Rui Cernadas: os cidadãos e o SNS
DATA
06/12/2012 08:26:35
AUTOR
Jornal Médico
Rui Cernadas: os cidadãos e o SNS

As notícias têm a capacidade de nos encher a vida, espatifando quantas vezes a nossa alegria, esmagando-nos sob o peso do sentido das implicações ou, outras tantas vezes, deixando-nos mais livres e bem dispostos

 

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rui_cernadas.jpgA cada dia somos confrontados ou surpreendidos pelas nossas vidas, que nos pregam algumas partidas, nem sempre esperadas e nem sempre agradáveis.

De igual forma, as notícias têm a capacidade de nos encher a vida, espatifando quantas vezes a nossa alegria, esmagando-nos sob o peso do sentido das implicações ou, outras tantas vezes, deixando-nos mais livres e bem dispostos.

Vão-se tornando recorrentes nos jornais, nas rádios e nas televisões, as informações segundo as quais, em Portugal, os índices de confiança, de satisfação, de esperança, de crença no futuro, por exemplo, são dos piores da Europa e arredores, ou que nos colocam na cauda dos países ditos desenvolvidos ou enfim que, nos deixam envergonhados e quase arrependidos de sermos Portugueses!

De modo inverso, surgem outras notícias igualmente constrangedoras: há uma longa lista de países e de sociedades que são melhores do que nós em toda uma série de coisas, importantes para as nossas vidas, remetendo-nos para os últimos lugares dessas classificações.

As histórias desta história poder-se-iam suceder de forma quase infindável, fazendo-nos crer que, de facto, somos uma completa desgraça e miséria...

Sendo que já parece que o somos.

Em todo o caso, há claramente um conjunto de questões que nos animam e levam a discussões muito interessantes e elevadas, sob o ponto de vista intelectual.

E isso é o que manifestamente importa, depois de tratados os temas da fome, do desemprego e da falta de valores éticos e morais.  

Há, na Saúde, espaço amplo para a procura e identificação de problemas ou questões justificativas de reflexão.

Seja do ponto de vista dos utilizadores, seja do dos profissionais, a diversidade é manifesta.

E isso faz da Saúde um campo rico para o aprofundamento de análises. Sobretudo numa época em que os desafios colocados são crescentemente inovadores e assustadores.

Por exemplo, um dos últimos doentes que assisti, veio consultar-me exactamente para me pedir que o referenciasse a um "especialista de rins". E acrescentou claramente, de modo a não me deixar qualquer dúvida:

- "Quero rebentar duas pedras no rim esquerdo pelo aparelho, sem tocar na pele!"

Por outro lado, são bem conhecidos os casos, já quase habituais, de doentes, ou familiares, interessados em discutir certos aspectos, quer de diagnóstico, quer de terapêutica, a partir dos seus entendimentos da "Net".

Ou seja, a disponibilização de tecnologias ou de simples informação, abriu novas portas e por consequência limites aos domínios de utentes ou doentes e de profissionais de saúde.

Caminhamos, assim, para um novo cenário, ou estaremos já, até, num novo paradigma, como diria o Professor Velez Lapão do "eSaúde".

De facto, não me parece que se possa pensar de forma diferente.

A própria OMS, já em 2007, centralizava a saúde em uma participação mais intensa e activa do cidadão, não afastando ou barrando o cidadão,  pelo contrário, valorizando o chamado processo de trazer ou colocar o utente no interior do sistema de saúde.

Este movimento, este esforço ou esta matriz compreensiva, poderá ter relevante significado num melhor uso e acesso aos recursos de saúde e dos seus sistemas públicos.

Primeiro, porque a promoção da informação melhora o grau do conhecimento dos cidadãos!

Depois, porque a abertura e evidência dos serviços de natureza assistencial, facilita a confiança nos mesmos.

Por fim, porque estes passos abrem caminho a uma maior responsabilização e educação dos cidadãos, o que reduz a pressão global sobre a oferta.

Estamos ainda, pelo menos em Portugal, muito longe de ganhar esta transferência de responsabilidade ou, no mínimo, esta partilha entre cidadãos e sistema de saúde.

Mas o rumo para o futuro passa por esta via...

Os órgãos de gestão pública dos serviços de saúde habituaram-se, pelo tempo e pelo facilitismo, a não sentirem ou sofrerem pressões ou necessidades de revisão dos seus processos de actividade, em sentidos lato e restrito.

Mas os tempos mudaram depressa.

A informação que não havia é já produzida e os indicadores de gestão vão melhorando e sedimentando.

Todos os processos estão em aberto e em revisão.

As ferramentas, como alguns gostam de sublinhar, estão aí disponíveis e em muitos casos já testadas e validadas.

A participação do cidadão no sistema público de saúde é um dever!

A resposta adequada e competente dos profissionais de saúde, de todos eles, é exigida!

É um direito do país sentir orgulho no seu SNS.

Mas é um dever do seu governo compreender a importância da medicina familiar e valorizar a interacção e maior ligação aos cidadãos.

E se possível, seria desejável que o explicasse.

Rui Cernadas
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