Os desafios da teleconsulta para o médico de família
DATA
15/05/2020 09:36:53
AUTOR
Leonor Duarte, Interna MGF
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Os desafios da teleconsulta para o médico de família

Desde que a COVID-19 chegou ao nosso país, foram implementadas “regras” e contingências às nossas rotinas e dia-a-dia. O acesso aos Cuidados de Saúde não foi exceção.

Com o intuito de melhor orientar o acesso aos hospitais e centros de saúde, foi promovida, perante a população, a importância de contactar, em primeiro lugar,  a Linha SNS24. No entanto, desde cedo se tornou claro que os serviços prestados por esta linha eram parcos face ao crescente número diário de telefonemas, levando a que a população procurasse aqueles em que sabem que podem confiar e que estão sempre presentes para os ajudar, os seus médicos e enfermeiros de família. No entanto, por força das circunstâncias, e ao contrário do que era habitual até aqui, esta procura alterou-se, e os utentes viram-se obrigados a ter de recorrer maioritariamente a contactos à distância, usando preferencialmente o telefone ou o e-mail. De acordo com o estudo Diários de uma Pandemia1, a 14 de abril de 2020, quatro em cada mil pessoas contactaram diariamente o médico de família, três em cada mil as linhas SNS24 e duas em cada mil foram aos hospitais.

Desde o início desta pandemia (declarada pela OMS como tal a 11 de março de 2020), têm surgido grandes mudanças na prática clínica, tanto a nível dos cuidados de saúde primários como secundários. Para o médico de família, a consulta presencial com o utente que antes era o cerne e a matéria-prima do seu trabalho, viu-se substituída pelo “simples” telefonema. Mas será assim tão simples?

A maioria dos utentes, em particular aqueles que nasceram e cresceram numa época anterior ao uso disseminado do telefone, televisão, telemóvel, e-mail, não reconhecem na consulta telefónica uma verdadeira consulta e tendem a insistir no agendamento presencial para breve. Afinal de contas, a relação médico-doente estabelece-se ao longo de vários encontros em consulta, essencialmente, presencial; se de repente lhes tiramos o conforto do olhar interessado do seu médico de família, se lhes negamos a possibilidade de o sentirem verdadeiramente empenhado na sua situação quando se foca apenas neles na consulta, como poderemos exigir que um “simples” telefonema resolva tudo? Também a confidencialidade e a partilha de informação clínica com alguém que não pode comprovar a sua identidade pode ser colocada em causa. Como pode o doente confiar verdadeiramente que sabe com quem está a falar, e vice-versa, como pode o médico de família ter a certeza de que não está a cometer uma inconfidência dando dados sobre alguém com quem na realidade não está a falar? Poderá o médico de família aceitar a veracidade do que lhe é dito?

Com a consulta telefónica abdicamos, ainda, de uma parte fundamental da maioria das consultas presenciais - a observação direta do utente e o exame físico. A história clínica ganha uma maior ênfase, já que só nos poderemos basear nela quando o doente nos descreve os seus sintomas e sinais. E esta história clínica, como sabemos, depende muito do doente e daquilo que ele é capaz de valorizar e explicar. O que acontece quando o doente é uma criança e não se sabe expressar, quando tem algum défice intelectual ou até mesmo quando tem um défice auditivo? Estas situações são o exemplo máximo de como uma teleconsulta por telefone ou e-mail é claramente insuficiente, e o nosso papel como médicos de família se complica e se torna impossível de fazermos o que antes fazíamos tão bem.

A necessidade de tomar uma decisão baseada apenas no contacto telefónico e no que o doente relata ou num texto escrito por e-mail, gera uma grande angústia no médico e o receio de cometer algum erro aumenta exponencialmente, seja pela toma de alguma decisão precipitada ou, pelo contrário, por uma atitude defensiva.

O paradoxo em que nos encontramos atualmente é que o próprio acesso aos cuidados de saúde (quer primários, quer secundários) aumenta o risco dos utentes serem contagiados com o SARS-COV-2, o que por um lado nos leva a que tomemos atitudes mais expectantes. Por outro lado, em situações que nos deparamos com histórias clínicas duvidosas e sintomas pouco claros que nos fazem suspeitar que possamos estar perante um quadro de maior gravidade, somos forçados a ter que enviar o doente para observação, por exemplo, num serviço de urgência hospitalar, situação que possivelmente poderia não acontecer caso conseguíssemos realmente observar e examinar o doente.  

Como médicos de família temos a grande vantagem de conhecermos a maioria dos nossos utentes. Conhecemos os seus antecedentes médicos, o seu suporte familiar, as suas queixas habituais e chegamos até a reconhecer a sua voz do outro lado da linha. Por outro lado, este conhecimento pessoal e social, leva-nos a tomar decisões por vezes parciais e enviesadas. Por exemplo, o preconceito que muitas vezes criamos, inconscientemente, face a alguns utentes (“apelativo”, “grande frequentador”, “psicossomático”, etc…) pode-nos conduzir, por vezes erradamente, a uma atitude mais expectante e menos interventiva. Se isso já era real na nossa “antiga” rotina, apesar dos constantes esforços para o evitar, como o poderemos evitar em situações que não nos permitem perceber o real alcance das queixas do doente ou nas quais não conseguimos ser os profissionais que fomos treinados para ser? Qual a linha que separa um médico zeloso de um médico que não se quer responsabilizar?

A questão que se coloca é se este novo método de consulta (se é que se pode considerar uma verdadeira consulta) prevalecerá no futuro, e se os médicos de família, ou até mesmo, se os médicos portugueses estarão preparados para tal? Noutros países a teleconsulta é já bastante utilizada e inclusive incluída na formação de qualquer médico.2 Será este o futuro? O que podemos fazer para nos prepararmos e para nos protegermos a nós e ao doente? O uso de videochamada pode ser uma possibilidade, já que nos permite ver o doente e colmatar algumas das desvantagens da consulta por telefone. Mas que utentes terão acesso a isso, num país que é tão pequeno e tão desigual ao mesmo tempo? A existência de protocolos e checklists, também poderá ser uma boa ferramenta, mas dificilmente substituirão o contacto com o doente e o nosso poder de observação e examinação enquanto médicos e pessoas; caso contrário já há muito teríamos sido substituídos por computadores. O importante é pensar a longo prazo e preparar já o nosso caminho.

A angústia e o sentimento de responsabilidade vão pesar muito nas nossas decisões e a grande dúvida não é se os erros vão surgir, a dúvida é quando, com quem e qual a consequência desses mesmos erros.

Bibliografia

1. Instituto de Saúde Pública da Universidade do Porto, Instituto de Engenharia de Sistemas e Computadores, Tecnologia e Ciência. Diários de uma pandemia. Abril, 2020.

2. Chaudhry U, Ibison J, Harris T, Raf I, Johnston M, Fawns T. Experiences of GP trainees in undertaking telephone consultations: a mixed-methods study. BJGP Open. 2020.

O novo normal e a nova realidade – que alterações provocadas pela pandemia vieram para ficar?
Editorial | Jornal Médico
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Acertar procedimentos e aperfeiçoar métodos de trabalho. Encontrar uma nova visão e adotar uma nova estratégia útil na nossa prática clínica quotidiana. Valorizar as unidades de saúde por estarem a dar as respostas adequadas e seguras é o mínimo que se exige, mas é urgente e inevitável um plano de investimento nos centros de saúde do Serviço Nacional de Saúde.

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