Duas perspetivas, a mesma realidade
DATA
07/01/2020 10:55:27
AUTOR
Rita Meireles Pedro
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Duas perspetivas, a mesma realidade

Fim da consulta, agenda cumprida, e é feita a revelação: “Sr. X, agora quando voltar, a consulta já não será comigo. Infelizmente vou-me embora deste centro de saúde”.

Subitamente, a sua expressão facial altera-se, a sua linguagem corporal demonstra desconforto e desilusão… Começa então o questionário: “Mas porquê? Para onde vai? Não gostou de estar connosco?”. A sua cabeça começa a fervilhar com alternativas para que eu fique na Unidade… “Tudo isto é uma injustiça! Os governantes não percebem o que é uma relação médico-doente!”. Esta última afirmação foi fulcral para a minha reflexão. De facto, nunca tinha pensado nisto do ponto de vista do doente. É que a nossa tendência é ver as coisas sempre da nossa própria perspetiva.

Ao longo dos quatros anos do internato de Medicina Geral e Familiar, vários são os desafios com que o interno se depara. Um deles, e talvez um dos mais importantes, tendo em conta a abordagem holística que esta especialidade exige, é o estabelecimento de uma relação médico-paciente. Uma boa relação médico-doente é uma condição básica para a prestação de cuidados de saúde de qualidade. Já dizia William Osler, "é tão importante saber o tipo de doença que a pessoa tem, como o tipo de pessoa que tem a doença". O fim do internato acarreta uma panóplia diversa de sentimentos, nomeadamente, melancolia e tristeza por abandonar um local de trabalho onde fomos tão bem recebidos e também por deixarmos de acompanhar alguns utentes por quem nos fomos afeiçoando e ganhámos um carinho especial. Mas coloquemo-nos agora no papel dos utentes… Vêem-nos a nós, internos do primeiro ano, “cair ali de paraquedas”, quando já tinham estabelecido uma forte relação de confiança com o seu médico de família, e é muitas vezes complicado para eles reiniciar este processo de criação de uma ligação com um médico diferente. Quatro anos passados, ultrapassadas as dificuldades iniciais, quando finalmente já tinham ganho a confiança suficiente para “depositar” a sua saúde nas nossas mãos e se sentem capazes e à vontade para partilhar problemas da sua intimidade, eis que vêem mais uma vez quebrada essa relação de confiança… e agora terão que repetir o mesmo processo uma vez mais, e quiçá, outra e outra vez…

É normal ter-se uma perspetiva egocêntrica. Na maioria das situações, nomeadamente quando confrontados com experiências desagradáveis, costumamos tirar certas conclusões precipitadas de acordo com as nossas perspetivas do mundo. No entanto, isso é um grande problema, tanto para nós mesmos como para os outros. É importante, pois, habituarmo-nos a olhar para as situações através de ângulos diferentes porque quase sempre há um outro lado da história, uma outra perspetiva. Contudo, na matéria em questão, parece-me que as duas perspetivas (a do médico, que vai abandonar aquele que foi o seu local de trabalho durante quatro anos, e a do paciente, que vai mudar o seu médico de família) são a mesma face da moeda! Porque o que ressalta em ambos os pontos de vista é a relação humana especial que se desenvolve no encontro entre médico e pessoa, ou seja, aquilo que é o ponto-chave da prática clínica – uma relação de respeito, confiança e empática. Por isso, a ligação com as pessoas, os afetos que ficam guardados para sempre na memória e no coração de médicos e pacientes, são sempre o melhor!

O novo normal e a nova realidade – que alterações provocadas pela pandemia vieram para ficar?
Editorial | Jornal Médico
O novo normal e a nova realidade – que alterações provocadas pela pandemia vieram para ficar?
Acertar procedimentos e aperfeiçoar métodos de trabalho. Encontrar uma nova visão e adotar uma nova estratégia útil na nossa prática clínica quotidiana. Valorizar as unidades de saúde por estarem a dar as respostas adequadas e seguras é o mínimo que se exige, mas é urgente e inevitável um plano de investimento nos centros de saúde do Serviço Nacional de Saúde.

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