Rui Cernadas: a Cultura Moderna
DATA
22/10/2013 06:14:22
AUTOR
Jornal Médico
Rui Cernadas: a Cultura Moderna

A chamada cultura moderna tem construído - ou pelo menos deixado em aberto - caminhos complicados, cujo alcance a maior distância ou prazo, é ainda claramente pouco exacto

 

rui_cernadas.jpgA chamada cultura moderna tem construído - ou pelo menos deixado em aberto - caminhos complicados, cujo alcance a maior distância ou prazo, é ainda claramente pouco exacto.Porém, não seria impensável admitir que, em alguns casos, o mundo assistisse de novo a fenómenos ou princípios totalitários e repressivos relativamente a muitas das "modernices", a começar, por exemplo, pela "liberdade" que a internet e os sistemas de redes sociais representam...

Poderíamos discutir em que medida é que isso interessa, ou não, aos profissionais de saúde. Certamente.

Mas se o caso Edward Snowden pôs, mais uma vez e à escala global, problemas diplomáticos mas, sobretudo e antes, de consciência aos olhos de todos, a verdade é que o "aquecimento" das relações entre os Estados Unidos - mesmo de Obama - e a Rússia fez lembrar os tempos da "guerra fria" e conduziu, no mínimo, ao adiamento do esperado encontro entre os dois presidentes.

A "fuga" de informações e a revelação de "segredos" ou dos planos e realidades do controlo e da espionagem, para além de terem tornado pública a noção de que tudo isto acontece muito mais do que nos melhores filmes policiais ou de guerra ou de ficção, deixa evidente que, para o futuro, novas e maiores precauções serão tomadas pelos mais poderosos!

Provavelmente, os sujeitos do costume continuarão a saber o que quiserem sobre cada um de nós e sobre as nossas vidas e ambições, como se não lhes bastasse já, na prática, terem positivamente nas mãos deles o nosso destino individual e social...

Mas se tudo isto até pode nem interessar muito aos médicos, enquanto profissionais de saúde, o conhecimento de outros episódios recentes saídos da "Net", já nos pode e deve preocupar muito mais.

Surgem casos de miúdos, adolescentes, que se suicidam na sequência de quadros de assédio e de degradação psicológica a partir de sítios da internet que ninguém conhece, vigia ou controla. Ainda...

Um dos jovens, com quinze anos, acabou por pôr termo à vida porque das tais redes - ditas sociais - que cultivava e alimentava igualmente, não terá aguentado o homofobismo .

Os pais, como sempre - e este caso foi na Europa, em Itália, nos arredores de Roma, de nada sabiam, de nada desconfiavam, de nada supunham.

Bem sei que como estes pais infelizes, muitos outros pais passam, desgraçadamente, pelo drama da perda de filhos. Não se discute o seu sofrimento profundo, nem a tragédia, sejam quais forem os seus contornos, origem ou causas.

Mas convenhamos que dá que reflectir.

O papel dos médicos nas sociedades modernas deve ser, em minha opinião, muito mais assertivo na consciência social que é preciso construir e gerar. Não podemos limitar-nos a esperar que a procura dos cuidados assistenciais, no sentido clássico, nos entre pelas portas dos gabinetes de consulta ou pelas portas das urgências.

A função curativa dos médicos é expectável, obviamente.

A missão preventiva ou educativa para a saúde, se preferirem, ainda que em regra muito mais como intenção, desejo ou objectivo profissional do que propósito comum é possível agora.

Mas há que, assumindo a tarefa como espírito da profissão, ir mais longe e assumir através da Ordem ou Associação Profissional, conforme os países, num esforço exigente mas intransigente, ora crítico, ora pedagógico, a defesa da ética dos valores e da vida, afinal as razões pelas quais os estados delegam aquele poder...

E diria, mais vale fazê-lo por inteligência e antecipação, do que por obrigação e reacção...

 

Rui Cernadas

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