Probióticos. Que futuro?
DATA
25/01/2021 09:54:31
AUTOR
Libério Ribeiro
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Probióticos. Que futuro?

O nosso sistema imunológico é um sistema de defesa que, perante agressões infeciosas, coloca em marcha a produção de anticorpos, autênticos heróis imunológicos, que destroem aquilo que poderia ser nocivo ou até nos matar.

Nas doenças alérgicas e autoimunes, esses heróis acabam por ser demónios, mas sendo sempre sinais de alerta, estando nas nossas mãos saber ouvi-los.

Podemos dizer que o sistema imune é o nosso 6.º órgão dos sentidos.

Na criança, a doença alérgica é, na maioria das vezes, o primeiro sinal da desregulação da reatividade imunológica.

Sabe-se que a microbiota tem, não só funções nutritivas e metabólicas, mas também de proteção e de defesa, de modulação e de regulação do sistema imunológico, pelo que um olhar mais atento deverá ser-lhe prestado.

A microflora intestinal e os vários elementos do sistema imunológico estão estreitamente interligados e influenciam-se mutuamente. Entre 60 a 70% das células imunes estão presentes no trato gastrointestinal. Existe uma ponte, uma interação crucial entre a imunidade gastrointestinal e a imunidade sistémica.

No nosso intestino, vivem 100 triliões bactérias, 10 vezes mais do que o número de células do nosso organismo, com centenas de estirpes, resultantes de três milhões de genes não humanos e que pesam cerca de 1,5 kg.

Então, podemos afirmar que, nós os humanos, não somos um simples organismo, mas um superorganismo resultante de múltiplos microrganismos que trabalham em conjunto para um mesmo fim.

Esta microbiota emite sinais que regulam a atividade das células humanas. Quando estes sinais são errados surge a doença, assim como a disrupção da microbiota conduz a várias doenças como asma, dermatite atópica, obesidade, má-nutrição e outras doenças não comunicáveis.

Os probióticos são componentes alimentares que incorporam agentes microbianos vivos, que, quando administrados em quantidades adequadas, têm ações benéficas para o hospedeiro, não só através do reequilíbrio da sua flora intestinal, mas por outros mecanismos de ação que contribuem para a imunomodulação.

Os probióticos parecem interagir com o papel da flora intestinal, da barreira mucosa e do sistema imunológico intestinais, tendo implicações na manutenção destes sistemas, em fases precoces e determinantes do desenvolvimento humano.

O leite materno contém bactérias probióticas – lactobacillus e bifidobactérias – que têm uma ação imunomoduladora no intestino do lactente: por inibição da proliferação das bactérias patogénicas e sua aderência à mucosa intestinal; por modulação direta da resposta imune do intestino através do controlo das citocinas pró e anti-inflamatórias e por ação na função barreira intestinal, através da estimulação da resposta de IgAs.

A flora intestinal é o principal fator indutor da maturação pós-natal dos Th1. O recém-nascido tem uma resposta orientada no sentido Th2, devendo-se essa defleção a alterações imunológicas que permitem a tolerância do feto pela mãe. Daí podermos dizer, que todos nascemos potencialmente alérgicos.

Ao nascer, o intestino do lactente é estéril. A sua colonização intestinal inicia-se no próprio processo de nascimento, quando o bebé passa no canal de parto, sendo a flora intestinal da mãe a principal fonte de colonização bacteriana do intestino do recém-nascido.

Assim, o tipo de parto – vaginal ou cesariana – tem importância na colonização da flora intestinal do recém-nascido, havendo uma colonização precoce por bifidobactérias protetoras no parto vaginal, enquanto que no parto por cesariana, só ao fim de 180 dias a microflora intestinal do lactente é igualmente rica nessas bifidobactérias.

Além do tipo de parto, a alimentação do lactente, leite materno ou artificial e a composição deste, é um dos fatores que mais influenciam o desenvolvimento da flora intestinal. Os bebés amamentados têm menos alergias, diarreias, infeções respiratórias e gastrointestinais do que os alimentados por fórmula láctea.

