Sobre envelhecer: o ponto de vista de um médico de família
DATA
10/09/2019 11:45:25
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Jornal Médico
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Sobre envelhecer: o ponto de vista de um médico de família
O fenómeno de envelhecimento da população portuguesa é uma preocupação real nos dias de hoje. Num país onde 20% da população está acima dos 65 anos, e onde temos programas de saúde orientados à saúde infantil, saúde materna e rastreios, ainda está em construção um sistema funcional direcionado aos cuidados geriátricos.1

Afinal o que é “ser velho”? A “velhice” em Portugal é frequentemente sinónimo de isolamento social, declínio do corpo, da mente, e dependência de terceiros. Como médicos de família, travamos diariamente uma luta contra as dificuldades da população geriátrica.

Tive recentemente a oportunidade de vivenciar o dia-a-dia num hospital comunitário de Singapura – o Hospital de St. Luke.

Uma das doentes que acompanhei era uma senhora de 83 anos que foi admitida neste hospital após um AVC isquémico. Chamá-la-ei aqui de D. Maria. À admissão no hospital, foi atribuída à D. Maria uma equipa multidisciplinar: médico, enfermeiro, fisioterapeuta, terapeuta ocupacional e assistente social. Foi realizada uma avaliação inicial e estabelecidos objetivos para a sua reabilitação. Compreendeu-se que a motivação do dia-a-dia da D. Maria era cozinhar o almoço para os netos. Tornou-se então uma prioridade garantir que ela seria capaz de o fazer. Foi ainda realizada uma avaliação da sua situação social. A D. Maria morava com o marido e uma cuidadora. A sua casa tinha algumas barreiras à sua mobilidade, pelo que se procedeu à colocação de rampas, adaptação da casa de banho e cozinha.   

Foi quando vi a D. Maria a voltar para casa, apta a confecionar os almoços dos seus netos, e com a promessa de demais progressos nos tratamentos em ambulatório, que me confrontei com a realidade das várias donas Marias que acompanho.

Em Portugal são poucos os recursos de que dispomos para dar apoio à população geriátrica. Vivemos num país onde continua a ser uma situação comum gerir um idoso sozinho em casa, incapaz de tomar a medicação ou cozinhar; ou ter leitos hospitalares ocupados por utentes que aguardam uma vaga numa unidade extra-hospitalar.

A Rede Nacional de Cuidados Continuados Integrados não consegue dar resposta atempada a estes casos.

O cuidado dos idosos passa frequentemente por cuidadores informais, normalmente os familiares, que suportam o apoio não profissionalizado e não remunerado ao idoso.

Defrontamo-nos diariamente com dificuldade na ativação dos recursos disponíveis, por escassez dos mesmos, de meios humanos, por limitações impostas pelo tempo, ou dificuldades levantadas por complexas plataformas informáticas.

Os estudos mais recentes realizados pela Organização Mundial de Saúde e Organização Mundial de Trabalho destacam Portugal como um dos países com menor investimento no cuidado ao idoso, pior acesso a cuidados especializados e mais fracas politicas de proteção contra situações de violência ao idoso. 2,3

Foi recentemente lançado o Programa Nacional para o Envelhecimento Ativo e Saudável1. No entanto, o programa não fornece meios físicos ou humanos para as colocar em prática.

Carecemos da construção de um programa estruturado para a população idosa, no sentido de garantir condições de dignidade, e de os manter devidamente vigiados e parte integrante da sociedade.

Trabalhamos todos os dias a multiplicar recursos inexistentes, a inventar soluções mágicas para problemas bastante reais. Apercebemo-nos nestas alturas que fazemos o trabalho de muitos com tão poucos. E voltamos com a esperança de conseguir oferecer mais e melhor aos nossos utentes. Fica o desabafo de uma jovem médica de família.

Bibliografia:

1Estratégia Nacional para o Envelhecimento Ativo e Saudável, Despacho n.º12427/2016, Direção Geral de Saúde

2Relatório Mundial de Envelhecimento e Saúde - Organização Mundial de Saúde 2015

3Scheil-Adlung, Xenia, Long-term care (LTC) protection for older persons: A review of coverage deficits in 46 countries, International Labour Organization 2015

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