Joana Abrantes: "Teletrabalho – Novo desafio para a MGF: prós e contras na Saúde Mental"
DATA
23/08/2022 12:23:16
AUTOR
Joana Abrantes
ETIQUETAS

Joana Abrantes: "Teletrabalho – Novo desafio para a MGF: prós e contras na Saúde Mental"

Leia o artigo de opinião da autoria de Joana Abrantes, Interna de Medicina Geral e Familiar do 4º ano na USF Amoreira, no Centro de Saúde de Elvas, acerca da prática do teletrabalho e das consequências no bem-estar psicológico dos trabalhadores devendo, por isso, existir uma maior aposta na Medicina do trabalho, por parte das empresas. 

A Medicina Geral e Familiar promove a saúde e o bem-estar das comunidades e deve estar apta a responder aos novos desafios. Como médica interna de MGF, interessa-me, e preocupa-me, esta nova e emergente realidade que é o teletrabalho.

Não se tratando de um conceito novo, nem sequer a sua prática, este tipo de atividade sofreu uma forte implementação no contexto da pandemia COVID-19. O mundo laboral sofreu alterações profundas devido aos vários confinamentos, havendo necessidade de recorrer, de forma imprevista e sistemática, ao teletrabalho.

Começou a problematizar-se o impacto que estas novas formas de trabalho têm na Saúde Mental dos indivíduos. Têm surgido estudos neste âmbito. Porém, não permitem, até ao momento, conclusões sólidas. Convém sublinhar que a adesão voluntária ao teletrabalho não pode ser avaliada de forma equivalente a uma situação de teletrabalho obrigatório, em contexto de pandemia/confinamento, nem terá as mesmas implicações na saúde do indivíduo. Diogo Guerreiro define Saúde Mental em contexto laboral como a “criação de ambientes e condições de trabalho que promovam o bem-estar do indivíduo e da organização, tanto a nível mental como físico…”.

Preocupa-nos, então, o reflexo que estes novos desafios têm provocado no bem-estar dos trabalhadores e como devemos cuidar da sua Saúde Mental, perante alguns dos efeitos já visíveis e detetados.

A globalidade dos autores refere fatores positivos e negativos do teletrabalho. Ribeiro et al constataram como efeitos positivos aspetos como horários mais flexíveis; melhor controlo psicológico; menores níveis de depressão; mais satisfação no trabalho; redução da tensão psicológica; diminuição de stresse e melhoria no equilíbrio entre a vida profissional e a pessoal. Por outro lado, destacam como efeitos negativos a maior dificuldade em gerir horários de início e fim do trabalho; mais conflitos entre trabalho-família; tendência para o isolamento; insatisfação emocional e social significativas; menor grau de felicidade; maiores índices de stresse.

Pessoalmente, saliento fatores positivos desta modalidade de trabalho, em particular nos grandes meios urbanos - a redução do tráfego rodoviário, do tempo desperdiçado e a diminuição do stresse a que as longas filas de trânsito obrigam. Pesam, também, fatores económicos (gastos em combustíveis, refeições, manutenção de viaturas...).

Pessoas que, voluntariamente, recorrem ao teletrabalho e se sentem bem com essa opção, referem-me que a flexibilidade e a gestão do tempo permitem gerir melhor a sua agenda pessoal, profissional, familiar e social, conseguindo usufruir de uma melhor qualidade de vida. Todavia, na consulta, verifiquei um significativo número de queixas de distúrbios de ansiedade e depressão relacionados com o teletrabalho, a maior parte reflexo pandémico.

Beatriz Lourenço, psiquiatra, acrescenta que o impacto do teletrabalho na Saúde Mental do trabalhador está dependente de fatores relacionados com as características do trabalho, da pessoa, da sua personalidade, preferências e ambiente familiar. Refere que, em determinadas situações clínicas, pode mesmo não ser vantajoso. É o caso de situações que conduzem ao isolamento social marcado no contexto de depressão ou de ansiedade. O teletrabalho não é, então, benéfico para o indivíduo, do ponto de vista clínico, pois não promove a recuperação, a autonomia, nem a sociabilização.

Neste sentido, é fundamental que as empresas invistam na Medicina do Trabalho e estejam empenhadas na construção de ambientes de trabalho saudáveis, mantendo-se em alerta para desequilíbrios emocionais dos colaboradores.

Novos tempos e desafios se avizinham para as entidades patronais e de saúde. Cada indivíduo tem as suas idiossincrasias reagindo, de forma diferente, como ser humano e como profissional. Porém, há que estar atento aos sinais de instabilidade do bem-estar mental e físico do trabalhador e, caso necessário, recorrer ao seu Médico de Família. A sua abrangência incorpora o seu historial pessoal e familiar, permitindo uma intervenção mais rápida e eficaz.

Bibliografia:

- Ribeiro B, Robazzi M, Dalri R. Saúde Mental e Teletrabalhadores: revisão integrativa. Rev Saúde e Meio Ambiente.2021 jan; 12 (2); p.127-147

- Beatriz L. O teletrabalho é uma solução que não está, de todo, isenta de desafios para a saúde mental [Internet]. Poligrafo; 2022 Jun 29 [cited 2022 Jul 30]. Available from: https://poligrafo.sapo.pt/pstudio/artigos/beatriz-lourenco-o-teletrabalho-e-uma-solucao-quenao-esta-de-todo-isenta-de-desafios-para-a-saude-mental

- Content C. Saúde mental na nova era do trabalho: o equilíbrio é possível? [Internet]. Sábado; 2022 Mar 15; [cited 2022 Jul 30]. Available from: https://vidasustentavel.sabado.pt/futuro-dotrabalho/saude-mental-na-nova-era-do-trabalho-o-equilibrio-e-possivel/

You've got mail! - quando um aumento da acessibilidade não significa melhoria da acessibilidade
Editorial | António Luz Pereira, Direção da APMGF
You've got mail! - quando um aumento da acessibilidade não significa melhoria da acessibilidade

No ano de 2021, foram realizadas 36 milhões de consultas médicas nos cuidados de saúde primários, mais 10,7% do que em 2020 e mais 14,2% do que em 2019. Ou seja, aproximadamente, a cada segundo foi realizada uma consulta médica.