DESCULPEM, MAS EU LI!  MUNDO DE CONTRASTES
DATA
19/03/2021 08:57:54
AUTOR
Rui Cernadas
ETIQUETAS


DESCULPEM, MAS EU LI! MUNDO DE CONTRASTES
A pandemia Covid-19 irrompeu sem se saber como, mas progride imparável e capaz de arrastar tudo e todos num tsunami de propagação da infecção e de loucura.

Os Jogos Olímpicos de Tóquio 2020 foram adiados para 2021 como símbolo e demonstração planetária de que mais nada seria como era...

Mas, ao mesmo tempo, a violência de sempre, com a morte de George Floyd, um afro-americano, asfixiado pela polícia em Mineápolis. Os protestos antirracismo e contra a brutalidade policial nos Estados Unidos da América alastraram também como uma outra pandemia e por muitos países, num movimento internacional designado como “Black Lives Matter”.

Vimos nos princípios de Outubro passado, o presidente de má-memória dos Estados Unidos a anunciar que estava infectado com o vírus da Covid-19. Três ou quatro dias depois, o prémio Nobel da Medicina era atribuído aos cientistas norte-americanos Harvey J. Alter e Charles M. Rice e ao inglês Michael Houghto, pela descoberta de um outro vírus, o vírus da hepatite C…

A euforia nas bolsas e o espírito especulativo extravasa os investidores e alimenta o enriquecimento de grandes patrimónios, quando em simultâneo a pobreza e a desigualdade aumentam, o desemprego empobrece milhares de famílias e a situação dos idosos adensa um destino mais triste e solitário.

O mundo dos contrastes não deixa de nos surpreender.

Como no plano das publicações científicas.

Não se entende como a credibilidade e o prestígio de muitas revistas conceituadas alteraram o padrão de aceitação e os prazos para publicação de tanta “produção” não escrutinada, nem validada.

As bases de dados utilizadas e fornecidas não são auditáveis e são agora comuns e quase banais as republicações com correcções ou revisões.

Torna-se perceptível o entusiasmo da comunicação por muitos autores, como o é a ânsia dos leitores e outros investigadores numa ciência de cada vez maior translação. A pandemia esmaga qualquer outra oportunidade de produção de conhecimento. A emergência de saúde pública que o mundo vive pode facilitar muitas coisas, mas o rigor científico, o estudo estatístico e a preocupação ética não podem ser aligeirados, sob pena de a ninguém servirem.   

Muitas das evidências vulgarizadas pelos médicos e cientistas junto da opinião pública ajudaram menos do que teriam por intenção. E contribuíram para alguma confusão, descontextualização e descrédito.

Os políticos fizeram o resto com medidas não justificadas, nem coerentes.

Em Portugal, os dados sobre o número de mortos em excesso não-Covid foram quatro a cinco vezes mais elevados do que os por Covid. É certamente preciso estudar e compreender melhor os resultados. Mas, fica desde já claro que qualquer plano futuro imediato para o SNS há que passar da gestão de risco da infecção Covid para a gestão de risco global (Covid e não-Covid), como forma de travar e inverter este trágico excesso da mortalidade.

O acesso aos cuidados de saúde implica tempos de resposta e decisão em tempo útil. Não se discute a dimensão da pressão sobre os serviços públicos de saúde, mas o diâmetro da bola de neve que se está a gerar aponta num sentido mais do que preocupante!

As doenças crónicas não se suspendem por decretos presidenciais, estados de emergência, máscaras ou distanciamento social. A sua evolução natural é inexorável e as complicações ou exacerbações expectáveis. O Estado e o SNS devem rapidamente, enquanto por um lado se combate a pandemia, preparar e lançar uma estratégia de aproveitamento das potencialidades de outros sectores, privados e sociais, que vise a recuperação dos atrasos produzidos e possa minimizar os seus impactos.

O mesmo se diga no campo dos rastreios e das doenças oncológicas. Prevenir será sempre preferível a tratar e antecipar sempre melhor do que atrasar.

Um ano depois…
Editorial | Susete Simões
Um ano depois…

Corria o ano de 2020. A Primavera estava a desabrochar e os dias mais quentes e longos convidavam a passeios nos jardins e nos parques, a convívios e desportos ao ar livre. Mas quando ela, de facto, chegou, a vida estava em suspenso e tudo o que era básico e que tínhamos como garantido, tinha fugido. Vimos a Primavera através de vidros, os amigos e familiares pelos ecrãs. As ruas desertas, as mensagens nas varandas, as escolas e parques infantis silenciosos. Faz agora um ano.

Mais lidas