A importância da intervenção no tabagismo ao nível dos CSP
DATA
30/07/2019 18:13:11
AUTOR
Ana Costa e Sá, Joaquim Lima e Susana Silva Pinto
ETIQUETAS


A importância da intervenção no tabagismo ao nível dos CSP

O tabagismo é um dos mais importantes problemas de saúde dos nossos dias, quer pela sua prevalência, quer pelas consequências que pode gerar, tanto na população fumadora, como na não fumadora.

Fumar afeta todo o organismo humano, destacando-se o facto de ser fator de agravamento das doenças crónicas não transmissíveis mais prevalentes, nomeadamente o cancro, as doenças respiratórias e as doenças cardiovasculares. A Organização Mundial de Saúde (OMS) refere, inclusive, no seu relatório de 2008, que o consumo de tabaco constitui, a nível mundial, a principal causa evitável de doença e de morte, o que se repercute de forma pesada em custos sociais, económicos e de saúde.1

Segundo a OMS, as intervenções para controlo do tabagismo são a segunda forma mais efetiva de investimento dos recursos financeiros em saúde, a seguir à imunização infantil.2 Parar de fumar traz sempre benefícios, imediatos e a longo prazo, em ambos os sexos, em todas as idades, em pessoas com ou sem doenças relacionadas com o tabaco. Embora deixar de fumar seja benéfico em qualquer idade, os ganhos são tanto maiores quanto mais precoce for o abandono definitivo do consumo de tabaco.1,3, 4, 5

Neste contexto, parece-nos inquestionável que a prevenção e o controlo do tabagismo devam constituir um objetivo prioritário das políticas de saúde. Além disso, sendo os cuidados de saúde primários (CSP), inúmeras vezes, a primeira linha de contato dos doentes, este torna-se um local privilegiado para a realização de intervenções antitabágicas.

A abordagem do tabagismo requer a combinação de várias estratégias: proteção da exposição ao fumo do tabaco, promoção da educação para a saúde, de hábitos e estilos de vida saudáveis, prevenção do início do consumo e a promoção da cessação tabágica.

Quando nos referimos mais especificamente à cessação tabágica, podemos dividi-la em dois níveis de intervenção: Intervenção Breve (IB) e Consulta de Apoio Intensivo (CAICT).

A IB é uma medida que está ao alcance de todos os profissionais de saúde e consiste numa abordagem de curta duração, que visa avaliar os hábitos tabágicos e a motivação do fumador para deixar de fumar, bem como ajudar e acompanhar os que pretendem iniciar o processo de cessação.

A CAICT trata-se de uma consulta estruturada de apoio intensivo ao fumador, realizada por profissionais de saúde com formação especializada em cessação tabágica, que engloba, na maior parte das situações, uma abordagem farmacológica associada a uma mudança comportamental, orientada para o fumador.

No nosso país, conforme Despacho n.º 6300/2016 do Secretário de Estado Adjunto e da Saúde de abril de 2016, as Administrações Regionais de Saúde deveriam assegurar que, até final do ano de 2017, todos os agrupamentos de centros de saúde (ACES) possuíssem consultas de apoio intensivo à cessação tabágica. Este despacho vem corroborar, de forma subentendida, a relevância deste tipo de consultas no controlo do tabagismo, bem como o facto de a sua implementação ao nível dos CSP facilitar o acesso da população a este tipo de intervenção.

Tendo isso em conta, e no âmbito de um Projeto de Intervenção na Comunidade, foi implementada uma CAICT no ACES Santo Tirso/Trofa, em janeiro de 2018. Um ano após a sua criação, a consulta contava com 308 fumadores referenciados, 681 consultas realizadas e 60 fumadores abstinentes aos 30 dias após o dia D, o que, na nossa opinião, reforça uma vez mais a magnitude deste problema de saúde e a importância do seu controlo.

Tal como citado no Programa Nacional para a Prevenção e Controlo do Tabagismo, “o trabalho de hoje na redução da incidência e prevalência do tabagismo representa um investimento essencial para um futuro mais saudável das próximas gerações”.6

  1. 1. World Health Organization – Report on the global tobacco epidemic. The MPOWER package. Geneva: World Health Organization. 2008.
  2. 2. World Health Organization Regional Committee for Europe – Health 2020. A European policy framework and strategy for the 21st century. 2012.
  3. 3. Doll R et al.– Mortality in relation to smoking: 50 years’ observations on male British doctors. British Medical Journal. 2004.
  4. 4. US Department of Health and Human Services. – The health benefits of smoking cessation: a report of the Surgeon General. Rockville, MD: Centers for Disease Control and Prevention, Office on Smoking and Health. 1990.
  5. 5. Fiore et al.– Treating tobacco use and dependence: 2008 update: clinical practice guideline. Rockville, MD: Public Health Service. U.S. Department of Health and Human Services. 2008. 6. Direção-Geral da Saúde. Programa Nacional para a Prevenção e Controlo do Tabagismo 2012 – 2016. 2013.
Serviço Nacional de Saúde – 40 Anos
Editorial | Jornal Médico
Serviço Nacional de Saúde – 40 Anos

Reler as origens do Serviço Nacional de Saúde ajuda a valorizar o presente e pode ser uma forma de aprender para investir no futuro com melhor fundamentação

Mais lidas