Rui Cernadas: um rol de problemas…
DATA
10/05/2013 02:38:00
AUTOR
Jornal Médico
Rui Cernadas: um rol de problemas…

Teremos chegado a um ponto em que não há dinheiro, dos contribuintes, para pagar o que se gasta em serviço público?Nem há dúvidas.O passo seguinte é saber que modelo de sociedade é que podemos, como Estado, manter ou sustentar!

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rui_cernadas.jpgA nossa civilização tem historicamente seguido caminhos que, provavelmente, terão ajudado a manter os extra-terrestres afastados do planeta Terra...

Por razões que todos conhecemos, uns mais e outros menos, ou por argumentos que uns sentiram e outros sentem.

Afinal, a essência da Humanidade, a Razão e o Coração...

A chamada "crise" é, agora, o fulcro de todas as notícias, de todos os noticiários, de todos os mercados, de todas as conversas e de todos os escritos. Mais do que uma inevitabilidade, uma tragédia, transformou-se numa obrigação social e intelectual.

Os médicos de família, como os cidadãos, sabem, conhecem e sentem a precipitação na pobreza de muitas pessoas e famílias, cujos postos de trabalho se perderam ou deslocalizaram numa mania que a Europa institucionalizou estupidamente.

E pior do que isso, assiste-se à "produção" de novos licenciados, para os quais não há perspectivas de colocação ou emprego, muitos deles a partirem para destinos, velhos e novos, de emigração.

Afinal, um balanço que claramente não consegue criar mais empregos do que os que se perdem.

Somos, porém, um país de paradoxos.

Todos achamos que o desperdício e a ineficiência campeiam, mas ninguém reconhece onde se deve proceder a cortes. Todos julgam que há corrupção e desonestidade em todo o lado e em todos, mas que se apurem os factos, assumam ou atribuam as culpas. O país está cansado de ouvir falar dos erros do sistema, mas o sistema nem é regenerado, nem é verdadeiramente avaliado.

Somos médicos.

E enquanto médicos, respeitadores de uma ética superior que nem manchas pontuais podem fazer ignorar ou desvalorizar. Mas de igual modo, não nos podemos alhear do que é realmente importante - a necessidade de tornar o SNS sustentável.

Portugal é um país com elevadíssimos gastos em saúde, tendo em conta o seu produto interno bruto.

2012 poderá ter sido, quando as contas estiverem concluídas e publicadas, o ano em que o orçamento da saúde atingiu maior montante, exactamente porque incluiu vultuosos pagamentos de dívidas anteriores, muito anteriores, quer a fornecedores, quer a profissionais.

É por isso que a questão dos custos e do seu conhecimento pelos utentes, na condição de doentes, é indispensável no processo de consciencialização e informação de cidadania.

Quanto custa ao SNS a realização de um exame ecográfico, de uma TAC, de uma cirurgia ou até de um medicamento dispensado numa farmácia hospitalar ou outra?

Teremos chegado a um ponto em que não há dinheiro, dos contribuintes, para pagar o que se gasta em serviço público?

Nem há dúvidas.

O passo seguinte é saber que modelo de sociedade é que podemos, como Estado, manter ou sustentar!

E este é outro dos paradoxos.

Queremos pagar menos impostos.

Por isso teremos de cortar na despesa pública!

Como diria um outro, muito badalado: "é preciso crescer, o mal do país é não crescer..."

Para haver crescimento económico, teremos que baixar impostos e contribuições e o Estado terá que pagar o que deve. Mas para que isso aconteça, é preciso baixar a despesa.

Ou seja, em tempos de escassez de recursos, há que ter uma noção essencial - a dotação dos direitos sociais tem que estar indexada à condição económica.

Os hábitos de consumismo, quer do lado da procura, quer do lado dos profissionais, designadamente em termos hospitalares no que toca à utilização dos meios diagnósticos, implicam mais do que discussões em torno da racionalização, da priorização ética e científica das questões e dos dilemas.

A ambiguidade perdeu espaço e a polémica com argumentos falaciosos pode ser intelectualmente interessante, mas improdutiva.

Os médicos não são estranhos à crise...

Nem são alheios à discussão em curso.

Temos que compreender que planear em saúde ou estabelecer prioridades em saúde, não significa não tratar, ou não poder tratar. Tratar, implica para o decisor - o médico -, pôr uma ordem, por si definida, não segundo critérios pessoais ou feelings, mas por guidelines ou normas que, do mesmo modo, não o tornam num executor de ordens estatais ou cumpridor de regras impostas, preservando-o de, querendo e justificando, fazer e adoptar outros procedimentos!

Não vai ser fácil, mas trata-se de matéria civilizacional em ebulição...

Rui Cernadas

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