Filipa Faria: reabilitar a pessoa com lesão medular
DATA
25/11/2015 10:00:46
AUTOR
Jornal Médico
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Filipa Faria: reabilitar a pessoa com lesão medular

[caption id="attachment_17035" align="alignnone" width="300"]Filipa Faria Filipa Faria - Diretora de Serviço de Reabilitação de Adultos no Centro de Medicina de Reabilitação de Alcoitão[/caption]

A lesão medular é uma das situações mais dramáticas que pode surgir na vida de uma pessoa. Em muitos casos instala-se de forma súbita após um traumatismo, por vezes minor, como uma queda em casa, noutros casos instala-se de forma insidiosa, ao longo de semanas ou meses. De qualquer forma, condiciona mudanças importantes no modo de viver e de realizar as tarefas do dia-a-dia, com impacto não apenas no próprio individuo, mas também na família. A reabilitação, através de uma abordagem multiprofissional, contribui de forma decisiva para maximizar as capacidades funcionais, promover a autonomia e a participação social.

O CMR Alcoitão, desde a fundação em 1966, tem um Serviço destinada à reabilitação de lesões medulares. A equipa de reabilitação, constituída por terapeutas, enfermeiros, psicólogos, dietista, ortoprotésicos e técnicos de serviço social, é coordenada pelo médico Fisiatra, que é também o interlocutor privilegiado com as outras especialidades médicas ou cirúrgicas.

O programa de reabilitação é abrangente e global, incidindo sobre todos os aspetos do funcionamento do individuo, não só as incapacidades motoras, mas também as características individuais, sejam psicológicas, culturais ou de envolvência social. Deste modo, o programa de reabilitação é individualizado, sendo estabelecidos objetivos nas diversas áreas de intervenção, pela equipa em conjunto com o doente. O fim último é sem dúvida promover a participação da pessoa com lesão medular na sociedade.

À luz dos conceitos da funcionalidade humana, a tecnologia (enquanto produto de apoio) é um dos fatores do ambiente que pode facilitar a participação. As pessoas com lesão medular dependem de uma variedade de produtos de apoio para manter o seu estado de saúde e para realizar as atividades diárias. À medida que o mundo se torna tecnologicamente mais avançado, fica também mais acessível em muitos aspetos para pessoas com mobilidade reduzida. Contudo, num futuro próximo, colocam-se alguns desafios. O primeiro prende-se com o financiamento: o desenvolvimento tecnológico promete aumentar as capacidades das pessoas com lesão medular; mas será que o acesso aos novos produtos não será limitado por questões económicas? Como garantir a equidade? Que formas de comparticipação na atribuição de produtos de apoio? Outra questão a considerar refere-se à importância de envolver os utilizadores no processo de desenvolvimento do produto, design e fabrico. Os produtos de apoio devem ser concebidos em resposta a necessidades concretas e adaptados ao que os indivíduos que os vão utilizar realmente pretendem; a visão do engenheiro/designer nem sempre coincide com o ponto de vista da pessoa que vai usar esse produto no seu dia-a-dia; é por isso fundamental a participação dos utilizadores desde o início do processo, para que se adequa às suas efectivas necessidades.

Reabilitar significa tornar a habilitar, ou seja, promover a capacitação para aumentar a participação. Estamos certos que a tecnologia irá desempenhar um papel relevante nesse caminho.

Este é um dos temas que estará em debate no I Simpósio Ibérico em Lesões Vertebro-Medulares, uma iniciativa conjunta da Santa Casa da Misericórdia de Lisboa, do Instituto de Investigação em Ciências da Vida e Saúde da Universidade do Minho (ICVS/3Bs) e da Associação Salvador, que decorre de 30 de novembro a 1 de dezembro, no Centro de Medicina de Reabilitação de Alcoitão.

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