Números com nomes

Foi no início do ano de 2020 que a Europa lançou o primeiro alerta de Saúde Pública pelo aparecimento de uma nova pandemia com origem em Wuhan, na China, em dezembro de 2019. A infeção COVID-19, causada pelo novo coronavírus SARS-CoV-2, foi desde cedo caracterizada pela tríade febre, tosse e falta de ar, preocupando pela sua gravidade, elevada taxa de mortalidade e desconhecimento das sequelas a longo prazo. 1

Face à rápida propagação e preocupação pela saúde das populações, vários governos optaram por duras medidas de confinamento, com encerramento de múltiplos estabelecimentos públicos, restrições à mobilidade de pessoas, controlo e encerramento de fronteiras, entre outras medidas, algo até então nunca antes visto. Na realidade portuguesa, com o enorme esforço dos vários profissionais envolvidos no combate à pandemia, com a colaboração da população e com todas estas medidas, foi possível enfrentar e combater a 1ª, 2ª e, atualmente, a 3ª vaga. Diariamente são anunciados os números de novos infetados, óbitos e recuperados, o número de profissionais na linha da frente, o número de ambulâncias à porta do hospital, os inúmeros encerramentos de empresas e estabelecimentos, o número crescente de desempregados, a despesa pública com o SNS, a quebra da receita do turismo, entre muitos outros números.

Entre todos estes números, esquecemo-nos muitas vezes das pessoas. Esquecemo-nos de quem aquele número esconde, da sua história, da sua vida, do seu percurso. Perdemos sensibilidade, o olhar e o toque. Esquecemo-nos que, em 5 dias, um vírus pode eliminar uma vida com 50 anos de história. E pode não ser uma vida qualquer: pode ser o nosso avô, a nossa avó, pai, mãe ou mesmo filhos. Pode ser qualquer um.

Se compararmos esta pandemia a uma corrida, no final vamos parar e olhar para os que chegaram à meta. Nesse momento, vamo-nos aperceber de que faltam alguns que começaram esta corrida connosco: vizinhos, conhecidos, amigos distantes. São esses os que não aguentaram a corrida e que, no meio de tantos números, desapareceram como sendo mais um.

Quero, com tudo isto, fazer votos de coragem e força a todos os colegas que fazem parte desta equipa de combate à pandemia, independentemente da “linha”, e pedir que da próxima vez que assistam um doente – seja fisicamente, seja através de uma chamada telefónica – não se esqueçam que é alguém com história, alguém que foi apanhado nesta guerra e que será tratado por todos como apenas mais um número. Por todos, menos por nós.

  1. Pollard CA, Morran MP, Nestor-Kalinoski AL. The covid-19 pandemic: A global health crisis. Physiol Genomics. Published online 2020. doi:10.1152/physiolgenomics.00089.2020
Um ano depois…
Editorial | Susete Simões
Um ano depois…

Corria o ano de 2020. A Primavera estava a desabrochar e os dias mais quentes e longos convidavam a passeios nos jardins e nos parques, a convívios e desportos ao ar livre. Mas quando ela, de facto, chegou, a vida estava em suspenso e tudo o que era básico e que tínhamos como garantido, tinha fugido. Vimos a Primavera através de vidros, os amigos e familiares pelos ecrãs. As ruas desertas, as mensagens nas varandas, as escolas e parques infantis silenciosos. Faz agora um ano.

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