Jorge Nogueira: venda suspensa: o Não-Verbal
DATA
11/02/2013 08:13:54
AUTOR
Jornal Médico
Jorge Nogueira: venda suspensa: o Não-Verbal

Quando dirijo o olhar durante mais de 5 segundos para uma determinada parte do corpo de um doente, mesmo sem dizer nada, ele começa, acto contínuo, a despi-lo, impelido por uma força que não sabe identificar e não consegue vencer

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  jorge_nogueira.jpgCom o correr dos anos e o decurso do tempo, fui adquirindo o que se chama um olhar intenso. Não é a experiência temperada de sabedoria, mas antes a miopia e duas operações às cataratas. Tenho a convicção, confirmada por investigação qualitativa e casos concretos, de que quando dirijo o olhar durante mais de 5 segundos para uma determinada parte do corpo de um doente, mesmo sem dizer nada, ele começa, acto contínuo, a despi-lo, impelido por uma força que não sabe identificar e não consegue vencer. Essa força emana de mim, é irresistível e eu não tenho o menor controlo sobre ela. Por exemplo, há dias uma doente vinha-se-me queixar de umas dores quaisquer num tornozelo. Sem dizer uma palavra, afastei a minha cadeira de rodas da secretária para ver melhor. Abro um parêntesis para dizer que uma das coisas que mais me distinguem dos doentes é que a minha cadeira tem rodas e braços, embora eu não seja paraplégico, e a deles não, é um privilégio do qual não prescindo. Afastei portanto a minha cadeira da secretária usando para isso o privilégio das rodas e dirigi o meu olhar intenso para o seu tornozelo dolorido. Confirmando a minha hipótese qualitativa, a doente obedeceu à força que imediatamente se apoderou dela e começou a descalçar a sua bota de inverno com o ar sonolento de quem deixou cair as defesas. Depois de descalçar a bota, no sentido concreto e não figurado - não há sentidos figurados que resistam ao meu olhar - passou a descalçar a meia debaixo da bota e colocou o seu pé nu, sem cerimónia, em cima da secretária para eu ver o inchaço. Mais uma vez pude confirmar que, infelizmente, o meu olhar faz só aquilo que ele quer e raramente aquilo que eu lhe mando, e não pude deixar de sentir uma pouco menos que intensa indignação. Nos últimos tempos tenho ouvido dizer que faz falta ouvir os doentes, e embora eu não perceba muito bem porquê, uma vez que eles mentem quase sempre e atrapalham o diagnóstico em vez de o facilitar, dispus-me a ouvir o discurso que a doente tinha começado no exacto momento em que o seu pé esquerdo iniciara a viagem ascendente em direcção à minha secretária. Procurei olhar com interesse para o tornozelo pousado à frente do meu nariz, escutei uma história que prometia eternizar-se, e só quando ela chegou ao fim resolvi intervir. Como tenho feito umas formações em assertividade e em comunicação, e tenho ouvido regularmente os discursos do ministro das finanças, dirigi à doente uma frase única, que procurei tornar bastante clara, e separando bem as sílabas conforme ouvi fazer aos meus mestres, disse-lhe: tire - o - seu - pé - de - cima - da - secretária. Decidi correr o risco de ser acusado de falta de educação e não acrescentei "por favor", até porque um favor é uma coisa que se pode sempre recusar. Apanhada entre a intensidade do meu olhar e o peso das minhas palavras, a pessoa rebobinou o movimento anterior e reconduziu o pé ao lugar que lhe pertence, nomeadamente o chão.

 

Aquilo que eu consigo sem querer com os olhos, outros médicos fazem-no, decerto também sem querer, com outras partes do corpo. Havia um amigo meu que tinha um dorso intenso: cada vez que virava as costas a um doente aconteciam coisas inesperadas. Contou-me que uma vez estava de banco num hospital, era ele então interno de pediatria, e num período em que havia menos crianças resolveu ir ajudar os colegas mais novos que estavam no balcão de mulheres. Os balcões desse hospital tinham uma arquitectura inovadora - ou talvez primitiva, não sei -, a qual obrigava os médicos a ouvirem os doentes de pé e a voltarem-lhes as costas para escreverem as notas em cima de um móvel alto e inclinado, com um rebordo para os papéis não caírem. Um verdadeiro balcão, portanto. O meu inefável amigo atendeu uma senhora que tinha queixas de índole ginecológica. Conta ele que se virou para a parede para escrever as suas notas e quando voltou à posição inicial para retomar o contacto visual com a doente, esta já se tinha desembaraçado da roupa que trazia da cintura para baixo, a qual jazia no chão espalhada em volta dos pés, e preparava-se para lhe mostrar com toda a precisão o lugar onde residia a sua queixa. Isto em plena sala, em autêntico ambiente tribal (as lusitanas). o meu amigo compreendeu então que a doente tinha sido vítima do seu efeito dorsotrópico: nada a fazer, pensou ele, este poder irresistível é o meu talento e a minha maldição.

É com base nestes dois casos verdadeiros que quero aproveitar a oportunidade que o "Médico de Família" me oferece para alertar para os perigos do não-verbal. O verbal também os tem, veja-se o caso da criação, narrado na bíblia, "no princípio era o verbo", e o que aconteceu depois disso. Mas ao menos a gente só solta dos lábios as palavras que quer, em sílabas mais separadas ou mais reunidas. Diz-se que quem mais fala mais mente, ora não é a mentira um elemento fundamental de qualquer civilização que se preze, de qualquer cultura evoluída?  

 

Jorge Nogueira

 

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