Rui Cernadas: Ciência e educação
DATA
13/03/2014 10:58:06
AUTOR
Jornal Médico
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Rui Cernadas: Ciência e educação

[caption id="attachment_6762" align="alignleft" width="300"]ruicernadas Rui Cernadas
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Os países não se distinguem só pelas bandeiras e pelos hinos.

Distinguem-se pelos seus povos e pela sua história, pela sua cultura e pela força das suas convicções, quantas vezes sobreviventes de guerras e holocaustos.

Marcas que fazem de cada um deles um país diferente e singelo, com características e particularidades que, ou invejamos e pretendemos imitar, ou menosprezamos convencidos de que somos melhores.

Na verdade, se existe uma organização – entre muitas convenhamos – que agrupa todos os países e estados é porque a sua variedade justifica o lema de todos diferentes, todos iguais, ainda que, até a esse nível se perceba como isso é bem mais teoria e aspiração do que prática e realidade.

Como na vida, nem quem nasce e quando nasce é realmente igual, não fosse o peso determinante da genética e do seu poder de moldar destinos e existências.

O país tem ouvido falar nas últimas semanas de investigação e investigadores.

Por um lado, porque se acumulam prémios e notícias sobre feitos extraordinários associados a cientistas ou grupos de investigadores portugueses, quer por obra produzida em Portugal, quer em centros internacionais que, a todos enchem de orgulho e honra.

Por outro, porque numa onda de constrangimento económico e financeiro, talvez até mais de constrangimento social e conceptual, se assiste ao problema da falta de recursos para atribuição de bolsas e programas financeiros de apoio e materialização de projectos de pesquisa e desenvolvimento tecnológico e científico.

Para Portugal e para os portugueses a questão nada tem de nova, sendo transversal nos últimos anos ao sacrifício generalizado das actividades e das pessoas.

Mas a realidade é que o problema do investimento financeiro dos estados na investigação e na ciência, como na educação, obriga a reflexão serena, alargada e abrangente.

Em termos globais, poucos acreditarão que um país que invista menos em ciência e educação possa obter melhores dividendos do que outro que siga uma política inversa.

Mas onde está a razão e por onde passa a verificação dos resultados?

O lema da ciência a sério é exactamente o de observar, de raciocinar e de experimentar na procura de novas verdades e de novos desafios, não de se resignar e voltar para trás.

A ciência, como a educação, precisa de ser articulada com o mundo e com a prática, procurando materializar o aproveitamento das suas descobertas e conclusões dum mundo académico e de pensamento, para uma realidade prática e social, capaz de trazer conhecimento, desenvolvimento e consequências.

Esta relação estreita e permanente entre a investigação e a educação com a vida das populações e dos países será determinante para a consciencialização da importância das primeiras para a vida dos cidadãos, bem como para o reconhecimento dos custos dos investimentos e orçamentos dedicados e empenhados no apoio aos cientistas e investigadores.

O mesmo se diga e passa com os educadores e a educação.

Há que garantir a relação prática entre as coisas.

Alguém admite ou concebe que se possa ensinar alguém a nadar só através de aulas teóricas ou mesmo por intermédio apenas de simuladores ou programas informáticos?

É por isso que a educação carece de objectivos estratégicos que a liguem ao quotidiano das pessoas e das sociedades.

E é por isso, também, que a ciência precisa de se aproximar da educação.

Não existe ciência sem a praticar!

E o país, como todos os países, sabe e sente que os seus dinheiros públicos se lhes escapam como água entre os dedos das duas mãos, sabe e conhece os modos como desaparecem em muitos pontos e sectores da vida e da gestão pública e sente-se no direito de conhecer o que os seus investigadores, bolseiros e universitários pesquisam, publicam, investigam e aplicam…

Lembro-me de Agostinho da Silva e alguns dos seus versos:

“…

Se a nação analfabeta

derrubou filosofia

e no jeito aristotélico

o que certo parecia

deixem-na ser o que seja

em todo o tempo futuro

talvez encontre sozinha

o mais além que procuro.”

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