Pais que escolhem não vacinar os filhos
DATA
23/04/2019 10:38:02
AUTOR
Mariana Amaral
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Pais que escolhem não vacinar os filhos

Para um médico, treinado para confiar no método científico e na ciência, deparar-se numa consulta com pais que não pretendem vacinar os filhos é um desafio.

A evidência científica e a realidade histórica fornecem-nos argumentos claros para recomendar a vacinação. Hoje, 54 anos após o início da aplicação do Programa Nacional de Vacinação (PNV), os resultados são explícitos. A varíola foi erradicada,  poliomielite, difteria, sarampo, rubéola e tétano neonatal eliminadas; tétano, meningite C, hepatite B, papeira, tosse convulsa, tuberculose e H. influenzae b controladas. De acordo com a investigação «O estado da confiança nas vacinas 2018», promovida pela Comissão Europeia, os portugueses parecem ainda apostar nas vacinas. Cerca de 98% consideram-nas importantes para a saúde das crianças, 96,6% entendem que são eficazes e mais de 95% dizem que são seguras. No entanto os recentes surtos de sarampo, inclusivamente em Portugal alertam para o facto de talvez esta confiança não se traduzir em vacinação efetiva. Um dos fatores que poderá contribuir para este facto será número crescente de imigrantes.

Recentemente, deparei-me numa consulta com um lactente de 4 meses sem qualquer vacina realizada. Após a estranheza inicial e excluída a contraindicação por motivos médicos, constatei que era por decisão dos pais.

Como profissionais de saúde, é nossa missão promover a saúde do lactente, mas também da sua família, futuros contactos na escola e população em geral. Expliquei aos pais a importância do efeito de grupo, que a vacina não confere apenas proteção individual mas também da comunidade e que ao não vacinar estava a pôr em risco crianças e adultos que por razões médicas para não serem vacinados. Responderam que “não faz sentido vacinar contra doenças que já não existem em Portugal” e também “há um estudo que diz que as vacinas causam autismo”. A argumentação prévia foi, na prática, inútil. As vacinas estão a ser, efetivamente, vítimas do seu próprio sucesso, tal como afirmou Janko em 2012 no artigo publicado no Journal of Ethics da American Medical Association.

A consulta terminou, mas permaneceu a dúvida sobre como lidar com esta situação. Deverei ser mais incisiva, mais contundente nas palavras, apresentar estudos clínicos e discuti-los com os pais? Apresentar gráficos comprovando a diminuição de mortalidade ou complicações e sequelas associadas a doenças como varíola, poliomielite e sarampo? Aumentar a literacia em saúde e evitar a utilização abusiva do “Doutor Google”? Ou resignar-me com a situação? A última hipótese não será com certeza. Está nas nossas mãos, dos enfermeiros, outros profissionais de saúde e, em última análise do estado, defender a vacinação. Esta é um importante recurso para uma sociedade saudável e livre de doenças potencialmente preveníveis. Avizinha-se uma época de vacinação obrigatória?

 

 

Referências:

Heidi J. Larson, Alexandre de Figueiredo, Emilie Karafllakis and Mahesh Rawal. State of Vaccine Confidence in the EU 2018.

 Ministério da Saúde. Direção-Geral da Saúde (DGS). Programa Nacional de Vacinação 2017. Lisboa: DGS; 2016

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