Saúde mental em tempo de pandemia

Passado um ano desde o reconhecimento da atual pandemia pela Organização Mundial de Saúde, vivenciamos uma realidade atualmente muito distinta da existente previamente. À parte os cenários pintados pela indústria cinematográfica, já não havia memória de uma tão grande ameaça à saúde pública à escala mundial.

Ao longo destes infindáveis meses, as mudanças no quotidiano individual e coletivo foram múltiplas. Entre essas alterações, destaca-se a necessidade imperativa de limitação dos contactos sociais e o distanciamento, exacerbados nos estados de emergência decretados, mas que constituem palavras de ordem para a mitigação dos contágios.

Assim, além do impacto dantesco na morbimortalidade a nível nacional relacionada com a doença por coronavírus – 2019, cresce a preocupação com o agravamento das patologias crónicas, o atraso em novos diagnósticos e as implicações na Saúde Mental das populações.

Importa então salientar as repercussões da pandemia ao nível da Saúde Mental num país em que as patologias deste foro já têm um peso relevante. Os dados epidemiológicos existentes nesta matéria, resultantes do Estudo Epidemiológico Nacional de Saúde Mental realizado em 2013, apontam para que mais de um quinto dos portugueses (22,9%) sejam afetados por perturbações psiquiátricas, com destaque para as perturbações de ansiedade e perturbações depressivas.1 A par desta elevada prevalência (apenas comparável com os valores registados na Irlanda no Norte, a nível europeu) observa-se no nosso país um elevado consumo de psicofármacos, entre os quais ansiolíticos e antidepressivos na população geral.2

O cenário atual propiciou o surgimento de várias circunstâncias potencialmente ameaçadoras da saúde mental individual e coletiva como a restrição das relações sociais e o isolamento (fulcrais para o controlo da pandemia), as profundas mudanças nas dinâmicas familiares, o medo de contaminar e ser contaminado as dificuldades laborais e o desemprego, as situações de luto, muitas vezes agravadas pelas limitações de acompanhamento de familiares e amigos no momento da morte, assim como de realização das cerimónias fúnebres, entre muitos acontecimentos negativos. Deste modo, antecipa-se um potencial agravamento de perturbações psiquiátricas previamente existentes, assim como um possível aumento da sua incidência.

Ciente do impacto da pandemia na saúde mental individual e social, a Direção-Geral da Saúde disponibilizou linhas de apoio telefónico, assim como algumas ferramentas de apoio que compilou num microsite dedicado. Estas ferramentas pretendem fornecer apoio psicológico “à distância”, procurando minimizar as repercussões das vivências da atualidade. Contudo, esperando-se um aumento das necessidades assistenciais a pessoas com perturbações psiquiátricas prévias ou de novo, sabemos que, ao nível dos cuidados disponíveis no Serviço Nacional de Saúde (SNS), ainda existem muitas carências e limitações. O sobredimensionamento das listas de utentes acarreta dificuldades na gestão dos agendamentos e escassos tempos de consulta. Na realidade dos Cuidados de Saúde Primários (CSP), o médico de família acaba por dispor de pouco tempo para “ouvir” (o que, em muitos casos, terá algum efeito apaziguador ou até ousadamente terapêutico) e tem de selecionar os utentes que referencia para Psicologia, sabendo que, mesmo nesses casos, a possibilidade de realização de psicoterapia estruturada é limitada. Com isto, a prescrição de psicofármacos vai-se somando, o que, conjuntamente com a dificuldade de acompanhamento periódico de todos os utentes com perturbações do foro mental, conduz muitas vezes à perpetuação dos quadros e à manutenção da terapêutica farmacológica por vários anos.

Sendo que a larga maioria das perturbações psiquiátricas são tratadas nos CSP e considerando que os recursos disponíveis ao nível do apoio por Psicologia são insuficientes para as necessidades reais (mesmo prévias à pandemia), prevê-se grandes constrangimentos no tratamento adequado destas afeções, com consequências individuais, familiares, sociais e económicas. Urge, portanto, um reforço do SNS destes recursos, de modo a colmatar as necessidades atuais e futuras.

Por fim, não se pode descurar a Saúde Mental dos próprios profissionais que trabalham no SNS, muitas vezes no limite das suas capacidades físicas e emocionais para colmatar as carências existentes e que durante estes meses foram postos à prova constantemente.


Referências Bibliográficas

  1. Estudo Epidemiológico Nacional de Saúde Mental. 1.º Relatório. Faculdade de Ciências Médicas, Universidade Nova de Lisboa, 2013.
  2. PORTUGAL Saúde Mental em Números 2014. Programa Nacional para a Saúde Mental, 2014.
Um ano depois…
Editorial | Susete Simões
Um ano depois…

Corria o ano de 2020. A Primavera estava a desabrochar e os dias mais quentes e longos convidavam a passeios nos jardins e nos parques, a convívios e desportos ao ar livre. Mas quando ela, de facto, chegou, a vida estava em suspenso e tudo o que era básico e que tínhamos como garantido, tinha fugido. Vimos a Primavera através de vidros, os amigos e familiares pelos ecrãs. As ruas desertas, as mensagens nas varandas, as escolas e parques infantis silenciosos. Faz agora um ano.

Mais lidas