINE de forma a mitigar os efeitos secundários GI, principalmente nos doentes em risco. Apesar desta recomendação, cerca de 50% dos doentes em risco não recebem gastroproteção. Ao mesmo tempo, 15-30% dos doentes não são aderentes à co-prescrição do IBP, as principais razões são o esquecimento e a baixa intensidade das queixas GI. 

A formação e sensibilização dos profissionais de saúde para esta problemática e o investimento na melhoria da literacia em saúde dos nossos utentes são parte fundamental do caminho para o adequado tratamento da osteoartrose e consequente melhoria da qualidade de vida dos nossos utentes.




Bibliografia 

  • Mäntyselkä P, Kumpusalo E, Ahonen R, Kumpusalo A, Kauhanen J, Viinamaki H, et al. Pain as a reason to visit the doctor: a study in Finnish primary health care. Pain. 2001;89:175–80.
  • Jones RBNCL, Gass D, Grol R, Mant D, Silagy C. The nature of primary medical care. London: Oxford University Press; 2003.
  • Conaghan PG. Rheumatol Int. 2012;32:1491–502.
  • Scarpignato C & Hunt R. Gastroenterol Clin North Am. 2010;39:433–64.
  • Guidelines NICE (Pág. 16); 
  • Conaghan PG. Rheumatol Int. 2012;32:1491–502. ; 
  • Bhala N, et al; Coxib and traditional NSAID Trialists’ (CNT) Collaboration. Lancet 2013;382:769–79.; 
  • Warlé-van Herwaarden M, et al.; 
  • Scarpignato C, et al. International NSAID Consensus Group. BMC Med. 2015;13:55.;
  • Bannuru RR, et al. Osteoarthritis Cartilage 2019;27:1578–89.; 
  • Bruyère O, et al. Semin Arthritis Rheum. 2019;49:337–50.;  
  • Pham K & Hirschberg R, Global Safety of Coxibs and NSAIDs. Current Topics in Medicinal Chemistry 2005, 5, 465-473 ;  
  • Van de Laar, M., Schöfl, R., Prevoo, M. and Jastorff, J., Predictive value of gastrointestinal symptoms and patient risk factors for nsaid-associated gastrointestinal ulcers? An analysis using naproxen data from randomised phase 3 clinical trials. Poster presented at Dutch Pain Congress in 29 October 2021.
  • Davis A & Robson J. Br J Gen Pract. 2016;66:172–3.; 
  • Moore RA, et al. Pain Pract. 2014;14:378–95.; 
  • Goldstein JL, et al. Clin Gastroenterol Hepatol. 2006;4:1337–45.; 
  • Sostres C, Carrera-Lasfuentes P, Lanas A. Curr Med Res Opin. 2017;33:1815–20.
  • Goldstein JL, et al. Clin Gastroenterol Hepatol. 2006;4:1337–45
  • Scheiman et al. Prevention of ulcers by esomeprazole in at-risk patients using non-selective NSAIDs and COX-2 inhibitors. Am J Gastroenterol 2006; 101: 701–10.; 
  • Graham et al. Ulcer prevention in long-termu sers of nonsteroidal anti-inflammatory drugs: results of a double-blind, randomized, multicenter, active- and placebocontrolled study of misoprostol vs lansoprazole. Arch Intern Med 2002; 162:169–75.;  
  • Hawkey et al. Omeprazole compared with misoprostol for ulcers associated with nonsteroidal antiinflammatory drugs. Omeprazole versus Misoprostol for NSAID-induced Ulcer Management (OMNIUM) Study Group. N Engl J Med 1998; 338: 727–34
  • Duarte PEREIRA1, Elisabete RAMOS, Jaime BRANCO, Osteoarthritis. Acta Med Port. Jan-Feb 2015;28(1):99-106.
  • Cardoso M. Complicações gastro-intestinais por AINE – dados em Portugal. Comunicação oral no XXI Congresso Nacional de Gastrenterologia e Endoscopia Digestiva, 2001 Endonews 2003;5:14-15. 
  • Alves A, Furtado C. Análise do crescimento da despesa no mercado total de medicamentos 2003-2004. Observatório do Medicamento e Produtos de Saúde, 2005 (Infarmed). 
  • Wilcox CM, Allison J, Benzuly K, et al. Consensus development conference on the use of nonsteroidal anti-inflammatory agents, including cyclooxygenase-2 enzyme inhibitors and aspirin. Clin Gastroenterol Hepatol 2006;4:1082-1089.
You've got mail! - quando um aumento da acessibilidade não significa melhoria da acessibilidade
Editorial | António Luz Pereira, Direção da APMGF
You've got mail! - quando um aumento da acessibilidade não significa melhoria da acessibilidade

No ano de 2021, foram realizadas 36 milhões de consultas médicas nos cuidados de saúde primários, mais 10,7% do que em 2020 e mais 14,2% do que em 2019. Ou seja, aproximadamente, a cada segundo foi realizada uma consulta médica.