José Agostinho dos Santos: a Terceira Guerra Medicinal
DATA
14/05/2014 17:03:40
AUTOR
Jornal Médico
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José Agostinho dos Santos: a Terceira Guerra Medicinal

[caption id="attachment_6766" align="alignleft" width="300"]joseagostinhodossantos José Agostinho Santos
Médico de Família
Unidade de Saúde Familiar Dunas, ULS – Matosinhos[/caption]

Vamos já em Maio, mas desde que começou 2014 não se fala de outra coisa que não seja o ambiente de extrema tensão existente entre duas facções, uma delas fortemente influenciada por uma terceira força que lhe promete mundos e fundos, que é bem maior e poderosa e que deixa qualquer um de nós bastante melindrado. É uma história antiga, mas que agora se revela no seu máximo expoente. Ou estou a ser muito dramático… Ou isto irá despoletar a terceira grande guerra!

Hã?!... Perdão, Ucrânia?! Guerra mundial?!...

Mas eu agora sou o Prof. Marcelo Rebelo de Sousa?! Nada disso! Falo-vos dos terríveis e temidos conflitos entre médicos (instigados pelo Ministério da Saúde e suas estruturas de administração) e os pacientes idosos e suas famílias no momento da prescrição de um sedativo/hipnótico/ansiolítico!

Na verdade, a tensão no seio desta problemática antecede 2014 mas, desde que o ministério e seus órgãos de administração incentivaram o corte radical do volume de prescrições destes fármacos aos pacientes idosos (através de altas metas de não-prescrição contidas numa medida fundamentalista denominada "indicador de avaliação de desempenho" - um claro eufemismo!), as situações clínicas de conflitos têm-se tornado tão intensas que, ultrapassando a barreira da consternação, se tornaram… Ridículas (passo a expressão!)!

Por vezes, Deus permite-me, assim num momento de luz, congelar a minha actividade como médico interveniente e ser um mero observador passivo deste meio onde estou apenas de passagem. E deixem que vos diga: não é nada bonito!

É do conhecimento geral que os ansiolíticos têm o potencial para produzir danos nos idosos, danos esses que podem ir desde uma maior propensão para quedas até interacções medicamentosas com terapêuticas crónicas. Porém, durante anos a sua prescrição desenfreada e pouco criteriosa conduziu a uma disseminação destes fármacos entre a população portuguesa. Conhecendo o potencial de tolerância e dependência que a maioria deles apresenta, temos uma fracção da população, tanto adulta como sénior, dependente dos seus efeitos tranquilizantes e hipnóticos.

Um brutal erro do passado, é certo. Poder-se-ia tentar minimizar as sequelas desse erro e impedir a sua perpetuação no presente e no futuro.

Algo sensato, seria seleccionar criteriosamente, num presente que nos pertence neste momento, os pacientes naifes a quem se prescreveria um sedativo. Com o avançar do tempo, teríamos uma população idosa gradualmente menos dependente e alvo de uma menor prescrição. Porém, com estas metas de imposição… Perdão, contratualização (ups!)… Tão elevadas para cumprimento desse indicador, caiu-se no erro de iniciar uma corrida tresloucada para apagar ou enterrar esse erro do passado, levando a que, com diferentes níveis de excentricidade, as situações de batalha se multipliquem nos gabinetes e nos corredores nessas zonas de alta tensão que são os centros de saúde!

A situação nº 1 é o vexame na secretaria da unidade de saúde: a idosa, que toma o seu lorazepam há mais de 10 anos, desespera quando percebe que, entre os seus pedidos de medicação, consta apenas o antihipertensor e já não o comprimido de dormir. Avisada há 2 meses pela sua médica de que deveria fazer o seu desmame gradual e programado, a paciente fica primariamente confusa, depois queixa-se com vibrante linguagem não-verbal, posteriormente chora…. E finalmente começa a arrancar os seus próprios cabelos na sala de espera porque não consegue dormir sem o seu medicamento (a verdade é que não dorme mesmo nada há mais de 72 horas!). Completamente esbaforida, a idosa é trazida para o gabinete de urgência de enfermagem, arrastada aos braços de uma secretária clínica que berra "a senhora não se está a sentir bem!!”.  A equipa de enfermagem apressa-se a deitá-la na maca em posição de Trendelenburg, mede a tensão arterial, avalia a glicemia capilar... Uma outra enfermeira chama o médico de urgência, que corre para o gabinete onde tudo se passa. As pessoas na sala de espera assistem por todas as frinchas possíveis e acenam com ar de pena enquanto comentam com conhecimento de causa: "A médica dela é assim... Quando diz que não é não! Por isso que eu dou graças a Deus por não a ter como médica! Credo!". Já outra paciente ao lado lança uma outra teoria "Oh... coitada!... O marido morreu-lhe há 3 anos e ela nunca mais foi a mesma mulher...". Ou ainda… O melhor e mais justo comentário: "É para isto que a gente desconta, estão a ver? Os doentes estão mal e os médicos não querem saber nem dão os medicamentos que a gente precisa!". Este último reúne o consenso de todos que em simultâneo relatam as experiências pessoais frustrantes com o Sistema Nacional de Saúde. E nunca mais ninguém se lembra da idosa… Excepto, claro, o médico e as enfermeiras que, numa tentativa de sossegar a senhora, lhe fazem um sorinho glicosado e lhe colocam um diazepam debaixo da língua!

