Pesquisas sobre saúde na internet: quais as consequências?
DATA
23/08/2019 10:56:22
AUTOR
Luciana Ornelas
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Pesquisas sobre saúde na internet: quais as consequências?

O crescimento da internet foi uma alavanca importante para a disseminação de informações de saúde, que antes eram quase exclusivamente acessíveis através dos profissionais de saúde. Mas quais são as consequências desta informação nas pessoas que a pesquisam? Qual a influencia destas pesquisas na relação médico-doente e na procura por serviços e recursos de saúde?

Segundo McMullan, et al. (2018) indivíduos mais ansiosos com a sua saúde, tendem a despender mais tempo e a pesquisar mais frequentemente sobre questões de saúde. Os mesmos autores referem ainda que neste grupo de indivíduos as pesquisas na internet habitualmente são uma característica comportamental, em vez de um comportamento independente que afeta diretamente a ansiedade. Por outro lado, em indivíduos cujos níveis basais de ansiedade são baixos ou inexistentes, o estudo concluiu que a pesquisa por informações de saúde online pode ser um precursor de ansiedade e precipitar pesquisas adicionais e cada vez mais detalhadas, o que por sua vez pode gerar ainda mais ansiedade, contudo a relação entre o comportamento de procura de informação e a ansiedade gerada é variável de pessoa para pessoa.

A internet é cada vez mais, considerada uma fonte de informação relevante para quem pesquisa informações de saúde, mas para a maioria da população, os profissionais de saúde continuam a ser a fonte preferencial e mais credível de informação, contudo por vezes o profissional de saúde é procurado apenas após uma pesquisa na internet, o que leva inevitavelmente a um maior consumo de consultas.

A internet é responsável, em parte, pela mudança na relação médico-doente, que se tem observado ao longo dos anos. Após uma pesquisa na internet, os doentes recorrem às consultas mais informados, com mais questões acerca da sua situação clínica, mas também com mais exigências em termos de pedidos de exames complementares de diagnóstico, pedidos de consultas de especialidade e medicação, por vezes sem fundamento científico válido, o que pode gerar confronto com o médico e levar a um aumento de consumo de recursos de saúde.

Por outro lado, no caso da informação obtida na internet ser de qualidade, esta proatividade por parte dos doentes, pode ser benéfica quer para o médico, quer para o doente, pois a consulta torna-se mais eficiente e existe uma maior probabilidade de adesão terapêutica. Assim, nesta situação, a internet pode ser considerada um complemento à consulta.

É verdade que o acesso a informações de saúde na internet pode ser uma vantagem, todavia nem toda a informação disponível é válida, confiável e detalhada e quem a lê nem sempre tem crítica para avaliar a credibilidade da informação. Estudos recentes revelam que a maioria dos consumidores de informações de saúde, confiam nas informações disponíveis na internet, o que pode aumentar o risco de automedicação, com prejuízo na saúde do doente. Para contornar esta problemática, a certificação de sites, com base em critérios estabelecidos por entidades especializadas, com o objetivo de garantir padrões mínimos de qualidade, poderia ser uma boa estratégia.

As informações de saúde obtidas na internet têm um impacto importante nas pessoas que a pesquisam, na relação médico-doente e no consumo de recursos de saúde, por isso é urgente uma adaptação da consulta médica a esta nova realidade e a criação de métodos de certificação de qualidade dos sites sobre saúde, para que as informações obtidas sejam verdadeiramente úteis e complementares à consulta médica, tornando a consulta e o consumo de recursos mais eficiente.

 

 

Bibiografia

Suziedelyte, Agne. How does searching for health information on the Internet affect individuals demand for health care services? Social science & medicine, 2012, 75.10: 1828-1835

Mcmullan, Ryan, et al. The relationships between health anxiety, online health information seeking and cyberchondria: Systematic review and meta-analysis. Journal of affective disorders, 2018

Serviço Nacional de Saúde – 40 Anos
Editorial | Jornal Médico
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