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DATA
17/03/2014 11:07:14
AUTOR
Acácio Gouveia
O obscurantismo dos iluminados – II

(...) não há outro imã além da razão

Só ela nos guia de dia e de noite.

Ali-l-Ala

No seguimento do raciocínio exposto em anterior reflexão - a popularidade que as novas superstições gozam entre as elites intelectuais - convirá acrescentar algumas considerações, não vá o leitor julgar este tecelão de ideias como um empedernido defensor duma ortodoxia dita “alopática”, paredes meias com eurocentrismo arrogante. De modo algum. Não é segredo que as vacinas, talvez a maravilha das maravilhas da Medicina, são uma descoberta asiática e que os curarizantes foram importados do Brasil pré-cabraliano. A acupunctura, apesar dos entraves metodológicos à prova definitiva da sua eficácia vai sendo pragmaticamente aceite nos meios “alopáticos”. Enfim, há todo uma série de exemplos que provam que a medicina “ortodoxa” é bem mais aberta do que o que para aí se diz. O que ela não é é promíscua - é céptica. É, felizmente, um clube exigente na admissão de novos sócios. Não se entra por diletantismo, exotismo ou popularidade. As provas de iniciação são rudes e a permanência nunca está assegurada. O merecimento à pertença está sempre à prova. Por isso, seria de estranhar que, deste autocepticismo permanente, que é apanágio da ciência, fossem isentadas as modas exóticas que os “iluminados” querem elevar à categoria de verdades científicas, sem terem de prestar provas.

Podemos discernir várias características nestes movimentos iconoclastas. Antes de mais revelam uma enorme atracção pelo exotismo, o que só por si é positivo. Infelizmente, esta simpatia está inquinada pela mãe de todo o disparate: um peculiar conceito de sentido crítico, absolutamente bipolar. Muito mais dzerjinskianos do que cartesianos, quando se trata de avaliar a ciência “oficial”, rejeitam liminarmente tudo quanto dela provenha. Já as heterodoxias são aceites com a mesma alegria que o filho pródigo. Sofrem dum insalubre gosto pelas teorias conspirativas, repetitivas e sem imaginação. Cultivam uma simpatia fundamentalista pelo que é “natural”, acompanhado com a ingénua crença na sua inocuidade, réstias do movimento hippy. Citam amiúde o mote - deveras ingénuo - “o que é natural, pelo menos, mal não faz”. Que o digam os que foram picados por escorpiões ou que tenham provado - e sobrevivido - cogumelos amanita pantherina! Frequentemente aderem a uma vaga espiritualidade (o que quer que isso signifique). São as vibrações cósmicas, o poder das pirâmides, eu sei lá … Um imobilismo anti-epistemológico, uma crença em verdades eternas e imutáveis, é quase regra entre eles. Daí decorre um simplismo, apresentando resposta para todos os problemas, e um optimismo delirante a prometer resultados garantidos. Amiúde há um interesse comercial mais ou menos evidente.

Mas a pedra de toque, comum a estas variados formatos de mitologia urbana e pós-moderna, está no seu carácter anticientífico e irracional. Paradoxal, atendendo à sofisticação dos adeptos.

COVID e não-COVID: Investimentos para resolver novos e velhos problemas
Editorial | Rui Nogueira, Médico de Família e presidente da Associação Portuguesa de Medicina Geral e Familiar
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