Preparação em Saúde Pública – A propósito do Surto de Novo Coronavírus
DATA
24/02/2020 11:40:29
AUTOR
Rui Portugal
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Preparação em Saúde Pública – A propósito do Surto de Novo Coronavírus

Em 2002, a epidemia de SARS na China infetou cerca de oito mil pessoas das quais quase 800 morreram, uma taxa de fatalidade de 10%. No caso do SARS, a pandemia propagou-se a 30 países e causou entre 30 a 100 mil milhões de dólares em prejuízos económicos globalmente, sendo que foi estimado uma quebra do PIB na ordem de 1% na China.

Em relação ao coronavírus, e de acordo com os dados conhecidos no último dia de janeiro, a doença já estava identificada em 22 países ou territórios (Macau e Hong Kong), isto é, no período de um mês a doença alastrou para quase todos os continentes (exceto África).

Os coronavírus são uma das grandes famílias de vírus. Alguns causam doenças nas pessoas; muitos outros coronavírus circulam entre os animais, incluindo camelos, gatos e morcegos. Raramente, os coronavírus em animais podem evoluir e infetar pessoas e, em seguida, terem o potencial de se transmitir entre pessoas, como foi observado tanto no Coronavírus da Síndrome Respiratória do Oriente Médio (MERS-CoV), como no Coronavírus da Síndrome Respiratória Aguda Grave (SARS-CoV).

Note-se que a transmissão por via aérea é muito rápida, nada que se compare com a transmissão de doenças como dengue, zika, malária ou ébola. Sabe-se neste momento que existem muitas similitudes entre o novo coronavírus e o vírus da SARS (70% do material genético é idêntico e a transmissão semelhante – entre humanos e entre humanos e animais).

Apesar de uma maior preparação das autoridades chinesas em relação ao controlo de epidemias com o reforço dos serviços de saúde pública – num primeiro momento (logo após o surto de SARS) os serviços de saúde pública têm perdido alguma capacidade nos anos mais recentes – as mesmas autoridades não reportaram a possibilidade de transmissão entre humanos de imediato e, aparentemente, não reportaram todos os casos. O efeito económico de alertas de epidemias pode ser devastador e o risco que tal possa acontecer pode ter contribuído para que as autoridades de saúde pública na China fossem conservadoras em relação ao potencial do impacto de transmissão da doença. É possível que tenha havido pelas autoridades chinesas, como poderia haver em outros países, um excesso de proteção da vida económica na tomada de decisão em relação à proteção da Saúde. Mesmo a Organização Mundial de Saúde (OMS) foi muito cuidadosa a declarar o surto como Ameaça de Saúde Global.

O novo coronavírus aparenta ter uma taxa de fatalidade de 3%, bem menor do que a de SARS… Uma boa notícia. Interessante notar que mais uma vez estamos perante uma zoonose. Os primeiros casos foram relatados em pessoas que frequentavam um grande mercado abastecedor com animais o que confirma a relevância das abordagens em One Health, em conjunto com os nossos colegas da Medicina Veterinária e do ambiente (a 4 de novembro assinala-se o Dia Mundial One Health – efeméride que foi assinalada na Faculdade de Medicina Veterinária da Universidade de Lisboa em 2019). Sabemos que a colaboração entre as entidades de investigação científica tem sido exemplar, note-se que o genoma do vírus foi partilhado a 12 de janeiro (à OMS os primeiros 40 casos foram relatados a 31 de dezembro), enquanto no SARS a sequência do genoma demorou cinco meses.

Este acontecimento testa a capacidade de cada país proteger a saúde dos seus cidadãos e das outras nações – nos princípios da Saúde Global. A preparação em Portugal para o H1N1, para o SARS, para o ébola permitem encarar a nova ameaça com um sentido mais real – conhecemos as nossas fraquezas, mas também conhecemos os nossos pontos fortes e identificamos oportunidades para melhorar a capacidade de intervenção. Os serviços de Saúde Pública têm mais uma vez a possibilidade de se prepararam para estas ameaças. O mais interessante é que as principais medidas de proteção de saúde continuam a ser as realizadas nos portos da Europa no século XV – cordões sanitários e quarentena.

Faz-nos revisitar dois episódios em Portugal: a Torre de S. Sebastião da Caparica, que no final do século XIX, servia parcialmente como alojamento utilizados como quarentena, destinadas a abrigar passageiros e tripulantes das embarcações que aportavam a Lisboa com suspeita de moléstias contagiosas, como por exemplo Rafael Bordalo Pinheiro, com suspeita de Febre Amarela, ao retornar do Brasil; e Ricardo Jorge que, em meados de 1899, no decurso de um surto de peste bubónica no Porto estabeleceu um cordão sanitário em torno da cidade que causou a revolta da população devido às perdas económicas. Uma situação que o forçou a partir para Lisboa, onde foi colocado como Inspetor-Geral de Saúde Pública. Neste contexto, Ricardo Jorge, promoveu a criação do Instituto Central de Higiene (1899) e tomou a seu cargo a reforma dos serviços sanitários, adaptando-os ao novo contexto científico, o que conduziu à publicação do Regulamento Geral dos Serviços de Saúde e Beneficência Pública (Arq Med v.22 n.2-3 Porto  2008) precursor dos serviços que hoje zelam pela Proteção da Saúde no nosso país: a Direção-Geral da Saúde (DGS) e o Instituto Nacional de Saúde Doutor Ricardo Jorge (INSA).

O novo normal e a nova realidade – que alterações provocadas pela pandemia vieram para ficar?
Editorial | Jornal Médico
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Acertar procedimentos e aperfeiçoar métodos de trabalho. Encontrar uma nova visão e adotar uma nova estratégia útil na nossa prática clínica quotidiana. Valorizar as unidades de saúde por estarem a dar as respostas adequadas e seguras é o mínimo que se exige, mas é urgente e inevitável um plano de investimento nos centros de saúde do Serviço Nacional de Saúde.

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