José Agostinho dos Santos: Eugénio vem à consulta…
DATA
14/03/2014 16:02:59
AUTOR
Jornal Médico
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José Agostinho dos Santos: Eugénio vem à consulta…

[caption id="attachment_6766" align="alignleft" width="300"]joseagostinhodossantos José Agostinho Santos
Médico de Família
Unidade de Saúde Familiar Dunas, Lavra[/caption]

É tarde de quinta-feira. Não se trata, portanto, de uma segunda-feira negra, dia tradicionalmente sobrecarregado, porém pelas 16h40 desta quinta-feira, já eu penso para os meus botões que o dia corre mal. Mal porque eu já apresento um atraso que é de 50 minutos relativamente às horas das consultas e porque entrarei com cerca de uma hora de atraso na consulta aberta que se iniciaria às 16 horas. É certo que a última demorou 25 minutos em vez dos 20 programados, mas a grande fatia do atraso deve-se a um SAM que persiste em falhar vários minutos, a uma PEM que se mantém fiel aos seus 80 segundos para imprimir uma única receita e a uma PDS que traz consigo outros 100 segundos para visualizar um exame complementar. Eu havia almoçado em 10 minutos para fazer os registos clínicos da manhã, mas tal foi em vão…

A esta hora da tarde, Eugénio vem à consulta. É chef de cozinha já com experiência num restaurante que foi ganhando fama nos últimos anos. Coloca-me as suas breves dúvidas sobre a sua saúde e, após o exame físico, expõe a sua recente angústia. Essa angústia é reveladora do seu menor bem-estar psicológico. Fala-me dos conflitos que tem tido com o novo gerente do seu restaurante e da maneira como esses conflitos corroem a sua alma agora repleta de conflitos consigo próprio.

Orgulhoso do trilho já percorrido enquanto chef reconhecido e profundo apaixonado pela arte da culinária, conta-me os rasgos que vem sofrendo recentemente na sua auto-estima e que são produto de uma tristeza em revolta. Num caminho desanimador, confessa-me que tem procurado a apatia como atenuadora da sua inquietação. Tem percorrido os difíceis dias que o têm aproximado do burnout. "Com as actuais estratégias definidas para o restaurante, antevejo-me no fim da linha, absolutamente esgotado por lutar pelo bom nome de um estabelecimento que vai ser necessariamente perdido", diz-me. Conta-me que tem procurado manter a qualidade de um serviço há muito ameaçado. "Não há materiais para a confecção de alguns pratos e o que existe é de qualidade duvidosa... Troca-se coentros por salsa, troca-se carne das pastagens por carne das rações e, como se não bastasse, ampliou-se a sala para aumentar o número de mesas... A gerência tem apelado à maior quantidade e menor qualidade, no sentido de projectar o maior lucro possível, pressionando os elementos da cozinha para acelerar. Esta nova gerência pensa que o restaurante será sempre lucrativo porque está situado numa zona turística central...". Enquanto me revela estes factos, as mãos ficam tensas, pousadas de forma bem rígida em cima da secretária que nos separa. A expressão facial adquire o tom cinzento do inverno chuvoso, esperando eu que se criem algumas abertas com esta escuta terapêutica. Mais à frente, adianta que “o mais revoltante é que sou a imagem deste restaurante para muitos clientes que se cativaram e que agora sentem que já não lhes guardo a dedicação que merecem na criação dos meus pratos! Apostou-se na produção precária, em massa, em vez de na arte da culinária".

Eugénio fala-me do inquietante conflito interior que se situa entre a luta pela instituição que acredita que ainda possa resistir a uma gestão arrasadora e a dor das feridas diárias que cura em casa num processo que ameaça a harmonia familiar. "Chego cansado... Em ruptura e a hora tardia. E tal rompe, por sua vez, as relações com os meus filhos e esposa... Quando se deixa de ter tempo e espaço para fazer aquilo em que mais acreditamos, é o princípio do fim".

As lágrimas correm pelo seu rosto e as mãos escorregam até colo com os dedos atirados para baixo. Nesta consulta, discutem-se depois caminhos e planos terapêuticos. Trocam-se impressões e fazem-se as nossas decisões partilhadas. Os minutos passam... E esta consulta ultrapassa muito os 20 minutos que lhe tinham sido destinados, algo que prolonga ainda mais o meu gigante atraso. Mas Eugénio sai do gabinete e eu sinto que ambos fizemos a consulta que lhe seria absolutamente necessária...

São 17h20 e esperam-me doze (im)pacientes para as consultas abertas, cada uma delas agendada de 10 em 10 minutos. Respiro fundo, deixo os registos informáticos da consulta de Eugénio para o fim do dia e rezo para que as consultas urgentes não tragam casos complexos que me exijam um grande esforço. É que, por um lado, quero reduzir o meu atraso, por outro lado acuso já algum cansaço.

Chamo o primeiro dos doze. É o colega Jorge, paciente da minha lista e também ele médico de família. Vem à consulta por se sentir "à beira do abismo". Apresentando um semblante pesado, fala-me brevemente dos problemas de trabalho que eu conheço, fala-me dos atropelos à prática de uma medicina centrada no paciente que eu reconheço... E fala-me da sua vida pessoal. Cada minuto passa, pesa e pisa-me com uma pressão mutiladora. Lá fora, ouve-se o barulho ensurdecedor do caos. Jorge sente que não tem força para seguir. E eu sinto que não tenho tempo para o Jorge.

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