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José Agostinho dos Santos: não há tempo?...
DATA
16/04/2014 13:24:19
AUTOR
Jornal Médico
ETIQUETAS

José Agostinho dos Santos: não há tempo?...

[caption id="attachment_6766" align="alignnone" width="300"]joseagostinhodossantos José Agostinho dos Santos
Médico de Família
Unidade de Saúde Familiar Dunas, Lavra[/caption]

Estes últimos meses de Medicina Geral e Familiar têm pertencido às nossas gigantes frustrações quanto às barreiras que vamos encontrando no nosso quotidiano clínico. Infelizmente! Estes meses deveriam pertencer, de facto, aos nossos pacientes e a nós mesmos… Os monitores dos computadores tornam-se muros das nossas lamentações e os corredores das unidades resgatam os tristes desabafos e as lágrimas de indignação quanto a um sistema informático que não corresponde às exigências de uma medicina que seja aquilo que etimologicamente a define (a acção de cuidar).

Eu já juntei o meu grito de desespero numa frase que tantos outros terão já dito como "não há tempo para fazer nada!". Tempo é, aliás, do que mais se fala quando se abordam as recentes alterações do SAM com a introdução da PEM. Esta PEM não Arranca... Empanca... Desanca... num período de tempo que vai muitíssimo além do que, há um ano, se considerava razoável com a prescrição de um medicamento. Todos nos queixamos que a PEM rouba, num acto de violento saque, o tempo que teríamos para o paciente, para nós e para a paixão pela Medicina...

Porém, foi no auge da minha exaustão pela gestão de um tempo que já não me pertence e de total descrença num sistema informático que tem complicado em vez de auxiliado os registos médicos... Que, numa Bela Manhã, percebi que afinal com a introdução da PEM, tempo é coisa que sobra para dar e vender! Não, não estou louco… Senão, vejamos!

Na realidade, o processo de aquisição de uma receita tornou-se tão lento quanto o processo de adopção de uma criança, pelo que "nos entretantos" existe tempo para resolver e abordar tantos outros assuntos! De facto, agora temos esta oportunidade de conhecer melhor tantos e inúmeros detalhes da vida que nos rodeia! Entre cliques aqui e ali, entre espirais e círculos hipnotizadores e entre dezenas de bloqueios que nos obrigam a reiniciar a sessão de trabalho, eis que surge a oportunidade de conhecer melhor a actividade profissional daquele paciente. Por exemplo, enquanto tentava entrar na PEM logo após colocar a minha password no remate final da consulta, pude conhecer a composição exacta de uma fibra óptica (assunto dos dias de hoje e que sempre me fascinou) através do paciente engenheiro que se sentava à minha frente!... Uma interessante conversa de 30 minutos, o tempo que demorou a impressão final da receita do seu anti-hipertensor.

Este contributo para a minha cultura geral acrescentou-se ao meu maior conhecimento sobre as guerras napoleónicas na Península Ibérica, fornecido por um outro paciente (professor de história) enquanto eu tentava imprimir a sua receita entre os diferentes pop-ups que surgiam e que eu ia apagando (quase como se fosse um jogo de computador). Fascinante!...

Com o passar destes longos meses de lentidão informática, alguns dos meus queridos pacientes ficaram, na realidade, já tão sensibilizados para esta questão que já trazem o jornal do dia para eu dar uma vista de olhos à actualidade nacional e internacional enquanto se espera...

E, assim, já não se desespera!

"O Doutor não se importa que eu vá ao supermercado fazer umas comprinhas enquanto as receitas não saem?" – questiona uma das pacientes. “Pois claro que não me importo! Combinamos encontrarmo-nos dentro de 40 minutos, à porta do gabinete!”

Há dois meses, eu tentara programar com os meus pacientes algumas estratégias de gestão do tempo de consulta programada (20 minutos) em que, logo que entrassem no gabinete, atiravam de imediato os pedidos de renovação da medicação crónica para cima da mesa. Tinha uma inocente expectativa de que, caso eu entrasse na PEM no minuto 1, tivesse as receitas em mão no minuto 20. Porém, rapidamente esta ideia (à partida brilhante!!) caiu por terra, pois despoletava um bloqueio enquanto tentava concretizar os registos médicos no SAM. Acredito que se tentasse abrir a PDS, bloqueava o sistema informático de toda a unidade, tal seria o curto-circuito por mim desencadeado…

Com esta lentidão do sistema informático, em que o tempo que medeia cada clique é uma imensidão, surgem mil oportunidades para mil coisas! Explorar e dissecar os saberes locais das pessoas, resolver assuntos pessoais, tomar um agradável café com a pessoa à nossa frente... Respirar fundo, comer bem e devagar e, talvez até, fazer uma corrida de 20 minutos para manutenção da boa forma física! A PEM dá-nos este tempo!!... E o dia chega ao fim com 5 consultas realizadas! Tempo é, portanto, o que não falta!... É certo que ficam de fora dezenas de outros pacientes com necessidade de ter consulta… Que na sala de espera reclamam e se indignam. Com toda a razão! Mas, pelo que todos já entendemos, este sistema informático actual não foi concebido para desenvolver dezenas de consultas por dia. Ou foi?!??!... (essa era boa!)

Entretanto, nessa mesma Bela Manhã, acordei e percebi que tudo isto era um sonho… Suspirei e avancei para fora da cama para mais um dia de trabalho. Qualquer semelhança entre um sonho e a realidade é pura coincidência.

Assim é a vida! Bom trabalho…. dentro do possível!

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