Jornal Médico Grande Público

Desculpem, mas eu li! Avanços e problemas da inovação
DATA
27/06/2019 16:19:58
AUTOR
Rui Cernadas
ETIQUETAS


Desculpem, mas eu li! Avanços e problemas da inovação

É inquestionável que o mundo mudou muito nos últimos anos.

As populações por todo o planeta – salvo os casos dos países mais pobres e bem identificados, infelizmente – vão conhecendo evolução positiva em muitos indicadores de saúde, designadamente em termos de sobrevivência e de assistência aos doentes e às doenças.

Mas nem tudo, longe disso, depende dos serviços de saúde e dos meios e recursos que existem disponíveis. Condições ligadas à habitação, ao acesso à água e ao tratamento dos resíduos e saneamento, ao emprego, à educação e aos serviços de saúde são cruciais e nem sempre as leituras reconhecem o papel importante que lhes compete na melhoria global da qualidade de vida. Por outro lado, se é verdade que muita da inovação acabou por mudar radicalmente a história natural de doenças relevantes – como as relacionadas com os vírus da hepatite C e VIH – é igualmente certo que se pode abrir espaço de discussão para o valor real que é oferecido por algumas terapêuticas recentes ou que aí vem e que de tão dispendiosas podem colocar em causa o acesso.

Na realidade, e nesta altura, já não há países que não se debatam com os desafios para um esforço de contenção dos custos com a saúde – pela via da inovação.

De facto, os aspetos ligados à demografia, em especial ao envelhecimento populacional e à sobrevida em doentes com patologias tratadas e antes associadas a menor tempo de sobrevida, integram o tal novo cenário. Por outro lado, o peso das doenças oncológicas e os crescentes sucessos obtidos no seu combate – não tanto pela via de prevenção (provavelmente mais barata e eficiente, diria…) –, mas pela dimensão terapêutica, cirúrgica e/ou médica, com reforço porventura do aumento de capacidade de diagnóstico precoce, sobe assustadoramente.

Também muitas das doenças raras ou órfãs, para as quais aliás a sociedade parece mais desperta e a investigação elenca para atividade e desenvolvimento – embora em nichos ou grupos pequenos de indivíduos – representa uma vertente de grande despesa já hoje em dia e com clara tendência de crescimento exponencial.

Ao nível dos ensaios clínicos há também novas questões que se abrem, como por exemplo, as condições para a sua realização, seja por fatores estatísticos e epidemiológicos, seja por randomização ou necessidade de grupos comparadores, ou no limite por falta um tratamento standard para avaliação ou justificação do preço ou estudo económico.

Em resumo, os preços dos novos medicamentos – e da inovação em geral – vai continuar a balançar entre a despesa brutal e elevadíssima que se liga aos respetivos processos de pesquisa, desenvolvimento e introdução no mercado, e a capacidade dos decisores, pagadores e doentes para os preços a pagar pelos mesmos. E os Estados a, mais cedo do que mais tarde, decidir quem poderá ser tratado…

Relatório Primavera: verdades e consequências
Editorial
Rui Nogueira
Relatório Primavera: verdades e consequências

“Ó Costa aguenta lá o SNS” foi o pedido de António Arnaut em maio do ano passado, poucos dias antes de nos deixar. Mas o estado da saúde em Portugal está mal ou bem ou vai indo? Está melhor ou pior? O SNS dá as respostas úteis às necessidades de saúde da população? O Relatório de Primavera ajuda a fazer interpretações fundamentadas.

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