Um final feliz! … … Ou então não!! Diazepam não é um ansiolítico??... Hmmm...

Seguindo em frente…. A situação nº 2 desenrola-se numa infantil luta entre médico e paciente, cada um segurando as pontas de uma receita de um fármaco sedativo, prescrita por engano. É certo que o paciente teria ido à consulta de vigilância da diabetes, que por sua vez estava completamente descontrolada. A consulta poderia centrar-se na abordagem das melhores estratégias conjuntas para controlo glicémico, mas não... Não houve tempo para tal naqueles 20 minutos! Naquela consulta, um grita "dê-me isto!" o outro retorque "é minha!"; um implora "é só mais esta caixa!" ao que o outro responde "falsas promessas! Já me disse isso no mês passado!!". É claro que, enquanto um puxa para a esquerda e outro para a direita, o resultado final é o rasgo da receita em dois pedaços... Ah: da caixa e da relação médico-paciente!

Seguem-se momentos de insultos do lado de fora da porta do gabinete, depois o bater à porta em desespero enquanto se suplica compaixão… "Eu preciso do meu medicamento para dormir e ser feliz!!"... Até à chamada da família para arrombar a porta, quiçá até todo centro de saúde!

Surgem os seguranças! Vem a polícia! Há agressões físicas... Novamente. Chama-se o INEM… Que leva agredidos e agressores ao serviço de urgência hospitalar, claramente exaltados... Seguem-se suturas com 5 e 6 pontos e, claro... Um diazepamzinho para relaxar!

Não é este um cenário de guerra?!... Eu chamar-lhe-ia a Terceira Guerra Medicinal!

Sabemos bem que, como sempre, há quem lucre bastante com a guerra!... Então não é que a D. Ermelinda, aquela idosa de 75 anos com aspecto tão ou mais carinhoso que a velhinha que faz os anúncios dos hipermercados Continente a dizer "No meu tempo!...", passou a dedicar-se ao mercado paralelo de ansiolíticos?! Pelo que consta, conseguiu fazer o desmame do seu lorazepam! Ela própria é um verdadeiro caso de sucesso de descontinuação de ansiolíticos após mais de 5 anos de toma ininterrupta... Um caso único no raio de 80km ali na região! Mas o seu médico não sabe disto, pelo que continua a prescrever! É vê-la agora com ar de mânfia no Largo da Igreja a passear-se com uma cesta onde que transporta empadas e pão fresco, tangerinas e… Umas 4 caixas de lorazepam, que venda a 10 euros cada!

O médico da D. Ermelinda, muito provavelmente, não terá abordado esta problemática e, talvez por ser sensato e/ou estar saturado de um quotidiano clínico entupido com 1900 utentes e com programas informáticos decadentes, não acredita que a dependência de sedativo nocturno seja o maior problema dos seus pacientes idosos. Assim, dispensa o pouco tempo que tem em algo que resulte em maiores ganhos de saúde para os seus pacientes idosos: ouvir as suas inquietações quanto a uma morte que já é encarada como próxima, sentir as suas angústias por ver os netos a partir para países longínquos, revelar empatia com as suas dores que os impedem de tomar um banho refrescante no verão...

A guerra dos sedativos!... A terceira guerra medicinal... Quando tempo irá durar? Todos nós reconhecemos os efeitos maléficos dos sedativos, particularmente nos idosos... Mas terá alguém estudado os efeitos da suspensão ou da não-prescrição de tais fármacos a pacientes cuja dependência, neste ponto das suas vidas, será a menor das prioridades para o seu bem-estar físico, psicológico e social?

E será que estes pacientes, mesmo informados dos efeitos colaterais dos seus sedativos, considerarão que esta é matéria de abordagem na consulta com seu médico? Haverá, na realidade, um ganho final em saúde com esta corrida desenfreada à redução drástica da prescrição?

Num quotidiano tão sobrecarregado e em que as consultas parecem ser tão curtas para as necessidades sentidas tanto pelo paciente, como pelo médico, será que constitui uma prioridade que justifica delegar outras abordagens para um segundo plano? É que o tempo não abunda nem é elástico…

Eis as questões! Assim é a vida! Bom trabalho!

PS: qualquer semelhança com a realidade é pura coincidência

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