A DOR AGUDA – O MAIOR PROBLEMA, A MAIOR SOLUÇÃO?
Este ano, no convénio Astor, foi-me lançado o desafio de discutir a problemática da dor aguda e do seu efeito na qualidade de vida dos doentes, especialmente em tempos de pandemia.

Num momento especialmente difícil para os médicos e para as pessoas com dor, esta discussão assume particular relevância. Há, por isso, alguns pontos que devemos ter em conta quando avaliamos uma pessoa com dor aguda e que podem permitir dar uma solução para este problema que, por vezes, é enorme para o doente:

  1. É fundamental valorizar a dor reportada pelo doente, sendo especialmente importante no que diz respeito à dor aguda. A dor aguda, se não for tratada de forma adequada, terá um grande risco para progressão para a cronicidade, pelos danos estruturais que podem ocorrer no sistema nervoso.
  2. A íntima relação da dor com os quadros de ansiedade e depressão deve estar sempre presente quando tratamos uma pessoa com dor, seja aguda ou crónica. Mais uma vez, a minimização da progressão da dor aguda para dor crónica com o seu controlo agressivo fará com que estas patologias associadas diminuam na sua incidência e sejam mais facilmente controladas.
  3. Está na altura de “esquecer”, especialmente quando falamos de dor aguda moderada a severa, os esquemas SOS para tratamento da dor. É importante sensibilizar o doente para a necessidade de tratar a dor aguda rápida e eficazmente, com um esquema horário fixo, que integre o quotidiano do doente e adequado à intensidade da dor.
  4. A avaliação da intensidade da dor, tão variável de pessoa para pessoa, deverá ser feita de forma sistemática, com escalas validadas e que devem ser repetidas na consulta de seguimento. Isto permitirá criar uma dinâmica de tratamento eficaz, envolvendo a pessoa com dor no seu tratamento e adequando os esquemas terapêuticos (farmacológicos e não farmacológicos) à realidade de cada doente.
  5. O contexto pandémico representa, no que diz respeito à dor aguda, bem como a outras patologias que necessitam de consulta rápida, um aumento do problema da dor aguda. O facto de termos uma janela de tratamento relativamente curta para minimizarmos a progressão para a dor crónica faz com que seja necessário criar estratégias de avaliação da pessoa com dor à distância. Criamos, por isso, um algoritmo de avaliação da pessoa com dor à distância e que foi apresentado neste simpósio para poder oferecer à pessoa com dor (aguda ou crónica) uma avaliação não presencial e que determina o pathway a seguir nos cuidados de saúde.
  6. Torna-se fundamental privilegiar tratamentos da dor que sejam simples e de fácil gestão pelo doente em casa, evitando o recurso ao SU a não ser em situações de especial gravidade. Neste contexto, mantém-se válida a recomendação da OMS para usar em primeira linha a via oral e fármacos em horários fixos.

Os desafios do tratamento da dor aguda de forma rápida e eficaz não são novos, mas foram potenciados pela pandemia e pela necessidade de uma medicina à distância mais robusta.

Ainda estamos, é certo, a aprender qual a forma certa de fazer esta “nova” medicina, mas parece inevitável que teremos de adaptar os nossos recursos a uma realidade que veio para ficar.

O tratamento da dor aguda pode ser o exemplo da mudança deste paradigma, transformando um dos maiores problemas das consultas não programadas numa das maiores soluções.

Um ano depois…
Editorial | Susete Simões
Um ano depois…

Corria o ano de 2020. A Primavera estava a desabrochar e os dias mais quentes e longos convidavam a passeios nos jardins e nos parques, a convívios e desportos ao ar livre. Mas quando ela, de facto, chegou, a vida estava em suspenso e tudo o que era básico e que tínhamos como garantido, tinha fugido. Vimos a Primavera através de vidros, os amigos e familiares pelos ecrãs. As ruas desertas, as mensagens nas varandas, as escolas e parques infantis silenciosos. Faz agora um ano.

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