Reflexões em contexto eleitoral

À data em que esta crónica for publicada, estaremos no ano de 2022. Um ano novo, que se espera inaugure uma era de esperança para a Humanidade, volvidos quase 2 anos de uma epidemia que ainda afeta os habitantes da nossa aldeia global.

A pandemia de COVID-19/SARS-CoV-2 é de aparição recorrente nas minhas crónicas, desde a sua emergência em março de 2020. Se é um facto que a minha formação médica específica predispõe a tal, também é verdade que é impossível, independentemente da formação individual ou do setor produtivo em que nos integramos, não a abordar.

Devo dizer que tenho uma particular aversão por aqueles que opinam sobre tudo e que, portanto, de nada sabem. Desde logo, porque sou dos poucos portugueses “agnóstico” quanto ao futebol e, por consequência, não qualificável para “treinador de sofá”…

Mas sendo português e vivendo em Portugal, facilmente se infere o meu estado de alma perante a epidemia de pseudoespecialistas nos mais diversos assuntos em agenda mediática. A pandemia de COVID-19 é disso um flagrante exemplo, pela profusão de “especialistas” em Saúde Pública, procurando histrionicamente o protagonismo mediático.

Em ano de eleições legislativas, agitam-se cadeiras nos gabinetes ministeriais. Gabinetes compostos por adjuntos, assessores e “especialistas”, com curricula académicos dignos do século XXI, mas com uma experiência profissional, na sociedade civil, compatível com a de um estudante liceal.

Abundam licenciaturas, mestrados ou até doutoramentos - ainda que, na maioria das vezes, em áreas dificilmente relacionadas com o âmbito das funções. Quanto à experiência profissional, resume-se a umas breves linhas, mesmo incluindo o curriculum na juventude partidária ou nalgum gabinete de nomeação cartonada…

Não obstante vivermos em democracia, a verdade é que assistimos a uma censura interior que faz perigar os seus alicerces. É a ditadura do “politicamente correto”.

Escrever tornou-se um exercício semelhante a um passeio num campo de minas. As palavras, mesmo que da maior civilidade, são pesadas com uma precisão miligramética. E expressar opiniões publicamente, uma atividade arriscada.

Ora, a democracia é, por definição, um confronto de ideias e de opiniões. É da diversidade de pontos de vista que emergem as soluções, no benefício de todos. Respeitar o outro é respeitar-se; mas o respeito exige franqueza.

Decorridos 47 anos da implantação do regime democrático em Portugal, o nosso País prepara-se para um novo ato eleitoral. Sendo as eleições a seiva da democracia, espera-se que a participação seja expressiva.

Enquanto cidadão, desejo que o confronto de ideias reflita a maturidade de um regime com meio século de vida. E que, em todos os casos, impere o interesse nacional, em detrimento dos sectarismos político-partidários prevalentes.

Infelizmente, não tem sido essa a realidade. Ao confronto respeitoso sobrevém a grosseria alarve. E, lembrando um passado não muito remoto, os que divergem do pensamento prevalente são apelidados de antipatriotas ou considerados acéfalos, indignos de qualquer atenção.

Sendo o Serviço Nacional de Saúde a materialização de um direito consagrado na Constituição de 1976, salvaguardá-lo é defender a democracia.

Basta de promessas adiadas e de juras de amor eterno. O Serviço Nacional de Saúde e os seus profissionais merecem uma atenção genuína e solícita, após o tremendo embate de uma pandemia que abalou – e continua a abalar (novembro de 2021) - a sua progressivamente debilitada estrutura.

Preparados para o Futuro? // Preparar o Futuro
Editorial | Conceição Outeirinho
Preparados para o Futuro? // Preparar o Futuro

O início da segunda década deste século, foram anos de testagem. Prova intensa, e avassaladora aos serviços de saúde e aos seus profissionais, determinada pelo contexto pandémico. As fragilidades do sistema de saúde revelaram-se de modo mais acentuado, mas por outro lado, deu a conhecer o nível de capacidade de resposta, nomeadamente dos seus profissionais.