Raquel Correia: o privilégio de ser Médico de Família
DATA
24/02/2014 10:47:02
AUTOR
Jornal Médico
ETIQUETAS

Raquel Correia: o privilégio de ser Médico de Família

[caption id="attachment_7111" align="alignleft" width="300"]raquelcorreia Raquel Correia
Interna de formação específica de Medicina Geral e Familiar na USF Novo Cuidar; Fafe; ACES Alto Ave.[/caption]

Ser Médico de Família é muito mais do que uma profissão. É uma forma de viver, que se torna parte de nós e é sobretudo, entre os sortudos que o fazem por opção, algo de maravilhosamente gratificante.

Esta é uma das minhas experiências enquanto interna de Medicina Geral e Familiar, que me faz brilhar de entusiasmo com a actividade que abracei.

O fim-de-semana tinha sido solarengo e quente, mas a segunda-feira começou chuvosa e cinzenta. Nesse dia tinha agendado três domicílios, por isso, não gostei muito da cara que o dia me fez.

Chegada ao primeiro domicílio, a D. “Clara”, recebeu-me com um sorriso caloroso, na sua cozinha pequena, onde o cheiro a leite acabadinho de ferver (não aquecido em micro-ondas!), me conduziu numa viagem no tempo e me fez sorrir. Neste dia, a D. Clara não manifestou a sintomatologia dolorosa com tanta intensidade e estava realmente bem-disposta e conversadora: “ a doutora está com a cara mais gordinha!” Talvez D. Clara, talvez…

Cheguei ao exterior e a chuva estava a dar tréguas. Parti para o segundo domicílio.

A D. “Maria” estava aconchegada na sua cama, calma, com os olhos na janela. A filha que a cuida, muito simpática, mostra com orgulho como a mãe está bem cuidada, apesar de acamada há vários anos. Depois, partilha alguns desabafos sobre as rotinas do seu dia- a - dia. Despeço-me, com um até breve.

A chuva mantém-se distante, ainda bem! Pronta para o terceiro domicílio. O Sr. enfermeiro pergunta se não podemos parar na casa de um utente de um outro médico da USF, antes do terceiro domicílio, uma vez que é na proximidade. Claro que sim! Trata-se de um doente acamado, por doença neuro degenerativa, a quem é preciso mudar a cânula da traqueostomia. Decidi também entrar…

O quarto era grande e iluminado, bem preparado para o Sr. “Arlindo”. Somos recebidos pela esposa, sua cuidadora, que se apresenta de forma muito acolhedora. Vivem os dois sozinhos, perderam o filho único…Enquanto aguardo pela troca da cânula, reparo na foto antiga do Sr. “Arlindo”, vestido com o equipamento de um grande clube de futebol português. Faço uma referência ao clube e ganho do Sr. Arlindo um sorriso enorme. A esposa auxilia o enfermeiro na troca da cânula, cheia de cuidado, mas também de destreza. Olha para o marido, com quem comunica só pelo olhar, de uma forma para todos imperceptível. Reparo pela forma como comunicam, que a relação do casal é óptima, e que ele participa nas decisões de vida diárias.

Após a despedida, deixo-os com a certeza de que são felizes! E venho feliz também, porque aprendi nesta casa algo novo sobre a doença, que não está nos livros certamente. Este senhor ultrapassou a esperança média de vida para esta doença, é feliz e gosta de viver. Ele consegue comunicar e mantém o seu lugar como marido, participando activamente na vida familiar!

Reflicto um pouco e penso como é mágica esta partilha, que os utentes têm com o seu Médico de Família; como somos recebidos calorosamente e como expõem as suas vidas e pensamentos, tal como se fossemos da sua família; como aprendemos tanto diariamente com os nossos utentes, como somos privilegiados por fazer parte das suas realidades.

E já chegamos ao último domicílio!

Até a chuva colaborou!

Nota do editor: escrito de acordo com o Acordo Ortográfico aprovado pela Resolução da Assembleia da República n.º 26/91, de 23 de Agosto

COVID e não-COVID: Investimentos para resolver novos e velhos problemas
Editorial | Rui Nogueira, Médico de Família e presidente da Associação Portuguesa de Medicina Geral e Familiar
COVID e não-COVID: Investimentos para resolver novos e velhos problemas

Acertar procedimentos e aperfeiçoar métodos de trabalho. O estado de emergência terminou e o estado de calamidade passou, mas o problema de saúde mantem-se ativo. É urgente encontrar uma visão inovadora e adotar uma nova estratégia. As unidades de saúde precisam de encontrar respostas adequadas e seguras.

Mais lidas