Rui Cernadas: a gestão de doenças crónicas
DATA
14/03/2014 16:01:02
AUTOR
Jornal Médico
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Rui Cernadas: a gestão de doenças crónicas

[caption id="attachment_6762" align="alignnone" width="300"]ruicernadas Rui Cernadas
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O grande e rápido progresso das chamadas ciências médicas em áreas como a da genética molecular ou das neurociências, o uso de nanotecnologias e o despontar dos inovadores agentes terapêuticos biológicos, a par dos avanços nas tecnologias de informação e imagem, foi tão espectacular quanto a mudança ainda mais rápida, talvez num decénio, do enquadramento da profissão médica!

O tema poderia levar-me a discussão acalorada mas não é esse, desta vez, o meu intuito e inspiração.

Acabei de ler um artigo americano que falava de problemas éticos criados pela profunda transformação dos contornos e dos limites da própria decisão médica.

E da sua relação com parte da questão introdutória, isto é, do tremendo aumento das capacidades técnicas e de diagnóstico na Medicina, sem esquecer a necessidade e vantagens das relações interdisciplinares entre os médicos e os outros profissionais especializados da saúde, incluindo bio-engenheiros, farmacêuticos e gestores de níveis diversos…

Estimativas da Organização Mundial de Saúde (OMS) indicam que as doenças crónicas não transmissíveis são responsáveis por quase 60% de todas as mortes ocorridas no mundo e por 50% da carga global de doença, constituindo um sério problema de saúde pública e de finanças.

Oferecer uma proposta global de assistência diferenciada aos pacientes portadores de doenças crónicas não transmissíveis – hipertensão, diabetes, asma, DPOC ou outras – e que alerte, eduque e corrija os seus factores de risco, como o tabagismo, a obesidade ou o sedentarismo, com monitorização, follow-up e avaliação dos casos, deveria ser um novo paradigma para uma gestão integrada das patologias crónicas.

Os resultados seriam evidentes, com impacto num maior controlo das agudizações e complicações, promoção do autocuidado e da qualidade de vida, redução das admissões hospitalares e do absentismo.

Na verdade, temos todos a noção clara de que os sucessivos internamentos por doenças crónicas apenas traduzem uma menor atenção ou investimento nos cuidados primários. O diagnóstico mais precoce, uma atitude terapêutica mais agressiva e menos condescendente ou um seguimento mais apertado, podem fazer uma enorme diferença.

Mas a função dos cuidados de saúde primários não se esgota aqui. A contribuição para uma redução efectiva dos internamentos evitáveis incluirá a acessibilidade, a capacidade de coordenação e gestão do doente no seu todo e para além do nível de intervenção hospitalar, o controlo da adesão ao tratamento ou a continuidade dos cuidados.

Há naturalmente e nesta altura problemas novos e complexos.

O envelhecimento demográfico, condicionando um novo e muito preocupante cenário.

Mas os fenómenos migratórios ou as alterações climatéricas, por exemplo, são relevantes, como o será o panorama de constrangimento financeiro à escala mundial.

O respeito e a consideração das diversidades étnicas ou raciais, culturais, sociais e religiosas sedimentam formas e ferramentas de intervenção distintas, mantendo em atenção diferentes necessidades de saúde das respectivas populações, com riscos e vulnerabilidades específicas.

Parece-me indispensável, na gestão das doenças crónicas, proceder à estratificação, sem alienar o dever de avaliar a severidade clínica e a capacidade de autocuidado do doente.

As pessoas com condições crónicas, com ou sem factores de risco associados e os seus familiares ou cuidadores, convivem com os seus problemas diariamente por longo tempo ou mesmo por toda a vida. É essencial, assim, que estejam muito bem informadas e motivadas para lidar com elas e adequadamente capacitadas para desempenharem correctamente os seus papéis.

Pode-se desenvolver o autocuidado apoiado de várias formas: individualmente ou em grupos, em consultas colectivas ou de equipas, à distância, por telefone e/ou por meio da Internet, por inserção em grupos de doentes ou associações de doenças.

Segundo a OMS, o autocuidado apoiado e orientado poderá incluir no procedimento global outros pacientes mais experientes, conhecedores e familiarizados com o problema para, a partir das suas experiências, apoiar de formas variadas o autocuidado a outros pacientes (peer education). O acesso a novas tecnologias e sistemas de informação, transmissão e armazenamento de dados, torna o futuro multidimensional e inexcedível.

E o futuro está aí.

Para o bem e para o mal.

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