O olhar do Médico de Família sobre a Menopausa

A “Super-mulher” do século XXI tem, agora, um reconhecido papel na sociedade, não só a nível pessoal e familiar, como também profissional.

Em média, cada mulher passa cerca de um terço da sua vida em menopausa, sendo que as alterações hormonais características desta fase do ciclo de vida são reais e têm consequências físicas, psicológicas e na saúde em geral. Contudo, é possível prevenir e controlar os sintomas, pelo que é importante investir na qualidade de vida durante este período e deixar de o referir como um princípio de declínio para a mulher.

Um outro aspeto que não deve ser descurado é a componente sexual, muitas vezes comprometida nesta etapa da vida, mas de reconhecido relevo para o bem-estar holístico da mulher.

Mas afinal, o que é a Menopausa?

A menopausa é uma etapa normal da vida da mulher. Por definição estabelece-se o seu diagnóstico definitivo após 12 meses seguidos de amenorreia e ocorre habitualmente entre os 45 e os 55 anos de idade.

Fatores genéticos, patologia da tiroide ou doenças autoimunes, tratamentos médicos (como radioterapia e quimioterapia) e hábitos de vida (como o consumo de álcool e tabaco ou dietas muito restritivas) podem provocar uma menopausa precoce.

O diagnóstico é clínico e baseado numa data. Habitualmente, não são requeridos estudos complementares, porém a combinação de FSH> 25 mUI/ml e Estradiol <20-30 pg/ml dão consistência ao diagnóstico.

Nesta fase, mulheres sob contraceção hormonal apresentam frequentemente alteração do padrão menstrual. Existe pouca evidência sobre como e quando descontinuar métodos contracetivos, sendo clara a necessidade de recomendações precisas.

Quais são os principais sintomas?

Dentro do vasto espectro onde reside a variabilidade individual de cada mulher e até variabilidade geográfica, sintomas como afrontamentos, suores noturnos, alterações de humor, insónia, queixas urinárias, secura vaginal, entre outros poderão estar associados.

Será que a Menopausa afeta mesmo a sexualidade?

A diminuição da circulação do estrogénio pode causar secura vaginal que, por sua vez, pode ser causa de dispareunia. Nestes casos a terapia hormonal de substituição (TSH) e o uso de lubrificantes podem ter benefício. Na maioria das vezes, o desejo sexual na mulher não é apenas biológico e elementos como disponibilidade emocional, intelectual, erótica e física, vida social e laboral intervêm na relação do casal, sendo que não há relação direta entre a sexualidade mental e a excitação sexual fisiológica.

Paralelamente, com o envelhecimento, a autoimagem corporal da mulher pode alterar-se por diversas razões e esta pode temer que o(a) parceiro(a) se sinta menos atraído(a). A mulher deve ser capaz de comunicar as suas preferências e desejos abertamente, assegurando assim uma boa capacidade de comunicação antes da menopausa. Uma relação sexual gratificante antes da menopausa pode continuar a sê-lo depois, independentemente da idade. Cabe-nos a nós, médicos de família, discutir o tema com as nossas utentes, educando e contrariando estereótipos e ideias erróneas sobre a sexualidade em idade avançada.

Medidas terapêuticas

Sabe-se que a THS é o tratamento mais efetivo para os sintomas associados ao climatério, sendo, portanto, esta a terapêutica atualmente considerada mais válida.

Medidas não farmacológicas como usar roupas em camadas, evitar o álcool e picantes, criar o ambiente calmo e com temperaturas baixas, reduzir a obesidade e o stress com uma dieta equilibrada, exercício físico aeróbio e terapia cognitivo comportamental será sempre um ponto de partida positivo de qualquer terapêutica.

 

Acima de tudo, é preciso não esquecer que esta fase da vida é diferente de mulher para mulher e é intensamente influenciada por fatores externos, como as relações sociais, familiares e íntimas, com o(a) parceiro(a). E a prevenção começa muito antes dos primeiros sinais de menopausa aparecerem. O médico de família deve sentir-se confiante e capacitado para abordar este tema assumindo uma atitude proactiva.

 

Bibliografia:

  • Sociedade Portuguesa de Ginecologia. “Consenso Nacional sobre Menopausa.” Disponível em: www.spginecologia.pt. Consultado em 15 de Março de 2019
  • Saúde, Direção-Geral. “Menopausa – Conceitos e Estratégias” Circular informativa Da Direção-Geral Da Saúde, número 01/2011, atualizada em 2011
  • F. Cavadas, Luís, et al. “Abordagem da Menopausa nos Cuidados de Saúde Primários”. Acta Med Port 2010; 23: 227-236
  • Stuenkel, CA., et al. “Treatment of symptoms of the Menopause: An Endocrine Society Clinical Practise Guideline.” The Journal of Clinical Endocrinology & Metabolismo 2015 100:11, DOI:10.1210/jc.2015-2236
Serviço Nacional de Saúde – 40 Anos
Editorial | Jornal Médico
Serviço Nacional de Saúde – 40 Anos

Reler as origens do Serviço Nacional de Saúde ajuda a valorizar o presente e pode ser uma forma de aprender para investir no futuro com melhor fundamentação

Mais lidas