Acácio Gouveia: modas & mitos - I
DATA
05/05/2014 16:22:10
AUTOR
Jornal Médico
Acácio Gouveia: modas & mitos - I

[caption id="attachment_6771" align="alignnone" width="300"]acáciogouveia Acácio Gouveia
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“Uma ideia nova nasce (…) de uma súbita interrogação em relação ao que já não espanta ninguém há muito tempo”

Luc de Brabandere

Por vezes, isto das ideias é como as cerejas. Julga o escrevinhador que teve uma ideia interessante e uma vez materializada em prosa, coisa de quatro ou cinco centenas de palavras, o assunto ficaria arrumado. Puro engano! Como lenços de seda atados entre si a saltarem da manga do ilusionista, eis que se encadeiam mais e mais ideias à inicial. Posto este intróito, já entenderam os leitores que volto a abordar o tema de anteriores crónicas, tendo tido o cuidado de mudar o título.

Particularmente preocupantes, de entre o rol dos mitos acientíficos sobre saúde que por aí pululam, são as duas formas que hoje abordaremos. Preocupantes porque, cada um, à sua maneira, estão embutidos no sistema, camuflados, legitimados.

Os vendilhões do Templo

“E surgirão muitos falsos profetas e enganarão a muitos”

Mateus, 24,12

Por um lado temos a condescendência, para não dizer apadrinhamento, de entidades que julgávamos responsáveis pelo rigor científico e ético (governo e ordens profissionais), para com uma série de mitos urbanos, alguns dos quais resvalam para a vigarice descarada. Há cerca de ano e meio os meios de comunicação social anunciaram legislação sobre a publicidade de produtos no domínio da saúde. Hélas… com espanto saltitam por aí os despudorados anúncios aos desintoxicantes, pílulas para emagrecimento, energizantes, estimulantes de memória, enfim uma plêiade de aldrabices que esvaziam os bolsos dos incautos cidadãos e enriquecem os vendedores de ilusões. Dificilmente se entende o beneplácito conferido por quem deveria defender o cidadão destas vilanias: as autoridades de saúde. Quando vejo os tais anúncios pergunto-me onde estará o suporte científico daquelas “maravilhas” e também se estarão sujeitas à notificação de eventuais efeitos acessórios? Mas também o silêncio das ordens, nomeadamente da OM é desconcertante. É também difícil de entender a passividade dos entusiastas da prevenção quaternária. Será o abuso de estatinas mais inútil que a depuralina? E as técnicas de venda de Memorex, menos censuráveis que a promoção de nootropos da IF?

A 5ª coluna do obscurantismo

“É a altura da ciência (…) retomar os seus direitos e os exercer.”

Louis Pasteur

Por outro lado temos os mitos incorporados na própria praxis médica oficial, alopática, ou como lhe queiram chamar. Não falo de assuntos controversos como o rastreio do cancro da próstata ou da mama, sobre os quais está longe de existir consenso. Refiro-me a práticas cuja falta de suporte científico é pacificamente aceite pela própria comunidade médica, mas que o cidadão comum julga úteis e mesmo imprescindíveis. As análises anuais, em adultos saudáveis, o abuso da imagiologia para as lombalgias simples, os antibióticos nas infecções respiratórias virais, enfim, uma série de procedimentos inúteis ou mesmo nefastos. Deploravelmente, o cidadão afere a competência do clínico à luz destes mitos e em última análise a sua opinião contribui para a avaliação do médico. E o problema não apenas nacional. Leia-se um elucidativo artigo publicado recentemente no Medscape “Patient Satisfaction Is Overrated”. Nele, vários colegas americanos confessam que atropelam as regras da boa prática médica, sob pressão dos utentes, para assim subirem uns pontos na sua avaliação, ou manterem as clientelas. Seja por cedência, seja por ignorância (sim, porque também há médicos a acreditarem nos benefícios do hemograma anual!), o facto é que estes desvios e cedências acabam por legitimar e perpetuar estas superstições pseudo-médicas.

Resumindo…

“O mais sábio é o que sabe que há coisas que nunca saberá”

Mia Couto

No fundo, toda a sorte de superstições tradicionais, de mitos urbanos ou crenças irrealistas na Medicina responde a uma ânsia profunda e antiquíssima do ser humano: a necessidade de se apoiar em certezas que lhe proporcionem segurança num mundo inseguro e fluido. Por isso, é da natureza humana iludir-se com representações irreais, simpaticamente irreais e simplistas da realidade. Como diria Francis Bacon: preferimos acreditar no que preferimos que seja verdadeiro.

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