Desculpem, mas eu li! Há algo de podre no reino da Dinamarca…
DATA
30/07/2019 18:11:35
AUTOR
Rui Cernadas
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Desculpem, mas eu li! Há algo de podre no reino da Dinamarca…

Aos números sempre se lhes reconheceu o caráter matemático e o rigor inerente que, mesmo aos alheios e distantes, não escapa nem permite equívocos.

A ideia da interpretação dos números dir-se-ia ter sido uma fórmula pagã de tentar escamotear ou de criar aquilo que, em relação à desgraça da gestão dos números e dos orçamentos, se designou de engenharia financeira. Mas, os números são o que são.

Por exemplo, o presente e o futuro da carga de insuficiência cardíaca (IC) em Portugal. A prevalência no nosso país, desde 2014, está estimada em 5,2%. Por outras palavras, estamos perante uma “epidemia” silenciosa que, em 2014, foi responsável por 4.688 mortes e que, em 2036 custará mais 73% de óbitos: 8.112.

O peso da carga de doença avaliada em “DALY” aumentará de 28% passando de cerca de 21,2 mil para 27,1 mil, com as consequentes subidas em anos de vida perdidos por morte prematura por esta doença e de anos de vida perdidos pela repercussão das incapacidades geradas no mesmo intervalo e anos em comparação estimada. O ciclo do envelhecimento populacional parece apenas sublinhar este impacto.

Mas, há algo de podre no reino da Dinamarca!

Esta conhecida e traduzida frase reporta aos poemas de Shakespeare, nomeadamente na tragédia Hamlet e é dita por Marcellus, um dos oficiais dinamarqueses, no final do IV quadro do I Acto: o famoso “Something is rotten in the state of Denmark”… O seu contexto virou lendário e paradigmático, significando algo de escandaloso ou de inaceitável na condução ou desagregação de um país, um estado ou uma instituição.

Entre nós, no Serviço Nacional de Saúde (SNS) há igualmente algo de podre no reino da Dinamarca. E isso não refrescou, nem mudou com a mudança de ministro.

Depois de um 2018 que foi o ano de todas as greves e de tantas na Saúde quanto não há nem memória, nem comparação, as derrapagens na qualidade e na quantidade dos cuidados dispensados avolumaram-se e o SNS prossegue de luto e em luta pela sobrevivência. O arranque em 2019 confirma que cerca de um quarto de milhão de doentes se encontram inscritos em listas para cirurgias pelo SNS. Pior do que isso, um número entre 40 e 50 mil aguardam marcação das mesmas cirurgias, pese embora já terem excedido todos os tempos de espera máxima definidos pelo próprio governo em 2018!

Apesar disso o Ministério garante e anuncia medidas que tudo controlarão e resolverão… Algo de podre no reino da Dinamarca…

Por outro lado, já se conhecem os números – que porcaria esta coisa dos números… Só no primeiro trimestre de 2019 confirmou-se uma queda de mais de três por cento no total de cirurgias programadas por comparação com 2018! Uma bagatela de menos cinco mil cirurgias!

Ao mesmo tempo, as medidas do Ministério para suprir e resolver esta questão são de monitorização e mais monitorização, transparência e mais transparência, sem assegurar dimensões verdadeiramente operacionais e de aumento da produção e da produtividade dos hospitais do SNS.

Se a procura aumenta é porque, apesar de tudo, os cidadãos e utentes do SNS, confiam nos profissionais que os seguem e tratam e aceitam e confiam nas oportunidades e propostas terapêuticas que lhes são disponibilizadas. Mas, se a resposta falha, como está a falhar, a responsabilidade deve ser assacada a quem realmente a deve assumir.

Os tempos de espera são uma dimensão real da resposta do SNS. A falta de resolução do problema uma real dimensão da incapacidade do Ministério da Saúde!

Serviço Nacional de Saúde – 40 Anos
Editorial | Jornal Médico
Serviço Nacional de Saúde – 40 Anos

Reler as origens do Serviço Nacional de Saúde ajuda a valorizar o presente e pode ser uma forma de aprender para investir no futuro com melhor fundamentação

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