Terapêutica à base de canábis:  uma nova opção para o tratamento da dor crónica
DATA
02/05/2022 15:40:07
AUTOR
Raul Marques Pereira, responsável pela Consulta de Dor da USF Lethes, em Ponte de Lima, e coordenador do Grupo de Estudo da Dor da APMGF
Terapêutica à base de canábis: uma nova opção para o tratamento da dor crónica

A dor crónica e o seu tratamento com terapêutica à base da planta de canábis são assuntos que têm estado na ordem do dia e que têm merecido atenção por parte da população em geral, mas sobretudo pelos profissionais de saúde.

Em Portugal, a dor crónica afeta 1 em cada 3 portugueses adultos, tendo um impacto muito significativo, tanto na qualidade de vida, como no absentismo laboral, com consequências muito marcadas para a sociedade.

Classicamente, a dor crónica dura pelo menos três meses, mesmo que não seja diária. Este tipo de dor tem de ser tratado com fármacos mais robustos e com métodos diferentes dos que são utilizados para a dor aguda. Trata-se de uma abordagem, normalmente, multifatorial, que passa não só pela medicação, mas também por fisioterapia, por reabilitação, por correção postural, entre outros.

As terapêuticas clássicas nem sempre são eficazes para darem um alívio significativo, uma vez que muitos doentes continuam com dor, por vezes, incapacitante e com grande limitação a nível do seu bem-estar.

É nestes casos que se coloca a questão das novas classes terapêuticas que têm vindo a surgir, sendo os canabinoides uma das mais importantes. Em Portugal, neste momento, há uma substância à base da planta de canábis, aprovada para a dor crónica, assim como para outras indicações. É uma terapêutica muito interessante, pelo facto de ser diferente de todas as outras.

Apesar de nova em Portugal, esta classe terapêutica já tem muitos anos em outros países, tendo os seus profissionais de saúde bastante experiência no que respeita à sua prescrição. Também, os estudos indicam que há lugar para esta classe terapêutica no caso das pessoas com dor crónica, que não respondem às terapêuticas clássicas. Ou seja, os canabinoides vêm oferecer uma nova esperança às pessoas com dor crónica, que não têm tido os resultados desejados com os tratamentos convencionais.

Os canabinoides têm um mecanismo de ação totalmente diferente, com indicações muito especificas. Naturalmente, não devem ser utilizados em todas as pessoas com dor, mas têm um lugar especial e importante para os doentes com dor refratária.

Vejo com bons olhos o facto de termos à disposição mais uma classe terapêutica, que nos permite alargar o leque de opções terapêuticas para os nossos doentes.

Muitos foram os medos que, inicialmente, se colocaram no que respeita à prescrição de produtos de canábis medicinal para tratamento da dor. Contudo, é de salientar que o fármaco aprovado pelo Infarmed, de prescrição médica, é seguro. Contudo, a utilização destes fármacos exige uma monitorização apertada, que só pode ser feita através de acompanhamento médico, minimizando assim possíveis efeitos secundários. Também é de salientar, relativamente ao tópico da dependência, que parece ser muito improvável, embora não possa ser completamente descartada.

No entanto, alerto para o perigo das substâncias não reguladas, compradas por exemplo online, em que não há como garantir nem a qualidade, nem a segurança, nem a eficácia do produto.

Neste momento, em Portugal, todos os médicos podem prescrever canabinoides para a dor crónica. No entanto, tendo em conta a particularidade do seu tratamento, o doente deverá ser sempre acompanhado pelo seu médico de família, ou pelo especialista em dor pelo qual está a ser seguido.

Deixo aqui um alerta importante: se sente uma dor que não passa por algum tempo - sobretudo durante três meses ou mais -, que está a tornar-se persistente e, muitas vezes, até, mais intensa, deve procurar o seu médico de família.   Provavelmente, estaremos perante uma dor crónica que tem de ser avaliada. Poderá ser necessário tratar com outro tipo de fármacos e de estratégias.

Esteja atento e procure o seu médico de família.

 

 

Internato centrado na grelha de avaliação curricular: defeito ou virtude?
Editorial | Denise Cunha Velho
Internato centrado na grelha de avaliação curricular: defeito ou virtude?

Sou do tempo em que, na Zona Centro, não se conhecia a grelha de avaliação curricular, do exame final da especialidade. Cada Interno fazia o melhor que sabia e podia, com os conselhos dos seus orientadores e de internos de anos anteriores. Tive a sorte de ter uma orientadora muito dinâmica e que me deu espaço para desenvolver projectos e actividades que me mantiveram motivada, mas o verdadeiro foco sempre foi o de aprender a comunicar o melhor possível com as pessoas que nos procuram e a abordar correctamente os seus problemas. Se me perguntarem se gostaria de ter sabido melhor o que se esperava que fizesse durante os meus três anos de especialidade, responderei afirmativamente, contudo acho que temos vindo a caminhar para o outro extremo.