Estes tempos de Covid-19 devem fazer-nos refletir no nosso trabalho e em como podemos melhorá-lo, prestando um melhor serviço de saúde à população. Os médicos de família viram-se forçados a gerir a sua agenda de uma forma inédita, onde a consulta não presencial ocupou a maioria do tempo, com recurso à teleconsulta e à consulta via email. Muita coisa ficou suspensa. Nas unidades de saúde familiar, muitos indicadores não vão ser alcançados em 2020 devido ao inimigo invisível que nos atingiu. Muito vai ser o trabalho que vamos ter para recuperar o que não foi realizado. Mas será que esta nova realidade não despertou um novo método de trabalho que pode ser benéfico para o SNS?
Consciente do valor e importância do exame objetivo, insubstituível na doença aguda, mas secundário em alguns problemas crónicos/administrativos, a consulta não presencial poderá ter vindo para ficar. Na verdade, se houvesse um correto uso desta estaríamos a evitar deslocações desnecessárias dos utentes à unidade de saúde, e a libertar tempo de consulta para aqueles que realmente necessitam de consulta presencial.
Por exemplo, doentes hipertensos com tensão arterial não controlada, poderiam ser consultados de forma presencial e, posteriormente, a avaliação da resposta terapêutica ser realizada remotamente. Outro exemplo tão comum: mostrar exames. Em alguns casos, seria mais vantajoso para o doente e para o médico se os resultados fossem diretamente enviados para o email do médico. Desta forma, pouparíamos uma deslocação do utente e um tempo de consulta.
Neste tempo de pandemia, a teleconsulta/ consulta via email permitiu manter a relação médico-doente próxima, respondendo em tempo útil aos problemas dos doentes, mantendo uma relação terapêutica eficaz e controlada.
Gradualmente estamos a voltar à normalidade, ou pelo menos, à normalidade permitida nesta fase.
Deparamo-nos com uma população diferente, porque esta pandemia mudou-nos de uma forma ou de outra. O sedentarismo inerente ao isolamento forçado pelo vírus traz consigo a ansiedade, depressão, stress pós-traumático, obesidade, diabetes e a dor crónica. Explorar o impacto do coronavírus na vida de cada utente e a promoção de um estilo de vida saudável é fundamental. Este consiste numa alimentação regrada, numa boa qualidade do sono, na prática de exercício físico, no consumo moderado de bebidas alcoólicas e na promoção da cessação tabágica.
O esforço tem de ser um esforço conjunto onde a relação médico-doente deve ser ainda mais sólida, assentando na compreensão, cooperação e confiança.
É emergente a reorganização do sistema de saúde. É emergente o investimento no SNS. É emergente a continuidade da otimização da Linha Saúde 24. É emergente um sistema informático cada vez mais evoluído e funcional. É emergente a reeducação da população. O futuro passa pela poupança de recursos e de tempo. O futuro passa pela telemedicina.
Referências bibliográficas:
Global Telemedicine Implementation and Integration Within Health Systems to Fight the COVID-19 Pandemic: A Call to Action
Greenhalgh T, Koh G, Car J. Covid-19: a remote assessment in primary care. BMJ 2020
Daniel Ferreira. Papel da Telesaúde em Tempos de Pandemia COVID-19: Para Grandes Males, Grandes Remédios. Revista da Sociedade Portuguesa de Medicina Interna. Publicação Especial Covid-19. Maio 2020
Direção Geral da Saúde. Norma nº 010/2015 da DGS - Modelo de Funcionamento das Teleconsultas
Acertar procedimentos e aperfeiçoar métodos de trabalho. O estado de emergência terminou e o estado de calamidade passou, mas o problema de saúde mantem-se ativo. É urgente encontrar uma visão inovadora e adotar uma nova estratégia. As unidades de saúde precisam de encontrar respostas adequadas e seguras.