Dor Neuropática relacionada com o cancro: um problema exacerbado pela situação de pandemia

Trata-se seguramente da primeira pandemia vivida ao momento com informação disponível de uma maneira imediata e global. O modo como os hospitais foram capazes de se organizar, reflete uma realidade dinâmica, com necessidade de alteração de espaços físicos, de circuitos, de necessidade de testagem dos doentes antes e durante o internamento e antes das sessões nos Hospitais de Dia, de realocação de profissionais das diversas especialidades e contribuição de todos no tratamento de doentes com o diagnóstico COVID-19 e com óbvias limitações para as restantes actividades assistenciais não COVID-19

A prática clínica teve obrigatoriamente de se alterar, tal como o modo de relacionamento entre médico e doente e entre colegas, com a invasão de estratégias informáticas e virtuais, algumas delas com bastante sucesso e adesão e que se irão perpetuar.

A acessibilidade dos doentes ao sistema ficou limitada, quer por receio destes em recorrerem aos cuidados primários ou hospitalares, quer porque os cuidados foram recentrados nos doentes COVID-19, com impacto negativo evidente na execução de rastreios, nos diagnósticos, no acesso aos meios auxiliares de diagnóstico, nas cirurgias com quebras que atingiram os 12%, inclusive na afluência aos serviços de urgência que sofreram uma redução de quase 50% a partir de Março de 2020 como atestam os dados apurados no hospital onde trabalho (HGO).

Verificou-se também um impacto negativo na investigação clínica e nos ensaios na área oncológica, assim como na formação dos profissionais em treino, pela necessidade de dedicação aos doentes COVID-19.

A dor é uma preocupação impactante na qualidade de vida dos doentes oncológicos e é um sintoma presente em 50% destes doentes, atingindo mesmo os 66% nas situações de doença avançada.

A dor nos doentes oncológicos poderá estar relacionada com a doença ou ser secundária aos tratamentos, quer cirúrgicos, quer médicos, nomeadamente com a quimioterapia e que poderá persistir para além do tratamento, nomeadamente a dor neuropática.

A dor neuropática é frequentemente mal diagnosticada, e no contexto de pandemia houve um impacto e alteração do chamado “patient journey” devido à limitação no acesso e articulação entre serviços, nomeadamente na Medicina da Dor, com a cronicidade desta queixa e, portanto, com menos sucesso no seu tratamento.

Só daqui a algum tempo poderá ser feita a contabilização real dos doentes que não morreram com COVID-19, mas sim por causa da COVID-19, sabendo-se, desde já, e após análise de várias séries, que a mortalidade nos doentes que contraíram a doença é sempre mais elevada nos doentes oncológicos.

 

Artigo de Opinião assinado por Dr. Hélder Mansinho, Director do Serviço de Hemato-Oncologia Hospital Garcia de Orta, EPE

Governação Clínica
Editorial | Joana Romeira Torres
Governação Clínica

O Serviço Nacional de Saúde em Portugal foi criado e cresceu numa matriz de gestão napoleónica, baseada numa forte regulamentação, hierarquização e subordinação ao poder executivo, tendo como objeto leis e regulamentos para reger a atividade de serviços públicos no geral, existindo ausência de regulamentação relativa à sua articulação com os serviços sociais e económicos.

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