Dor Neuropática do Doente Oncológico e Sobrevivente de Cancro: Qual o impacto desta pandemia?

A Dor não tratada torna-se mais complexa no que concerne à sua fisiopatologia, e muitas vezes deixa de ser proporcional ao estímulo que lhe deu origem, aumentando o risco de se tornar refractária com consequências devastadoras, designadamente na funcionalidade e qualidade de vida do doente.

As principais causas de Dor Neuropática Periférica Localizada (DNPL) no doente oncológico e sobrevivente de cancro são a própria doença oncológica (ex: compressão ou infiltração de nervos periféricos), ou consequência da terapêutica tumoral como a cirurgia (dor neuropática pós-cirúrgica), a radioterapia (ex: fibrose rádica), os agentes quimioterapêuticos (ex: compostos de platinium, paclitaxel, alcaloides da vinca, taxanos, bortezomib) e a imunidade comprometida (ex: nevralgia pós herpética).

Dor crónica é uma doença que resulta de um processo transformacional mal adaptativo a nível funcional e estrutural. Caracteriza-se por mecanismos de sensibilização periférica e de sensibilização central com alterações a nível do sistema nervoso central, que poderão em última instância alterar as vias de transmissão de dor.

A sensibilização central traduz-se por um aumento da excitabilidade neuronal facilitando a passagem dos estímulos dolorosos pelo sistema nervoso central e aumento da eficácia sináptica, por redução da actividade inibitória nociceptiva com expressão clínica de aumento da intensidade e de redução do limiar de dor.

Assim, a dor torna-se persistente no tempo, desprovida de função, de intensidade desproporcional ao estímulo causal, com fenómenos de hiperalgesia e alodinia e tornando-se uma entidade própria.

Mas, o que alterou o patient journey do doente oncológico e sobrevivente com cancro com DNPL durante a pandemia da Covid-19?

O circuito habitual consiste numa série de etapas entre os primeiros sintomas e uma unidade de dor.

Após os primeiros sintomas o doente recorre aos cuidados de saúde primários onde são requisitados exames complementares de diagnóstico e terapêutica para estabelecer o diagnóstico/ suspeita de diagnóstico; segue-se a referenciação para a oncologia médica hospitalar onde é feita a confirmação do diagnóstico oncológico e é estabelecido o Plano Terapêutico Integrado (PTI). Caso a dor permaneça não controlada apesar da terapêutica instituída, o oncologista referencia à unidade de dor onde é optimizado o PTI.

Ora desde o início da pandemia, o intervalo de tempo entre estas várias etapas foi-se alongando pelo efeito somatório de atrasos, quer fosse por receio dos doentes comparecerem às consultas, aos exames complementares ou quer mesmo aos tratamentos, tanto ao nível dos cuidados de saúde primários como ao nível hospitalar, agravando potencialmente a cronificação da dor, tornando-a mais refractária à terapêutica e comprometendo o prognóstico.

É imprescindível o diagnóstico correcto da dor e o seu tratamento o mais precoce possível, sem descurar a funcionalidade e a qualidade de vida do doente. É essencial a avaliação e caracterização da dor (localização, intensidade da dor, descriptores, padrão temporal, factores de alívio e agravamento) para evitar a cronificação da dor. Há que estar atento à dor do doente, conhecer as causas de Dor Neuropática Periférica Localizada no doente oncológico e se necessário referenciar à unidade de dor o mais precocemente possível.

O presente e o futuro passam por alterar as formas de trabalhar, evoluir da multidisciplinaridade para a interdisciplinaridade.

 

[Este artigo é escrito ao abrigo do antigo acordo ortográfico]

Dra. Beatriz Craveiro Lopes, Médica especialista em Anestesiologia. Fundadora da Unidade de Dor do Hospital Garcia de Orta, Almada.

Governação Clínica
Editorial | Joana Romeira Torres
Governação Clínica

O Serviço Nacional de Saúde em Portugal foi criado e cresceu numa matriz de gestão napoleónica, baseada numa forte regulamentação, hierarquização e subordinação ao poder executivo, tendo como objeto leis e regulamentos para reger a atividade de serviços públicos no geral, existindo ausência de regulamentação relativa à sua articulação com os serviços sociais e económicos.

Mais lidas