Os probióticos foram originalmente utilizados para influenciar a saúde humana, através da microbiota intestinal. As suas propriedades como promotores da saúde são estirpe-dependentes, por terem diferentes mecanismos de ação.

Os Lactobacillus reuterii levam a um aumento microvilositário da expressão enzimática, em particular das dissacaridases, os Lactobacillus rhamnosus GG, atuam a nível das criptas, com efeito estimulador sobre os recetores das imunoglobulinas com maior produção de IgAs e os Saccarhomicis boullardii têm papel na neutralização de toxinas bacterianas, com efeito anti-inflamatório e antissecretor, com ação antidiarreica e na colite por Clostridium difficile.

Estes microrganismos são importantes na maturação do sistema imune e também para o ambiente metabólico, que poderá ter um efeito marcado no futuro da nossa saúde.

Há aspetos mais e menos consensuais no que respeita aos probióticos.

Aspetos menos consensuais são: a frágil evidência científica do benefício da sua utilização, nomeadamente pela ausência de marcadores fisiológicos validados das funções da mucosa intestinal; questões de segurança em alguns grupos de risco como nos imunodeprimidos; a falta de conhecimento da relação entre estirpes; as doses; o modo de administração e o efeito a longo prazo, por um lado, e a prevenção ou tratamento da patologia alérgica por outro.

Contudo, são imensos os trabalhos que demonstram que a utilização de probióticos, mesmo em idades precoces, é segura e eficaz no tratamento da inflamação alérgica e na alergia alimentar.

O Lactobacillus GG mostrou ser eficaz e seguro na prevenção precoce da doença atópica na criança de alto risco alérgico, quando administrado a grávidas nos últimos meses de gravidez e aos recém-nascidos durante os primeiros meses de vida, por terem capacidade de reverter o aumento da permeabilidade intestinal, característica das crianças com alergia alimentar e dermatite atópica.

O Lactobacillus GG, quando administrado por via oral em crianças atópicas, mostrou realçar a transformação do fator de crescimento beta e da produção de interleucina 10.

Os probióticos também aumentaram as respostas específicas IgA que estão muitas vezes diminuídas nas crianças com alergia alimentar, ajudando a promover a função barreira e restaurando a microecologia normal do intestino, alterações que acontecem nos indivíduos alérgicos.

Estas propriedades imunomoduladoras dos probióticos podem ser indispensáveis na luta contra o aumento da frequência das doenças alérgicas e possivelmente de outras doenças imunológicas.

Ultimamente, muitos estudos relacionam a constituição da microbiota com as mais variadas doenças além das doenças alérgicas e autoimunes, como a obesidade, a diabetes, a aterosclerose, a doença de Alzheimer e muitas outras. Já existem, inclusive, estudos sobre a importância da microbiota na infeção por SARS-CoV-2. A microbiota tem demonstrado ser cada vez mais importante na saúde presente e futura do indivíduo, podendo afirmar-se que a microbiota comanda a saúde e a vida.

Teremos de desenvolver uma culturómica otimizada, procurando marcadores bacterianos e outros, de uma microbiota equilibrada e em disbiose. A metagenómica criará metodologias culturais e não culturais na sequenciação de ADN bacterianos, com importância no diagnóstico e terapêutica das variadas disbioses.

Não nos esqueçamos de que nutrir a microbiota é reforçar a imunidade.

A relevância da nutrição e a resposta imune é tão grande que se prevê qua a Imunologia Alimentar seja uma das mais prometedoras novas ciências, estabelecendo uma ponte entre a farmacologia e a alimentação.

Será o início de uma nova era.

Um ano depois…
Editorial | Susete Simões
Um ano depois…

Corria o ano de 2020. A Primavera estava a desabrochar e os dias mais quentes e longos convidavam a passeios nos jardins e nos parques, a convívios e desportos ao ar livre. Mas quando ela, de facto, chegou, a vida estava em suspenso e tudo o que era básico e que tínhamos como garantido, tinha fugido. Vimos a Primavera através de vidros, os amigos e familiares pelos ecrãs. As ruas desertas, as mensagens nas varandas, as escolas e parques infantis silenciosos. Faz agora um ano.

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