Rui Cernadas: nem sempre, nem nunca
DATA
02/06/2014 19:50:24
AUTOR
Jornal Médico
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Rui Cernadas: nem sempre, nem nunca

[caption id="attachment_6762" align="alignnone" width="300"]ruicernadas Rui Cernadas
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A qualidade profissional dos médicos portugueses é a cada dia mais reconhecida internacionalmente.

O número de colegas que deixam o país quer por procura activa de emprego e lugar, quer por honrosos convites (os mais diversos e institucionais, em diferentes idades na vida e na actividade médica e/ou docente, ou da investigação) confirma diariamente essa constatação.

O país caminha, a passos largos, para um cenário de satisfação plena das necessidades em médicos e clínicos, sendo de admitir que, após a correcção em curso de alguma assimetria nas colocações e distribuição regional, o problema recorrente da escassez de médicos fique resolvida.

De idêntico modo, os médicos dos “grandes anos” de entradas nas faculdades de medicina, no início dos anos 70 do século passado, antes mesmo do “25 de Abril”, com contingentes de 600, 700 ou 800 estudantes por faculdade, estão, de forma gradual mas inexorável, a passar à situação de aposentados, ou por idade ou doença, ou desencanto e cansaço ou ainda por inadaptação…

A qualidade do ensino médico pré-graduado é evidente e mesmo nas mais recentes faculdades de medicina, o trabalho desenvolvido tem sido excelente.

De igual modo, a formação nos internatos médicos tem mantido um nível de desempenho e qualidade média muito elevada, logrando até agora acolher e respeitar as necessidades e capacidades formativas, num mapa de idoneidades aqui e ali a acusar as aposentações dos mais velhos.

Mas não nos iludamos, o excesso não favorece a qualidade!

Há aqui e ali sinais e denúncias de uma certa falta de capacidade formativa pós-graduada e conhecem-se casos, possíveis no cenário vigente, de colegas que ingressam em internatos de especialidade sem esforço, sem trabalho e sem dificuldade, com notas negativas e eventualmente até de zero! E não é por ilegalidade ou ilicitude. Tão-somente porque o “sistema” - a tal palavra indefinida tantas vezes utilizada a respeito de tanta coisa - o permite e concede.

Os custos da formação médica de base e de formação de um médico especialista são verdadeiramente elevados e o país precisa de poupar e de cortar, como se ouve sempre, no desperdício.

Há dados claros e confirmados de que Portugal, dentro de 10 anos, por volta de 2025, deverá ter já mais de 8000 médicos desempregados!

Para quê? A quem serve tal situação? O que ganha o SNS com isso? Quanto perderá o país por tal facto? Por isso mesmo a manutenção do quadro de ingressos de alunos nas escolas médicas pré-graduadas, compreendendo a perversidade do regime de financiamento universitário que custeia em função da admissão de estudantes, vai tornar-se rapidamente inadmissível. Para que é preciso licenciar mais médicos do que o país precisa? Com tanto computador e tanto Excel, tantos gestores na saúde, há dúvidas sobre as reais necessidades em recursos humanos?

A discussão do próximo quadro legal dos internatos médicos não deveria passar ao lado dos médicos portugueses.

Num contexto duro e difícil, os médicos portugueses devem manter-se lúcidos. Pensar e reflectir sobre o papel da profissão… E no que todos somos antes de sermos médicos.

É nosso dever, sublinhado de resto no Estatuto da Ordem dos Médicos, um conjunto de procedimentos, de comportamentos e de posturas que, como homens e mulheres, como cidadãos e como clínicos devemos respeitar e defender.

A Saúde tem que ser entendida como um pilar essencial da democracia e do Estado português.

É tempo de dela se falar mais, bem mais e aprofundadamente, do que apenas sobre os “cortes” ou os custos, não embarcando nesse discurso que tomou conta do país e da Europa de que tudo é economia e finanças.

É tempo de se falar igualmente dela, como modelo e exemplo do rigor e da responsabilidade que, em quase todas as restantes actividades escasseia ou mesmo falta!

O sucesso do SNS e o orgulho que os cidadãos nele depositam não foram obra de acaso ou de um qualquer jogo político ou sindical.

Deveram-se ao empenhamento dos seus profissionais e aos investimentos possíveis, no respeito pelo interesse dos portugueses.

Investir na Saúde é também investir na Formação
Editorial | Carlos Mestre
Investir na Saúde é também investir na Formação

Em março de 2021 existia em Portugal continental um total de 898.240 pessoas sem Médico de Família (MF) atribuído, ou seja, 8,7% da população não tem um acompanhamento regular com todas as medidas preventivas e curativas inerentes ao papel do especialista em Medicina Geral e Familiar (MGF).

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