Deixar cair com violência o que é desnecessário e aproveitar a oportunidade
DATA
03/06/2020 09:32:06
AUTOR
Rui Nogueira, presidente da Associação Portuguesa de Medicina Geral e Familiar
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Deixar cair com violência o que é desnecessário e aproveitar a oportunidade

Assaltar o desnecessário. Rasgar a burocracia. Rejeitar o desperdício. Anular a perda de tempo. As aprendizagens da pandemia serão uma ótima oportunidade para acertar procedimentos e aperfeiçoar métodos de trabalho. O estado de emergência e o estado de calamidade ensinaram-nos muito! É necessário desconfinar o centro de saúde e reinventar o conceito com unidades de saúde aprendentes e inovadoras.

O estado de pandemia declarado pela OMS em 11 de março - que se impôs com rigor em Portugal - está a revolucionar o mundo. Na saúde, na educação, na economia, na política, na justiça, na segurança, na cultura, no desporto, em todas as áreas é necessário assumir as lições e aproveitar as aprendizagens. A emergência social e as consequências de uma pandemia como a que vivemos não podem ser apagadas nem esquecidas. O abril de emergência e o maio de calamidade poderão ser meses de reflexão útil. Poderemos ter aqui uma oportunidade para acertar conceitos e fazer evoluir a prestação de cuidados de saúde, fundamentados em novas tecnologias e em novos métodos de trabalho. Nada vai ficar como dantes!

Em Portugal vimos o poder político e as autoridades de saúde a assumir as suas responsabilidades, os profissionais de saúde em dedicação plena na linha da frente, o Serviço Nacional de Saúde a dar muito “boa conta do recado” e os Cuidados de Saúde Primários a assumir a posição essencial de pilar central na prestação de cuidados de saúde. Desde 23 de março temos diariamente mais de 90% das pessoas com COVID19 isoladas no seu domicílio e a ser seguidas pelos médicos de família e demais profissionais das unidades de saúde. Numa rede de 55 Agrupamentos de Centros de Saúde, num total de 906 unidades de saúde de proximidade, no continente, além dos centros de saúde da Madeira e dos Açores, apesar do contexto difícil, tem sido possível o seguimento de doentes da nova doença e manter cuidados de saúde adaptados às circunstâncias.

Com dois meses de prática em contexto diferente assumimos novos métodos de trabalho e tivemos oportunidade de superar dificuldades, ver as ineficiências e entender as insuficiências. Temos obrigação de acolher as inovações e as aprendizagens deste período. Está na hora de promover a partilha de boas práticas e avaliar resultados, assumindo a responsabilidade de fazer evoluir o nível de prestação de cuidados de saúde.

Há atos desnecessários e metodologias de trabalho ultrapassadas. Há burocracias que se perdem no tempo e que, de tão ridículas, nem dá vontade de questionar! Poderemos apelidá-los de “atos zero” para querer significar que não valem nada, nem acrescentam nada e que, se acabarem, só pode haver ganho para todos e para o sistema. O “simplex na saúde” idealizado pelo Ministro Adalberto Campos Fernandes foi uma boa intenção, mas não passou disso e não chegou a ver a luz do dia. Poder-se-á pensar agora nesta oportunidade para reativar a ideia e concretizar um novo paradigma na prática do dia a dia das nossas unidades de saúde. Poderemos pensar em novos circuitos, novas ferramentas, novos apoios, novas atitudes, novas necessidades. Talvez tenhamos que começar de baixo para cima, isto é, pensarmos nos atos desnecessários, contraditórios, ineficientes, prejudiciais, desatualizados, duvidosos – os “atos zero”. Está na hora de aproveitar o contexto e “arrumar a casa”. Será possível reportar os “atos zero” ao Gabinete esperando que cada um tenha uma resposta justificada e calendarizada?

Existem áreas importantes e prioritárias onde é necessário aumentar a capacidade de intervenção e a resolutividade: ações sem a presença do doente; resposta à doença aguda; cuidados de saúde dirigidos ao doente crónico; intervenções de rastreio nos vários formatos; e gestão clínica. O desenvolvimento profissional contínuo e a partilha de conhecimento são áreas cada vez mais facilitadas pelo uso de dispositivos digitais e tecnologias de comunicação. Juntos saberemos encontrar as melhores soluções e reinventar o centro de saúde em toda a sua plenitude e ligação comunitária, regressando à normalidade da vida quotidiana.

DESconfinar sem DISconfinar: Um desafio para inovar e aproveitar a oportunidade
Editorial | Rui Nogueira, Médico de Família e presidente da Associação Portuguesa de Medicina Geral e Familiar
DESconfinar sem DISconfinar: Um desafio para inovar e aproveitar a oportunidade
Depois de três meses de confinamento é necessário aceitarmos a prudência de DES”confinar sem DISconfinar. Não vamos querer “morrer na praia”! As aprendizagens da pandemia Covid-19 são uma ótima oportunidade para acertar procedimentos e aperfeiçoar métodos de trabalho. O estado de emergência e o estado de calamidade ensinaram-nos muito! É necessário desconfinar o centro de saúde com uma nova visão e reinventar o conceito com unidades de saúde aprendentes e inovadoras.

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