Rui Cernadas: médicos a mais ou a menos?
DATA
14/11/2012 04:32:43
AUTOR
Jornal Médico
Rui Cernadas: médicos a mais ou a menos?

Nuns dias é dito que o problema não é da falta de clínicos, mas da sua má distribuição. Noutros... Reafirma-se e assume-se que há dezenas de milhares de cidadãos que não têm médico de família e que para minimizar a questão... Vêm aí contratações, aos pacotes, de médicos extra-comunitários...

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rui_cernadas.jpgHá dias, a discussão quanto à necessidade de professores foi claramente ligada à redução, inequívoca, esperada e provavelmente crescente da natalidade. Uma coisa que todas as famílias percebem, porque têm menos filhos, menos netos e menos bisnetos!

Já o país não pode perceber como é que, ou há médicos a mais, ou há médicos a menos, flutuação que parece depender exclusivamente das variações climatéricas...

Nuns dias é dito que o problema não é da falta de clínicos, mas da sua má distribuição. Noutros... Reafirma-se e assume-se que há dezenas de milhares de cidadãos que não têm médico de família e que para minimizar a questão... Vêm aí contratações, aos pacotes, de médicos extra-comunitários...

Noutros dias ainda, ouvimos os jovens médicos a protestar contra a falta de colocações, ao mesmo tempo que assistimos a entradas de números elevados ou exagerados de alunos nas escolas médicas nacionais, havendo ainda quem defenda novos cursos de medicina, públicos ou privados, aqui ou ali.

Sucede porém que, pelo menos mensalmente, sai ou é publicado algum estudo que demonstra que há excesso de médicos especialistas, no mínimo em algumas especialidades e em alguns hospitais!

Pelo meio, sabemos que algumas dezenas de licenciados em medicina, cidadãos portugueses, são convidados ou candidatam-se e são aceites, para carreiras médicas compensadoras sob o ponto de vista financeiro... No estrangeiro.

Parece que ninguém se entende e provavelmente todos, menos os que crêem serem precisos mais alunos de Medicina ou cursos do mesmo, terão razão e razões...

Quando ainda por cima, são muitas e muitas as famílias portuguesas que mantêm em faculdades médicas europeias os seus filhos e filhas a prosseguirem os cursos em que, por cá, não conseguiram entrar.

E ventila-se a possibilidade de se repetir com os licenciados em Medicina o que se verificou já com os de direito ou de enfermagem, num cenário de incapacidade lógica de encontrar colocação ou saída...

Ao nível da Medicina Geral e Familiar, há regiões e territórios que têm carências de médicos, algumas vezes por argumentos que têm a ver com uma enorme dispersão de microunidades de saúde, em que um médico e um enfermeiro pelo menos, garantem um horário ridículo e repartido em dois ou três dias de semana e duas ou três horas de presença física... para "garantir" a saúde das populações.

É certo que medidas como a da actualização dos ficheiros de utentes inscritos, agora e regularmente, tornam menores as necessidades reais.

Em alguns casos, temos já exemplo de que, com a constituição das unidades de saúde familiar (USF) e activação dos ficheiros de utentes pelo trabalho desempenhado a partir da definição dos indicadores contratualizados, há registo de que em certas áreas geográficas começaram já a sobrar clínicos...

Uma visão retrógrada e estrábica que defenda a distribuição de médicos por freguesias ou concelhos, até, vai deparar-se e defrontar-se com a carência de técnicos, na saúde e em outros domínios.

Mas aí encontrar-se-ão muitas outras insuficiências, a começar pela do bom senso, da racionalização dos meios e dos recursos e da boa gestão, na salvaguarda real da segurança das pessoas e não só dos chavões demagógicos, fáceis e repetitivos.

Ao nível dos hospitais, a visão poderá encontrar algum paralelo. Mas existem diferenças.

Desde logo a de que o hospital é visto como um símbolo do poder local e/ou regional. Vai daí... Qualquer plano de actividade aponta para a criação de novas valências, especialidades, consultas ou serviços! Ampliações e investimentos constantes e sem enquadramento para o facto - fundamental - de que a rede hospitalar portuguesa foi concebida sobre uma espécie de pirâmide de diferenciação, para além de alguns gestos de irresponsabilidade política grave.

Ou seja, a curtíssimo prazo, um pequeno hospital cresce e desenvolve-se, tornando o hospital para o qual referenciava e se articulava, desnecessário, injustificado ou dispendioso.

Ou em função da sua tipologia estrutural e inserção na procura de cuidados de saúde, fica desadequado e deixa de poder garantir um leque de serviços que, para além do mais, só massa crítica suficiente permite manter treinado e com capacidade de resposta...

Ao ponto de se pôr em perigo a própria formação escolar nos grandes hospitais universitários em Portugal...

Nesta perspectiva gastadora e irracional, faltarão sempre especialistas, mas sob uma estratégia de rigor e de qualidade, a concentração de serviços, fará com que... Sobrem especialistas. Além de que esta concentração poderá garantir - com a noção de escala e outra dimensão - o treino e a eficiência das equipas multi-disciplinares e a segurança dos doentes.

Por outro lado, a actividade económica e industrial tem mostrado que a produtividade cresce com o alargamento e diversidade dos horários de funcionamento. Há muitas unidades fabris que produzem 24 horas por dia, em turnos ininterruptos, em seis ou sete dias por semana.

Mas nos hospitais, e na saúde em geral, não assistimos a tal medida organizativa do trabalho.

E não é concerteza em nome dos interessados doentes. A esses, depois de internados, tanto faz que sejam operados às dez da manhã, às dezassete da tarde ou às duas da madrugada!

A actividade programada tem por objectivo o planeamento da mesma e não o seu horário de execução.

Fechar os olhos e deixar tudo na mesma, seria sempre uma opção.

Mas convenhamos que não seria justo para os contribuintes!

 

Rui Cernadas

 

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